Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

A ÚLTIMA AVENTURA DO CORONEL ALOYSIUS FARQUHART

O Coronel Farquhart era o melhor assassino profissional do Egito. Em 1978, cansado da violência, ele mudou de nome para John Hollinghurst dos Anjos, e se mudou para o bairro da Mooca em São Paulo. Comprou uma lotérica, e prosperou por lá. Mas na verdade ele se transformou num aventureiro no bairro proibido da Mooca: sua intenção era de deixar de matar seres humanos e matar apenas os zumbis que a Máfia Chinesa mantém sob seu controle nesse famoso e misterioso bairro paulista.

Mortos três ou quatro zumbis que coletavam dinheiro de padarias para a Máfia Chinesa, o Coronel Farquhart foi jurado de morte numa reunião de urgência da MF no subsolo de uma concessionária Tio Bonadei.

-Morte! – disse Ah Sun Long, um mandarim tão maligno que sonhava com a possibilidade de torturar o sol e as nuvens.

O melhor assassino profissional da Máfia Chinesa, Toi Han, partiu para matar o melhor assassino profissional do Egito. Partiu de fusca, é lamentável dizer; e o seu fusca morreu, sem gasolina, na esquina da Procópio Ferreira com a Comendador Gertrudes Himmelfarb.

O melhor assassino da Máfia Chinesa pegou um ônibus para ir matar o melhor assassino do Egito. Mas no ônibus o cobrador lhe deu o troco errado e ficou insistindo que estava certo.

Toi Han ficou muito puto. Teve que decidir, na hora, se brigava com o verme, ou se o ignorava e continuava com a sua missão. Decidiu brigar. Matou o cobrador com uma adaga na narina, e vendo que o ônibus tinha onze testemunhas do seu ato, matou todos os dez passageiros e o motorista também.

Oito minutos depois Toi Han parou o ônibus cheio de cadáveres iluminados pela lua na frente da lotérica do Coronel Farquhart. O Coronel morava no andar de cima, onde se via uma janela iluminada.

Toi Han saiu pela janela do ônibus, subiu no teto do ônibus, e de lá saltou para a janela da casa.

Cautelosamente ele entrou na sala do Coronel Farquhart, que estava no sofá vendo um episódio de CHIPs e rindo muito.

-Hahahaha! Esse Ponche!…

O sofá ficava de costas pra janela. Toi Han viu o topo da cabecinha branca do Coronel por cima do sofá. Em silêncio tirou da sacola nas suas costas duas adagas emei, que parecem flechas de metal, e colocando uma em cada mão, se aproximou devagar do sofá.

Sua intenção era enfiar as adagas emei através do sofá, matando o Coronel que ria das sandices do Poncherello.

Toi Han não gostava de CHIPs. Nenhuma reviravolta no episódio o distraiu. Ele foi avançando devagar para o sofá, ao ritmo excruciante de meio metro por minuto.

O que aconteceu, porém, é que CHIPs acabou, e logo começou A Mulher Maravilha. E Toi Han se distraiu um segundo olhando para Lynda Carter, que de fato era uma mulher magnífica.

-Que mulher bonita – Toi Han pensou. – Eu queria tanto uma mulher assim pra mim.

Toi Han era tímido com as mulheres. Achava mais fácil matar uma que conversar com uma.

Nisso saiu da sua distração e ouviu o Coronel dizendo:

-Olhe pra baixo antes de me atacar, chinês.

Toi Han viu que por baixo do sofá saía o cano de uma carabina, levemente levantado do chão e apontando para o seu rosto surpreso. A carabina estava sendo manipulada pelos pés nus e unhudos do Coronel Farquhart, que continuava vendo tevê sem se virar pra trás. O dedão do pé esquerdo do Coronel estava no gatilho enquanto o outro pé levantava a arma do chão.

Toi Han admirou enormemente esse truque, até mais do que havia admirado Lynda Carter.

-Rá! Pode me matar, inglês – Toi Han disse.

Mas Farquhart era na verdade escocês de Glasgow, tinha abandonado a Escócia cedo para percorrer o mundo, e era fanático pela Escócia, muito, e ao ser chamado de inglês seu dedão do pé tremeu de fúria no gatilho.

No entanto, ele se acalmou e disse:

-Já vi esse episódio. É um episódio peculiar. Não era uma série violenta, mas nesse episódio a Mulher Maravilha joga um avião contra um submarino nazista e mata todo mundo lá dentro.

-Loucura capitalista – disse Toi Han.

-Foi escrito por Lee Henry e Marcia Locklear, uma dupla de roteiristas casados e bastante socialistas. Eles também escreveram aquele episódio famoso de Remington Steele em que ele declama um poema de Vinícius de Moraes, só que com sotaque tão atroz que o ator, Pierce Brosnan, quebrou dois dentes ao falar um verso.

