A ÚLTIMA AVENTURA DO CORONEL ALOYSIUS FARQUHART

por soaressilva

O Coronel Farquhart era o melhor assassino profissional do Egito. Em 1978, cansado da violência, ele mudou de nome para John Hollinghurst dos Anjos, e se mudou para o bairro da Mooca em São Paulo. Comprou uma lotérica, e prosperou por lá. Mas na verdade ele se transformou num aventureiro no bairro proibido da Mooca: sua intenção era de deixar de matar seres humanos e matar apenas os zumbis que a Máfia Chinesa mantém sob seu controle nesse famoso e misterioso bairro paulista.

Mortos três ou quatro zumbis que coletavam dinheiro de padarias para a Máfia Chinesa, o Coronel Farquhart foi jurado de morte numa reunião de urgência da MF no subsolo de uma concessionária Tio Bonadei.

-Morte! – disse Ah Sun Long, um mandarim tão maligno que sonhava com a possibilidade de torturar o sol e as nuvens.

O melhor assassino profissional da Máfia Chinesa, Toi Han, partiu para matar o melhor assassino profissional do Egito. Partiu de fusca, é lamentável dizer; e o seu fusca morreu, sem gasolina, na esquina da Procópio Ferreira com a Comendador Gertrudes Himmelfarb.

O melhor assassino da Máfia Chinesa pegou um ônibus para ir matar o melhor assassino do Egito. Mas no ônibus o cobrador lhe deu o troco errado e ficou insistindo que estava certo.

Toi Han ficou muito puto. Teve que decidir, na hora, se brigava com o verme, ou se o ignorava e continuava com a sua missão. Decidiu brigar. Matou o cobrador com uma adaga na narina, e vendo que o ônibus tinha onze testemunhas do seu ato, matou todos os dez passageiros e o motorista também.

Oito minutos depois Toi Han parou o ônibus cheio de cadáveres iluminados pela lua na frente da lotérica do Coronel Farquhart. O Coronel morava no andar de cima, onde se via uma janela iluminada.

Toi Han saiu pela janela do ônibus, subiu no teto do ônibus, e de lá saltou para a janela da casa.

Cautelosamente ele entrou na sala do Coronel Farquhart, que estava no sofá vendo um episódio de CHIPs e rindo muito.

-Hahahaha! Esse Ponche!…

O sofá ficava de costas pra janela. Toi Han viu o topo da cabecinha branca do Coronel por cima do sofá. Em silêncio tirou da sacola nas suas costas duas adagas emei, que parecem flechas de metal, e colocando uma em cada mão, se aproximou devagar do sofá.

Sua intenção era enfiar as adagas emei através do sofá, matando o Coronel que ria das sandices do Poncherello.

Toi Han não gostava de CHIPs. Nenhuma reviravolta no episódio o distraiu. Ele foi avançando devagar para o sofá, ao ritmo excruciante de meio metro por minuto.

O que aconteceu, porém, é que CHIPs acabou, e logo começou A Mulher Maravilha. E Toi Han se distraiu um segundo olhando para Lynda Carter, que de fato era uma mulher magnífica.

-Que mulher bonita – Toi Han pensou. – Eu queria tanto uma mulher assim pra mim.

Toi Han era tímido com as mulheres. Achava mais fácil matar uma que conversar com uma.

Nisso saiu da sua distração e ouviu o Coronel dizendo:

-Olhe pra baixo antes de me atacar, chinês.

Toi Han viu que por baixo do sofá saía o cano de uma carabina, levemente levantado do chão e apontando para o seu rosto surpreso. A carabina estava sendo manipulada pelos pés nus e unhudos do Coronel Farquhart, que continuava vendo tevê sem se virar pra trás. O dedão do pé esquerdo do Coronel estava no gatilho enquanto o outro pé levantava a arma do chão.

Toi Han admirou enormemente esse truque, até mais do que havia admirado Lynda Carter.

-Rá! Pode me matar, inglês – Toi Han disse.

