A Regra dos Dois Degraus

Há a Regra do Um Degrau. Que é esta: uma classe social odeia sempre a classe que está um degrau abaixo dela.

Mas essa não é propriamente minha. Já vi comentada, sem esse nome, em livros sobre classes sociais que leio de vez em quando para poder desprezar todas com mais propriedade. E acho que o senso comum confirma, também.

O motivo dela aliás é óbvio: odiamos a classe abaixo da nossa porque é com ela que corremos o risco de sermos confundidos. Além disso é chato ser seguido assim tão de perto. A classe abaixo da nossa nos pisa nos calcanhares, ofega nas nossas nucas, apalpa nossos seios por detrás enquanto nos encoxa na pia. Em alguns momentos terríveis, olhamos para ela e ela toda nos parece uma caricatura repulsiva de nós mesmos, dos nossos primos e dos nossos tios, dos nossos Natais, das nossas festas de casamento, das nossas viagens.

Seremos assim? Não, não somos assim. Essa classe abaixo da nossa é que é assim. Querem nos imitar, mas, que burros!, não sabem propriamente como. Grudados nos seus sapatos, arrastam o papel higiênico da sua classe social pelos salões da nossa. Sem perceber! Che ridiculo!, como diria Julianne Moore no melhor filme que já houve.

Agora vou explicar a Regra dos Dois Degraus, que é minha com os carimbos da minha pata: uma classe social se identifica sempre com a classe que está dois degraus abaixo dela. (Pigarreio. Tomo um gole d’água.)

Proponho a existência destas classes sociais: realeza, classe alta, classe média, classe baixa.

A realeza, que é a classe que está mais para cima, se identifica com a classe média. E é amada de volta pela classe média exatamente por isso.

Inclusive tem o mesmo mau gosto da classe média. Não digo que a classe média seja a única com mau gosto – há um mau gosto característico de cada classe. O que digo é que a realeza e a classe média têm exatamente o mesmo mau gosto. Que é diferente do mau gosto da aristocracia – e é um tanto mais acentuado, methinks.

Isso foi notado por cada visitante do Castelo de Windsor, e veja também meu querido mameluco o gosto que os Romanovs tinham por ovos Fabergé. Romanovs de ambos os três sexos esfregavam os ovos Fabergé nas suas caras bigodudas de tanto amor que sentiam pelos ovos mais rococós. Aristocratas como a família de Nabokov os desprezavam por isso. Algumas casas dinásticas são um pouco menos vulgares, mas olha que todas elas são desprezadas pela aristocracia à sua volta. E sim, eu sei, aristocratas também têm mau gosto, estão longe de ser decoradores de interior; e o que é mais, se orgulham do seu mau-gosto; mas, de novo, é um mau gosto específico lá deles.

Esse amor da realeza pela classe média é fortalecido cada vez que ela percebe o quanto a classe que ela mais odeia, a classe alta (formada pela aristocracia ou pelo equivalente moderno da aristocracia) por sua vez odeia a classe média. O inimigo do nosso inimigo, etc.

Além disso a classe média, vista lá de longe pela realeza através dos seus binóculos de ópera, é para ela todo o povo, excetuada é claro a parte mais imundinha do povo. Quando a realeza diz que ama o povo, e acredito que ama mesmo (é o que estou dizendo desde o início, caramba), é da classe média que ela está falando, porque abaixo da classe média eles não enxergam muito bem e, se enxergassem, talvez não vissem diferença.

Agora a classe alta. Ela é formada hoje pelo equivalente moderno e degradado da aristocracia: a parte não novo-rica dos ricos, i.e. “dinheiro velho”, mais as camadas intelectuais ou que se julgam intelectuais da própria classe média, como jornalistas, diretores de cinema, uma menina que leu três livros, etc. Esses últimos entram na classe alta por rejeição espiritual à classe a que originariamente pertencem: como um nadador se apoia com os pés na parede da piscina para pegar impulso, os intelectuais e quase-intelectuais apoiam os pés na cara dos seus pais de classe média e empurram firme e sem dó para se projetar planando até a classe alta. É verdade que raramente são aceitos pela classe alta, mas mentalmente é lá que estão, e é lá que os ponho.

Pois a classe alta também se identifica com a classe que está dois degraus abaixo dela: neste caso, o povo-povinho. A malta bacoca e leleira. Os famosos pobres! E cada vez que lêem na Veja ou acham que leram na Veja que a classe média despreza os pobres (ou temem, mas se temem têm razão), mais eles amam os pobres, em teoria e de longe pelo menos. Também por causa do princípio do o-inimigo-do-meu-inimigo-é-meu-bro.

O quê? Você acha que erro? Que a classe alta brasileira odeia os pobres? Mas por que você acredita num slogan desse tipo, certamente lido em seções de comentários? Você alguma vez já entrou na casa duma dessas senhoras de classe alta – mulher do dono dum banco ou filha sessentona do dono duma mineradora – uma dessas mulheres chamadas Patsy ou Vicky mais um sobrenome português – e já viu as coleções de BRASILIANA que elas têm? Acha que pode competir com elas, você cujas paredes estão enfeitadas de action figures? Pobre garoto de twitter! Já viu a coleção de fotos tiradas pelo filho delas, ele que visitou cada cidade pobrinha do Acre e de Tocantins? Suas fazendas se chamam Aymberé, com y, ou bons nomes lusobrasileiros tipo Água Fria. Essa gente fala sobre cachaça, rapadura, inhame. Mesmo em Paris! Mesmo em Paris essa gente fala de inhame. Essa gente ama o Brasil pobre com força caudalosa e abismal. Não entre jamais numa competição de amor ao Brasil pobre com um rico, você que nem sabe o que é urucum.

Note, meu caro chingling, que a Regra dos Dois Degraus envolve não só uma identificação com a classe que está dois degraus abaixo, mas também uma idealização. Todos nós já lemos esses romances brasileiros, ou vimos esses filmes brasileiros, em que pobres aparecem e ficam exercendo lá a função deles de serem dignos mesmo no sofrimento e no crime.

E todos esses príncipes do cinema e da canção, elegantes nos seus apartamentos em Paris, e nas fotos em que aparecem descalços e despojados nas suas casas de concreto e vidro! Chico! Vinícius! O Moreira Salles lá que faz filmes! Aristocratas de miçanga, todos eles. Já nem levo mais susto quando começam de repente a falar de Oxossi ou Ogum como se tivessem sido criados num terreiro. Como amam os pobres! Não, não estou nem sendo sarcástico, acho mesmo que amam os pobres. Só que se eu fosse pobre acharia esse amor repulsivo e condescendente, sei lá (porém já acho).

A Regra dos Dois Degraus termina na classe média. A classe média se identificaria muito com a classe que está dois degraus abaixo dela, se achasse que há uma. Mas não acha. Para ela há só pobres, logo um degrau abaixo. A classe média não distingue subclasses de pobre, só mencionam de vez em quando que um ou outro é mais esforçado, um ou outro mais desgraçado. Não culpo a classe média por isso, é difícil mesmo examinar a pobreza por tempo suficiente para fazer distinções.

Mas é verdade que até a Regra do Um Degrau pára na classe média. A classe média não odeia realmente os pobres, porque a classe média é a mais boazinha das classes. E por isso mesmo toma piparotes (quando não golpes de karatê) de todas as classes à sua volta. Não levaria golpes da realeza; não, senhor, seria amada pela realeza; seria, finalmente, amada por alguém.

Mas nós aqui no Brasil somos tão desgracentos que nem Imperador temos. Já tivemos, dizem; mas trocamos por uma sequência melancólica de chupatintas.