-Como você percebeu que eu estava chegando?

-O cheiro de onze cadáveres logo do lado de fora da minha janela só podia indicar a chegada da Máfia Chinesa. Qual o seu nome?

-Toi Han.

-Toi Han, meus pés estão começando a ficar cansados e pode ser que um espasmo muscular faça com que eu atire em você sem querer. Por que você não senta no sofá e vê esse episódio da Mulher Maravilha comigo? É o episódio favorito do Lyle Waggoner, o ator que faz o Steve Trevor.

-Eu tenho uma missão para cumprir, Coronel Farquhart.

-Deixe pra amanhã. Amanhã não tem nada que preste na tevê. Deixa as adagas emei naquela cadeira, e a sacola de armas no chão. Mais longe. Isso.

Toi Han sentou e viu um pouco de tevê.

-Quem é Steve Trevor, Coronel Farquhart?

-Tem dois. Tem o Steve Trevor pai e o Steve Trevor filho. Os dois são interpretados pelo ator Lyle Waggoner.

-Esse quem é?

-Esse é o pai. Ele é um major do exército americano e o interesse romântico da Mulher Maravilha.

-E essa?

-Essa é a Rainha Hipólita, líder das amazonas da Ilha do Paraíso e mãe da Mulher Maravilha. Milhares de anos atrás, ela e as outras mulheres da ilha eram escravas dos romanos e dos gregos. Mas elas se rebelaram e fugiram pra essa ilha. Nenhum homem pode por o pé na Ilha do Paraíso, To Han – sob pena de morte.

-Caramba!

-Pega um salgadinho de camarão. Mas o major Steve Trevor naufragou lá e a Mulher Maravilha se apaixonou por ele.

-Como você sabe tanto sobre séries, Coronel Farquhart?

-Porque eu coleciono a revista Astros Esplêndidos da TV. Tenho do número dois até a mais recente, número cento e cinco, com o Kojak e o Baretta fingindo que trocam socos na capa. Uma hora te deixo dar uma olhada.

Durante os primeiros minutos os dois homens assistiram tevê um pouco tensos, à espera de um golpe mortal desferido pelo outro. Depois foram relaxando, embora nunca perdessem de todo a consciência de onde estavam as mãos e os pés do companheiro de sofá.

Enquanto assistia o episódio da Mulher Maravilha, feliz pela primeira vez em muito tempo, Toi Han foi percebendo pelas marcas no chão que aquela não era a posição habitual nem do sofá nem da tevê.

Começou a pensar. Percebeu que o Coronel, assim que tinha sentido o cheiro de cadáveres vindo da rua, havia arrastado o sofá pra ficar de costas pra janela e, assim, parecer um alvo fácil.

Que armadilha mortal! Que homem! Além disso, servia os melhores salgadinhos de camarão da cidade.

-Muito bem, Toi Han – disse o Coronel no fim do episódio. – Volte amanhã. Aperte a campaínha e entre pela porta mesmo. Daí andamos até a minha biblioteca e duelamos até a morte.

Os dois se levantaram e, iluminados fantasmagoricamente pela luz de uma propaganda de chocolate Chokito que passava na tevê, se curvaram um para o outro.

 

*******

 

No dia seguinte Toi Han apertou a campaínha do Coronel. Estava cansado porque tinha saído de casa carregando uma mochila bastante pesada cheia de armas exóticas de corte, cujas lâminas foram atravessando a lona e machucando as suas costas e ombros, e ao chegar no seu fusca sem gasolina na Comendador Gertrudes ficou com medo de deixar a mochila dentro enquanto ia até o posto porque podiam quebrar o vidro do carro pra roubar. Teve que andar sete quarteirões no sol carregando a mochila até o posto de gasolina mais próximo, e depois voltar com um galão cheio de gasolina até o fusca, e só daí ir pra lotérica.

O Coronel Farquhart abriu a porta já estendendo uma limonada gelada pro Toi Han.

-Entra rápido. Tinha esquecido que hoje é dia do Columbo.

Toi Han desabou no sofá bebendo limonada gelada.

-Quem é Columbo?

O Coronel, que estava no ato de tirar as sandálias para ver o programa no máximo do conforto, se voltou horrorizado para Toi Han.

-Quem é Columbo? Como assim quem é Columbo, Toi Han?

-Meu pai vendeu nosso aparelho de televisão quando eu tinha onze anos para poder comprar uma escrava sexual, e nós nunca…

-Tudo bem. O Columbo é apenas o melhor detetive do mundo. Agora vamos ficar quietos pra ver. Tem brie com geléia de pimenta nesse pratinho. Aqui tem guacamole e nachos.