Mas Farquhart era na verdade escocês de Glasgow, tinha abandonado a Escócia cedo para percorrer o mundo, e era fanático pela Escócia, muito, e ao ser chamado de inglês seu dedão do pé tremeu de fúria no gatilho.

No entanto, ele se acalmou e disse:

-Já vi esse episódio. É um episódio peculiar. Não era uma série violenta, mas nesse episódio a Mulher Maravilha joga um avião contra um submarino nazista e mata todo mundo lá dentro.

-Loucura capitalista – disse Toi Han.

-Foi escrito por Lee Henry e Marcia Locklear, uma dupla de roteiristas casados e bastante socialistas. Eles também escreveram aquele episódio famoso de Remington Steele em que ele declama um poema de Vinícius de Moraes, só que com sotaque tão atroz que o ator, Pierce Brosnan, quebrou dois dentes ao falar um verso.

-Como você percebeu que eu estava chegando?

-O cheiro de onze cadáveres logo do lado de fora da minha janela só podia indicar a chegada da Máfia Chinesa. Qual o seu nome?

-Toi Han.

-Toi Han, meus pés estão começando a ficar cansados e pode ser que um espasmo muscular faça com que eu atire em você sem querer. Por que você não senta no sofá e vê esse episódio da Mulher Maravilha comigo? É o episódio favorito do Lyle Waggoner, o ator que faz o Steve Trevor.

-Eu tenho uma missão para cumprir, Coronel Farquhart.

-Deixe pra amanhã. Amanhã não tem nada que preste na tevê. Deixa as adagas emei naquela cadeira, e a sacola de armas no chão. Mais longe. Isso.

Toi Han sentou e viu um pouco de tevê.

-Quem é Steve Trevor, Coronel Farquhart?

-Tem dois. Tem o Steve Trevor pai e o Steve Trevor filho. Os dois são interpretados pelo ator Lyle Waggoner.

-Esse quem é?

-Esse é o pai. Ele é um major do exército americano e o interesse romântico da Mulher Maravilha.

-E essa?

-Essa é a Rainha Hipólita, líder das amazonas da Ilha do Paraíso e mãe da Mulher Maravilha. Milhares de anos atrás, ela e as outras mulheres da ilha eram escravas dos romanos e dos gregos. Mas elas se rebelaram e fugiram pra essa ilha. Nenhum homem pode por o pé na Ilha do Paraíso, To Han – sob pena de morte.

-Caramba!

-Pega um salgadinho de camarão. Mas o major Steve Trevor naufragou lá e a Mulher Maravilha se apaixonou por ele.

-Como você sabe tanto sobre séries, Coronel Farquhart?

-Porque eu coleciono a revista Astros Esplêndidos da TV. Tenho do número dois até a mais recente, número cento e cinco, com o Kojak e o Baretta fingindo que trocam socos na capa. Uma hora te deixo dar uma olhada.

Durante os primeiros minutos os dois homens assistiram tevê um pouco tensos, à espera de um golpe mortal desferido pelo outro. Depois foram relaxando, embora nunca perdessem de todo a consciência de onde estavam as mãos e os pés do companheiro de sofá.

Enquanto assistia o episódio da Mulher Maravilha, feliz pela primeira vez em muito tempo, Toi Han foi percebendo pelas marcas no chão que aquela não era a posição habitual nem do sofá nem da tevê.

Começou a pensar. Percebeu que o Coronel, assim que tinha sentido o cheiro de cadáveres vindo da rua, havia arrastado o sofá pra ficar de costas pra janela e, assim, parecer um alvo fácil.

Que armadilha mortal! Que homem! Além disso, servia os melhores salgadinhos de camarão da cidade.

-Muito bem, Toi Han – disse o Coronel no fim do episódio. – Volte amanhã. Aperte a campaínha e entre pela porta mesmo. Daí andamos até a minha biblioteca e duelamos até a morte.

Os dois se levantaram e, iluminados fantasmagoricamente pela luz de uma propaganda de chocolate Chokito que passava na tevê, se curvaram um para o outro.

