Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

Mês: abril, 2013

Tipos Urbanos

Connaisseur de decadência: pessoa ansiosa para detectar, antes de todos os outros, os primeiros sinais de que algo já não é tão bom quanto era. Exulta ao sentir que o leite já está um pouquinho azedo. No segundo episódio da segunda temporada de uma série que atingirá o ápice na terceira e quarta, diz que ela “perdeu o caminho”. A ansiedade em ser a primeira pessoa a notar esse primeiro sinal de decadência pode levá-la a fazer o anúncio muito antes que ele tenha de fato ocorrido, numa ejaculação precoce do senso crítico. (Ver críticos de Woody Allen, “pare de fazer filmes, Woody Allen”, que diziam isso na época de Another Woman, quando ele ainda nem tinha feito Crimes and Misdemeanors.) Quando comecei a escrever, logo que publiquei meu primeiro texto apareceu alguém para dizer que eu estava me repetindo, e que eu era melhor antes. Intimamente, concordei.

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Sabedoria 3

Qual é a sua opinião sobre suicídio?

Tenho um terror supersticioso de suicidas. Nem gosto de ler suicidas porque imagino que a cada parágrafo do livro minha mente está ficando mais parecida com a do suicida, cada vez menos capaz de sentir prazer na vida, e que de repente vou sair por aí rolando angustiado no tapete. Ter devoção a um autor é uma forma de canibalismo, de absorver alguma coisa dele, de ficar um pouco mais parecido com ele; e quem diabos quer ficar mentalmente parecido com Hemingway ou DFW?

A Direita política tem condições de crescer e se estabilizar no Brasil? Por quê?

Dois tipos de ser humano:

1) Os que adoram política;
2) Os que odeiam política.

Os primeiros costumam adorar política porque é um meio de se meter na vida dos outros, ganhar poder e dinheiro. Mentem para si mesmos dizendo que a motivação é outra. São na maioria de esquerda, porque é isso mesmo que é a esquerda.

Os segundos não querem se meter na vida de ninguém, nem que ninguém se meta na vida deles. São na maioria de direita, porque é isso mesmo que é a direita.

Portanto, não, a esquerda vai vencer sempre, porque é da natureza deles se organizarem para se meter na vida dos outros, e é da natureza da direita resmungar contra isso e depois tentar esquecer o assunto e voltar a viver a própria vida.

E o Stephen Colbert? Ele é engraçado!

Vilão de Batman.

Não lia “burraldino” há tempos, Lord. Tem mais palavras arcaicas na manga?

Abrindo aqui meu caderninho:

RONCOLHO (que só tem um testículo, mal-castrado)
ZANAGA (vesgo)
DURINDANA (uma espada qualquer; vem, claro, de Durandal, ou Durlindana, ou Durandarte, a espada de Rolando, como bem sabes, meu grande maroto)
DOIDARRAZ (bestalhão)
ASSUSTOSO (que dá medo)
BACOCO (ingênuo, pacóvio)
LELEIRA (fofoqueira)
COLOMINHAR (brincar)
MANINEL (homem afe, ou efe, minado)
MONDONGO (pessoa suja, desmazelada)
COLAREJA (feirante, mulher grosseira do povo)

Gosto de manter esse caderninho com palavras antigas, neologismos (popupa para o ato de algo aparecer em pop up; vi no twitter). Tenho usado algumas aqui e ali quando me soube bem. E aproveito para dar também duas palavras da língua inglesa, não, três:

AQUABIB (bebedor de água, que só bebe água)
LUNTING (andar fumando cachimbo)
CURGLAFF (o choque de mergulhar na água gelada)

Para que lado você beija?

Sempre para oeste de manhã e leste de tarde, porque o sol batendo nos olhos da sua adversária lhe dá uma vantagem significativa.

Pra ti onde termina a boa educação e o refinamento e começa a frescura arrogante e elitista?

É a mesma coisa, vista pelo lado de quem está dentro e pelo lado de quem está fora.

Sabedoria 2

Por que você se conforma em ter tão pouca empatia com os pobres? Não percebe que seus privilégios não são méritos, mas sorte por ter nascido como parte de uma minoria favorecida?

Quem disse que tenho pouca empatia? O que há é que quando tenho um sentimento bonito, ou qualquer coisa que possa causar um óóóuunn da pessoa que me lê, escondo-o logo como se fosse uma catota. Toda a vida sempre tive a compulsão de parecer canalha. E acho uma compulsão santa. Não só a minha mão esquerda não sabe o que faz a minha mão direita, tal como recomendado em Mateus 6:3, como ela acha a direita uma canalha. E a direita acha que a esquerda tem muito pouca empatia com os pobres. Estranho quem não faz o mesmo. Agir de outro modo é querer dar uma surra de bunda com os próprios sentimentos bonitos na cara estupefata da humanidade.