-Mas a gente devia lutar… – Toi Han disse, sem muita vontade, e já enchendo a boca de brie com geléia.

Mas o Coronel fez um gesto imperativo de silêncio porque um jogador de xadrez surdo e antipático estava colocando em execução um plano meticuloso de assassinato.

-Esse é o Columbo?

-Não, esse é o assassino. O Columbo não apareceu ainda.

Muitas tardes passaram os dois assassinos assim, e às vezes fins de tarde, inícios de noite, e noites inteiras: vendo Battlestar Galactica, Mary Tyler Moore, Bonanza, Jeannie é um Gênio, A Feiticeira, O Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, A Ilha da Fantasia, As Panteras, Dallas, Havaí 5-0, Jornada nas Estrelas, e até O Barco do Amor. Nos intervalos das séries os dois ficavam lendo exemplares velhos de Astros Esplêndidos da TV, às vezes com Toi Han muito entretido deitado no tapete, comendo salgadinhos de camarão.

-Um dia a gente tem que lutar, Coronel.

-Um dia, um dia.

-É que vai pegar mal pra mim na firma.

-Um dia a gente briga – prometia o Coronel Farquhart.

De fato pegou mal na firma. Toi Han recebeu o aviso de que devia ir sozinho e desarmado na misteriosa praia de Bertioga na manhã seguinte.

No final dos anos 70 e início dos 80 Bertioga era uma das praias mais charmosas do mundo. Nela o jetset caiçara se reunia para pescar e para vender raspadinha, e atrizes como Romy Schneider e Isabelle Adjani podiam ser vistas tomando sol em iates, se você tivesse um telescópio e algum distúrbio mental. Nos seus hotéis de luxo, que tinham a peculiaridade de não ficar ali mas em outras praias distantes como Saint Tropez ou Cannes, milionários do mundo todo se hospedavam.

Foi bem ali na Curva do Mosquito que Toi Han foi se encontrar com Ah Sun Long, o mandarim que comandava a Máfia Chinesa brasileira. Era um dia nublado no meio da semana e só Ah Sun Long estava no mar. Ele estava enfiado na água até o umbigo, usando uma máquina com uma manivela e fios de cobre para dar choques no famoso elemento natural.

Ele girava a manivela e mergulhava um fio de cobre na água, girava a manivela e saltava agilmente para mergulhar outro fio de cobre bem numa onda pequenininha.

Durante alguns segundos Toi Han ficou com pena do mar. Mas logo viu que a tortura não estava dando certo e o mar estava a salvo.

Ah Sun Long jogou a máquina de choques no mar e voltou para a areia, olhando para Toi Han com uma expressão de fúria implacável.

-Por que está demorando tanto pra matar aquele inglês? – o mandarim gritou, pingando maldade e água do mar. – Ele matou dois dos meus melhores zumbis ontem à noite. Dois! Um professor de latim e uma cabeleireira especializada em microfibras para o cabelo!

Toi Han se atrapalhou todo para responder, e Ah Sun Long o interrompeu:

-Você está gordo! Você entra na casa do Coronel e come a comida dele!

-Perdão, Ah Sun Long!

Toi Han se jogou na areia de forma abjeta.

-Imbecil! Compre o meu perdão com o sangue do Coronel Aloysius Farquhart!

Na mesma tarde Toi Han entrou resoluto no apartamento do Coronel e, recusando uma goiabinha, disse:

-Esta noite, Coronel, infelizmente, um de nós dois não estará vivo para ver o Barco do Amor.

O Coronel Farquhart não pareceu perturbado.

-Pode ser você? Você gosta muito menos do Barco do Amor do que eu.

-Estou falando sério, Coronel.

-Está bem. Sente, sente. Vamos ver Barnaby Jones, e duelamos depois.

-Ok. Só Barnaby Jones então.

-Isso – disse o Coronel, já sentando no sofá – Só Barnaby Jones.

Dois dias depois, sentado no mesmo sofá, Toi Han esfregava os olhos angustiadamente.

-Isso não está certo. A gente tinha que se matar mutuamente.

-Eu, pessoalmente, gosto muito de viver – disse o Coronel.

-Eu também. Não é esse o ponto.

-O ponto – disse o Coronel – é um só. É a sua hesitação em agir, Toi Han. O seu medo. A sua paúra descontrolada e ensandecida.

Toi Han corou até nos molares.

Eles vinham conversando sobre isso nos intervalos entre uma série e outra, ou caídos no tapete lendo Astros Esplêndidos da TV. Quando falou em medo o Coronel não se referia ao duelo que nunca travavam. Se referia a Tamara Lucas, uma estudante manca de biblioteconomia pela qual Toi Han estava apaixonado.