 

*******

 

No dia seguinte Toi Han apertou a campaínha do Coronel. Estava cansado porque tinha saído de casa carregando uma mochila bastante pesada cheia de armas exóticas de corte, cujas lâminas foram atravessando a lona e machucando as suas costas e ombros, e ao chegar no seu fusca sem gasolina na Comendador Gertrudes ficou com medo de deixar a mochila dentro enquanto ia até o posto porque podiam quebrar o vidro do carro pra roubar. Teve que andar sete quarteirões no sol carregando a mochila até o posto de gasolina mais próximo, e depois voltar com um galão cheio de gasolina até o fusca, e só daí ir pra lotérica.

O Coronel Farquhart abriu a porta já estendendo uma limonada gelada pro Toi Han.

-Entra rápido. Tinha esquecido que hoje é dia do Columbo.

Toi Han desabou no sofá bebendo limonada gelada.

-Quem é Columbo?

O Coronel, que estava no ato de tirar as sandálias para ver o programa no máximo do conforto, se voltou horrorizado para Toi Han.

-Quem é Columbo? Como assim quem é Columbo, Toi Han?

-Meu pai vendeu nosso aparelho de televisão quando eu tinha onze anos para poder comprar uma escrava sexual, e nós nunca…

-Tudo bem. O Columbo é apenas o melhor detetive do mundo. Agora vamos ficar quietos pra ver. Tem brie com geléia de pimenta nesse pratinho. Aqui tem guacamole e nachos.

-Mas a gente devia lutar… – Toi Han disse, sem muita vontade, e já enchendo a boca de brie com geléia.

Mas o Coronel fez um gesto imperativo de silêncio porque um jogador de xadrez surdo e antipático estava colocando em execução um plano meticuloso de assassinato.

-Esse é o Columbo?

-Não, esse é o assassino. O Columbo não apareceu ainda.

Muitas tardes passaram os dois assassinos assim, e às vezes fins de tarde, inícios de noite, e noites inteiras: vendo Battlestar Galactica, Mary Tyler Moore, Bonanza, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, O Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, A Ilha da Fantasia, As Panteras, Dallas, Havaí 5-0, Jornada nas Estrelas, e até O Barco do Amor. Nos intervalos das séries os dois ficavam lendo exemplares velhos de Astros Esplêndidos da TV, às vezes com Toi Han muito entretido deitado no tapete, comendo salgadinhos de camarão.

-Um dia a gente tem que lutar, Coronel.

-Um dia, um dia.

-É que vai pegar mal pra mim na firma.

-Um dia a gente briga – prometia o Coronel Farquhart.

De fato pegou mal na firma. Toi Han recebeu o aviso de que devia ir sozinho e desarmado na misteriosa praia de Bertioga na manhã seguinte.

No final dos anos 70 e início dos 80 Bertioga era uma das praias mais charmosas do mundo. Nela o jetset caiçara se reunia para pescar e para vender raspadinha, e atrizes como Romy Schneider e Isabelle Adjani podiam ser vistas tomando sol em iates, se você tivesse um telescópio e algum distúrbio mental. Nos seus hotéis de luxo, que tinham a peculiaridade de não ficar ali mas em outras praias distantes como Saint Tropez ou Cannes, milionários do mundo todo se hospedavam.

Foi bem ali na Curva do Mosquito que Toi Han foi se encontrar com Ah Sun Long, o mandarim que comandava a Máfia Chinesa brasileira. Era um dia nublado no meio da semana e só Ah Sun Long estava no mar. Ele estava enfiado na água até o umbigo, usando uma máquina com uma manivela e fios de cobre para dar choques no famoso elemento natural.

Ele girava a manivela e mergulhava um fio de cobre na água, girava a manivela e saltava agilmente para mergulhar outro fio de cobre bem numa onda pequenininha.

Durante alguns segundos Toi Han ficou com pena do mar. Mas logo viu que a tortura não estava dando certo e o mar estava a salvo.

Ah Sun Long jogou a máquina de choques no mar e voltou para a areia, olhando para Toi Han com uma expressão de fúria implacável.