Será que um dia você vai conseguir escrever uma cena tão boa quanto a morte da Baleia em “Vidas Secas”?

Sempre acho graça quando alguém se espanta de que Graciliano Ramos faça chorar com “a morte de uma simples cachorra”. Ora, o que há de mais fácil é fazer chorar com cena de morte de cachorro, eles estão lá para isso mesmo.

Cheguei até a cunhar a frase “as doomed as a dog in a thriller”. Noventa por cento dos cachorros de filme morrem, e cem por cento dos que aparecem em thrillers e filmes de horror. Truquinho emocional mequetrefe, mas eficiente. Da minha parte não consegui nem olhar para a tela durante a morte do cachorro em “I Am Legend”.

“Vidas Secas”, o “Marley e Eu” da caatinga.

Seu próximo livro tem que ser sobre perenialistas!

Ainda acho que faltam bons romances sobre a vida na internet, sobre fóruns, blogs e trolls. Bons, repito eu. Quando a internet surgiu, apareceram dezenas de romances idiotas sobre “chats” e “amor nos tempos de internet”; e logo todos os personagens da literatura brasileira urbana estavam entrando online, com o afã de personagens de romances dos anos 20 mandando telegramas e dançando charleston em elevadores de arranhacéus.

Mas um bom romance sobre essa gente, os perenialistas-de-orkut, os anti e pró olavo, os blogueiros bons e maus, os portais surgindo e desaparecendo, as caixas de comentário com 300 comentaristas, etc. Sinto falta porque minha vida tem estado em grande parte ocupada com essas coisas, mas ninguém escreve bem a respeito. A dificuldade primeira é escrever sobre isso sem parecer um “jornalista de tendências”. Seria preciso alguém que não se sentisse todo moderninho só por estar escrevendo sobre internet.

Já tocou algum instrumento? Qual gostaria de experimentar?

Tive umas semanas de aula de violão quando era adolescente, mas desisti porque a mulher era muito chata, só queria falar das desgraças da vida dela e me ensinar a tocar mpb, que eu detesto.

Mas cada vez que ouço um músico tocando flamenco no violão, sempre imagino que estou numa loja de instrumentos, que peguei um violão para experimentar e comecei a tocar casualmente. A música tocando no computador e eu imaginando que sou eu que estou tocando, voltado para um canto, com as pessoas na rua parando na porta da loja para ouvir a música, às vezes com lágrimas nos olhos. “Olha seu moço o senhor tem muito talento” diz uma senhora na minha fantasia, apertando emocionada a minha mão, “ai fez o meu dia viu”. E eu agradeço com humildade e boto o violão de volta no lugar – a menos que a música seguinte já tenha começado no itunes. Nesse caso volto a fantasiar tudo de novo.

Queria saber tocar flauta, violão e piano.

Sabedoria

Você, como Pondé, também acha que o ser humano gosta de matar?

Mas deve ser gostoso mesmo. Às vezes acho que esses sujeitos que entram em faculdades e metralham todo mundo devem se sentir como alguém que ia comer só dois bis e acabou comendo a caixa inteira.

Não fala do Pondé, porque os textos dele me dão vontade de virar esquerdista.

Ele, o que é o caso também do Reinaldo Azevedo, escolheu ser a ala da direita que enfrenta diretamente a ala mais estúpida e numerosa da esquerda. Para fazer isso eles têm que combater obviedades com obviedades, coisas que são retardadamente falsas com coisas que são retardadamente verdadeiras. Alguém têm que fazer esse trabalho, e eu queria que o resto da direita parasse de sentir tanto nojo disso – porque se não fosse pela ala bronca, já teríamos sido enforcados nos chorões do Ibirapuera, nossos delicados pezinhos de direita-que-não-diz-obviedades balançando na água cheia de girinos.

Acha a tia Creuza do Adnet engraçada, Alexandre?

Não sei o que é isso. É tevê aberta? Não vou à tevê aberta desde 1991, tenho medo de ser assaltado. É como um imenso bairro industrial abandonado, cheio de Anas Marias Bragas fumando crack. Os pais do Batman foram mortos ao passear pela tevê aberta.

Você é mesmo kardecista?

Não. Estou com um pé na cara do cadáver de Kardec e o outro no primeiro degrau de uma igreja católica, segurando as calças para que não caiam, e exibindo uma constrangedora mas inegável ereção.

Súbita vontade de ler Coelho Neto

“O Senhor Coelho Neto como literato-político, fez forfait (…) As cogitações polítcas, religiosas, sociais, morais, do seu século, ficaram-lhe inteiramente estranhas. Em tais anos, cujo máximo problema mental, problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem, era uma reforma social e moral, o Senhor Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo (…) Em um século de crítica social (…) o Senhor Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico, um contemplativo (…) O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupa com o estilo, com o vocabulário, com a paisagem, mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do seu tempo.” (Lima Barreto)