-Por que está demorando tanto pra matar aquele inglês? – o mandarim gritou, pingando maldade e água do mar. – Ele matou dois dos meus melhores zumbis ontem à noite. Dois! Um professor de latim e uma cabeleireira especializada em microfibras para o cabelo!

Toi Han se atrapalhou todo para responder, e Ah Sun Long o interrompeu:

-Você está gordo! Você entra na casa do Coronel e come a comida dele!

-Perdão, Ah Sun Long!

Toi Han se jogou na areia de forma abjeta.

-Imbecil! Compre o meu perdão com o sangue do Coronel Aloysius Farquhart!

Na mesma tarde Toi Han entrou resoluto no apartamento do Coronel e, recusando uma goiabinha, disse:

-Esta noite, Coronel, infelizmente, um de nós dois não estará vivo para ver o Barco do Amor.

O Coronel Farquhart não pareceu perturbado.

-Pode ser você? Você gosta muito menos do Barco do Amor do que eu.

-Estou falando sério, Coronel.

-Está bem. Sente, sente. Vamos ver Barnaby Jones, e duelamos depois.

-Ok. Só Barnaby Jones então.

-Isso – disse o Coronel, já sentando no sofá – Só Barnaby Jones.

Dois dias depois, sentado no mesmo sofá, Toi Han esfregava os olhos angustiadamente.

-Isso não está certo. A gente tinha que se matar mutuamente.

-Eu, pessoalmente, gosto muito de viver – disse o Coronel.

-Eu também. Não é esse o ponto.

-O ponto – disse o Coronel – é um só. É a sua hesitação em agir, Toi Han. O seu medo. A sua paúra descontrolada e ensandecida.

Toi Han corou até nos molares.

Eles vinham conversando sobre isso nos intervalos entre uma série e outra, ou caídos no tapete lendo Astros Esplêndidos da TV. Quando falou em medo o Coronel não se referia ao duelo que nunca travavam. Se referia a Tamara Lucas, uma estudante manca de biblioteconomia pela qual Toi Han estava apaixonado.

Meses antes Toi Han tinha matado o namorado de Tamara, na frente dela, e poupado Tamara porque tinha se condoído ao vê-la tentar fugir da cena do crime mancando aflita e linda. Como ele estava usando uma máscara de macaco do Planeta dos Macacos quando matou o namorado, ele poderia se apresentar para ela depois e ela não o reconheceria. Mas Toi Han se limitava a seguí-la de longe, no seu fusca pastel.

-Já te dei as dicas – disse o Coronel. – Anda direto pra ela na biblioteca, olha nos olhos dela, NÃO DESVIA OS OLHOS, e sorri. Daí espera um pouco e diz…

-Meu sorriso é monstruoso – disse Toi Han. -É o sorriso de um assassino.

-É o sorriso de um garoto tímido. Nenhuma mulher vai poder resistir a tamanha timidez aliada à sua reputação de assassino de dezenas ou talvez até centenas de seres humanos com graus variados de inocência.

-Você acha, Coronel?

-Tenho certeza. Depois das Panteras a gente vai sair e comprar umas roupas novas pra você, porque essas roupas de kung fu são um pouco incongruentes numa cidade brasileira.

-Ok.

O Coronel Farquhart treinou Toi Han em técnicas de sedução: negs, kino, empurra-e-puxa, e mais algumas técnicas egípcias que o ocidente nunca conheceu. E fez com que seu amigo assassino chinês treinasse essas técnicas sem parar, primeiro na frente do espelho, depois com um pôster de Farrah Fawcett-Majors de biquini, depois com um weimaraner, depois com um taxista velho, depois com uma velha, depois com uma gorda, depois com uma gordinha, depois com uma mulher quase bonita, depois com uma mulher dois-terços bonita, depois com várias mulheres cada vez mais lindas, e finalmente com Tamara Lucas.

O resultado disso é que duas semanas depois Toi Han e Tamara Lucas estavam sentados de mãos dadas no sofá do Coronel Farquhart, concentrados numa reviravolta um tanto picaresca no enredo d’O Homem de Seis Milhões de Dólares.

-Mas como é que o Steve Austin não tá vendo que o sasquatch tá pendurado no helicóptero! – Tamara Lucas berrou berraldina, fechando os olhos e fincando as unhas na mão apaixonada de Toi Han.

O Coronel na sua poltrona olhou para os dois um segundo, cofiou o bigode benignamente, e voltou a ver o episódio.

Ah Sun Long, no entanto, convocou Toi Han para o seu escritório que ficava nos fundos de um aviário, e enquanto Toi Han tinha os nervos esfrangalhados pelos gritos estridentes dos frangos, Ah Sun Long lhe mostrou sem dizer nada uma foto de Tamara Lucas comendo um sanduíche de porco.

-Se o Coronel Farquhart não estiver morto até amanhã – Ah Sun Long disse, – Tamara Lucas será informada de que foi você que matou o namorado dela.

Ah Sun Long gostava de drama. Lia Camilo, Suzana Flag, A Cabana do Pai Tomás. Preferia causar uma desilusão amorosa amarguíssima a torturar alguém fisicamente (embora gostasse muito de torturar alguém fisicamente).

Naquele dia Toi Han apareceu no apartamento do Coronel e já foi lhe dando um presente: o exemplar número um da revista Astros Esplêndidos da TV, o mítico exemplar com os Banana Splits na capa.

-Encontrei num sebo perto da represa de Guarapiranga.

O Coronel felicíssimo.

Se abraçam.

O Coronel nota o abatimento de Toi Han.

Pensa.

Suspira.

Diz:

-Não precisa falar nada, meu amigo.

-Não?

-Não. Hoje duelamos.

Assistiram juntos um último episódio de Baretta. Levantaram, foram até a cozinha. Beberam uma última limonada. Conferiram, olhando um nos olhos do outro, se o outro estava pronto.

Ambos se deram o ok com um pequeno erguer das sobrancelhas.

-Escolha as armas, Coronel.

-Faca.

-Escolho faca também.

O Coronel foi no seu escritório e escolheu uma Ontario Blackbird SK-5 de sobrevivência na selva. Toi Han abriu sua mochila e escolheu uma karambit.

Foram até o corredor do apartamento, e ficaram cada um numa ponta, a seis metros de distância um do outro.

E duelaram.

O melhor assassino da Máfia Chinesa atacou o melhor assassino do Egito; o melhor assassino do Egito se defendeu, e contra-atacou; a karambit bateu na SK-5; nós dos dedos bateram em maçãs do rosto; óculos escuros caíram no chão de tacos; tacos foram deslocados dos seus lugares; um quadro de vulcão em erupção caiu; a karambit extraiu sangue do antebraço do Coronel; a SK-5 perfurou a coxa, e logo depois o couro cabeludo de Toi Han; uma mão sangrenta agarrou um pulso; um joelho bateu num tórax; um dente quicou no corredor e foi parar na cozinha debaixo da geladeira; a SK-5 fez um longo corte nas costas de Toi Han; Toi Han ao recuar deixou um grande rastro de sangue na parede azul-clara do corredor; e os dois passaram a lutar na sala.

Da sala caíram pela janela, da rua chegaram brigando até a Professor Ataliba Hophop, onde entraram brigando numa casa de esfiha e fizeram uma pausa ofegante para comer quibe.

Pagaram (o Coronel emprestou dez reais para Toi Han) e continuaram a brigar no estacionamento da casa de esfiha, observados por uma multidão horrorizada e deliciada.

-Mata!

-Pula!

-Eita!

-São bons de briga!

Sem dúvida eram. Saltavam sobre carros fazendo glissades e in quartatas como se fossem Errol Flynns, e aos poucos foram banhando de sangue vários Celtas, Fits e Vectras, e perdendo aqui e ali pedaços de pele e nacos de carne. Por exemplo: o Coronel perdeu uma orelha, e Toi Han perdeu a batata de uma perna. Os espectadores da cena mal acreditaram quando viram uma batata da perna latejando espasmodicamente no asfalto como uma ratazana em agonia.

-Ai que desnecessarioooooooo!!! – gritou um menino de malha justinha, o Adilson.

Do estacionamento os dois foram lutando, mancando e rolando até a calçada, e dali pra dentro da loja de tapetes Sim Salabim. Os dois caíram numa pilha de cinquenta e seis tapetes persas, o Coronel embaixo, Toi Han em cima. Ali, durante dez minutos, cortaram-se cruelmente. O sangue encharcou os primeiros oito tapetes, e depois de algum tempo foi sendo absorvido pelos cinco tapetes seguintes.

-Perdão, Coronel! – Toi Han disse, chorando e esfaqueando. -Perdão! Perdão! Perdão!

-Eu é que tenho que pedir perdão, Toi Han – o Coronel disse.

-Por quê?

-Por isto – o Coronel falou depois de um movimento muito rápido do braço direito (foi a última vez que mexeu o braço direito ou qualquer outra parte do corpo).

Esse movimento com a faca fez com que o olho direito de Toi Han fosse parar em cima de uma mesa de fórmica a oito metros de distância.

Toi Han rolou de cima do cadáver do Coronel, e caiu no chão sangrando e berrando de dor e de tristeza.

Na porta da loja de tapetes Sim Salabim, Ah Sun Long, acompanhado de três acólitos e de um zumbi, bateu palmas de felicidade, porém com cuidado para não quebrar suas unhas longas e convolutas:

-Agora sim! Muito bem! Excelente!

Vamos cortar abruptamente? Para meses depois? (Vamos.)

Eis Toi Han e Tamara Lucas sentados no sofá do Coronel Farquhart. Eles vêem o Casal 20. O Coronel deixou o apartamento de herança para Toi Han, junto com a TV, os móveis, suas armas, um vidrinho com os testículos de Gamal Abdel Nasser (que o Coronel tinha arrancado pessoalmente) e todos os exemplares de Astros Esplêndidos da TV.

Toi Han usa um tapa-olho no olho direito. Durante as propagandas, levanta pra ir no banheiro ou na cozinha, e vai mancando devido à perda de vários músculos da perna, também direita.

Toi Han vê esse episódio do Casal 20 um tanto distraído. Ele costumava se identificar com Jonathan Hart, e sonhava em ser como ele. Mas desde que o Coronel morreu, ele sonha em ser como o Coronel.

Voltando para a sala com um copo de café com leite, Toi Han pára no corredor, olhando o retrato do Coronel Farquhart pintado por uma pintora egípcia famosa.

O Coronel, mais jovem, mais forte, bronzeado. No início da sua carreira. Antes das suas aventuras mais famosas. Fumando um charuto, sentado no lobby de um hotel de luxo no Cairo.

Toi Han olha para o Coronel.

O Coronel olha de volta para Toi Han.

O Coronel Farquhart parece sorrir para Toi Han.

Durante um segundo ele pousa nas coxas o jornal dobrado que estava lendo antes de ser interrompido rudemente por um pintor.

E claramente diz para Toi Han o que ele tem que fazer.

Toi Han volta para a sala, e se junta à namorada que está saindo do banheiro. Os dois vão mancando felizes até o sofá e continuam vendo o Casal 20.

Duas vezes Toi Han abre a boca para contar para Tamara Lucas o que o Coronel mandou fazer. Mas duas vezes ele fecha a boca sem dizer nada.

Alguns segundos depois, ele sussurra inaudivelmente para a tela da TV:

Vou matar Ah Sun Long. Vou matar Ah Sun Long.

Toi Han se certifica de que Tamara Lucas não ouviu nada. Ela continua vendo o episódio, absorta e com a boca um tanto aberta. Talvez um pouquinho lorpa.

E Toi Han mal consegue conter o sorriso diante da perspectiva de viver mais uma aventura, uma última aventura, uma última grande e gloriosa aventura, na companhia do Coronel John Long Felicius Aloysius Farquhart, C.B.E., O.B.E., V.C, libertador da Nigéria, castrador de Gamal Abdel Nasser, e supremo e magnífico bastardo.

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