Meses antes Toi Han tinha matado o namorado de Tamara, na frente dela, e poupado Tamara porque tinha se condoído ao vê-la tentar fugir da cena do crime mancando aflita e linda. Como ele estava usando uma máscara de macaco do Planeta dos Macacos quando matou o namorado, ele poderia se apresentar para ela depois e ela não o reconheceria. Mas Toi Han se limitava a seguí-la de longe, no seu fusca pastel.

-Já te dei as dicas – disse o Coronel. – Anda direto pra ela na biblioteca, olha nos olhos dela, NÃO DESVIA OS OLHOS, e sorri. Daí espera um pouco e diz…

-Meu sorriso é monstruoso – disse Toi Han. -É o sorriso de um assassino.

-É o sorriso de um garoto tímido. Nenhuma mulher vai poder resistir a tamanha timidez aliada à sua reputação de assassino de dezenas ou talvez até centenas de seres humanos com graus variados de inocência.

-Você acha, Coronel?

-Tenho certeza. Depois das Panteras a gente vai sair e comprar umas roupas novas pra você, porque essas roupas de kung fu são um pouco incongruentes numa cidade brasileira.

-Ok.

O Coronel Farquhart treinou Toi Han em técnicas de sedução: negs, kino, empurra-e-puxa, e mais algumas técnicas egípcias que o ocidente nunca conheceu. E fez com que seu amigo assassino chinês treinasse essas técnicas sem parar, primeiro na frente do espelho, depois com um pôster de Farrah Fawcett-Majors de biquini, depois com um weimaraner, depois com um taxista velho, depois com uma velha, depois com uma gorda, depois com uma gordinha, depois com uma mulher quase bonita, depois com uma mulher dois-terços bonita, depois com várias mulheres cada vez mais lindas, e finalmente com Tamara Lucas.

O resultado disso é que duas semanas depois Toi Han e Tamara Lucas estavam sentados de mãos dadas no sofá do Coronel Farquhart, concentrados numa reviravolta um tanto picaresca no enredo d’O Homem de Seis Milhões de Dólares.

-Mas como é que o Steve Austin não tá vendo que o sasquatch tá pendurado no helicóptero! – Tamara Lucas berrou berraldina, fechando os olhos e fincando as unhas na mão apaixonada de Toi Han.

O Coronel na sua poltrona olhou para os dois um segundo, cofiou o bigode benignamente, e voltou a ver o episódio.

Ah Sun Long, no entanto, convocou Toi Han para o seu escritório que ficava nos fundos de um aviário, e enquanto Toi Han tinha os nervos esfrangalhados pelos gritos estridentes dos frangos, Ah Sun Long lhe mostrou sem dizer nada uma foto de Tamara Lucas comendo um sanduíche de porco.

-Se o Coronel Farquhart não estiver morto até amanhã – Ah Sun Long disse, – Tamara Lucas será informada de que foi você que matou o namorado dela.

Ah Sun Long gostava de drama. Lia Camilo, Suzana Flag, A Cabana do Pai Tomás. Preferia causar uma desilusão amorosa amarguíssima a torturar alguém fisicamente (embora gostasse muito de torturar alguém fisicamente).

Naquele dia Toi Han apareceu no apartamento do Coronel e já foi lhe dando um presente: o exemplar número um da revista Astros Esplêndidos da TV, o mítico exemplar com os Banana Splits na capa.

-Encontrei num sebo perto da represa de Guarapiranga.

O Coronel felicíssimo.

Se abraçam.

O Coronel nota o abatimento de Toi Han.

Pensa.

Suspira.

Diz:

-Não precisa falar nada, meu amigo.

-Não?

-Não. Hoje duelamos.

Assistiram juntos um último episódio de Baretta. Levantaram, foram até a cozinha. Beberam uma última limonada. Conferiram, olhando um nos olhos do outro, se o outro estava pronto.

Ambos se deram o ok com um pequeno erguer das sobrancelhas.

-Escolha as armas, Coronel.

-Faca.

-Escolho faca também.

O Coronel foi no seu escritório e escolheu uma Ontario Blackbird SK-5 de sobrevivência na selva. Toi Han abriu sua mochila e escolheu uma karambit.

Foram até o corredor do apartamento, e ficaram cada um numa ponta, a seis metros de distância um do outro.

E duelaram.

O melhor assassino da Máfia Chinesa atacou o melhor assassino do Egito; o melhor assassino do Egito se defendeu, e contra-atacou; a karambit bateu na SK-5; nós dos dedos bateram em maçãs do rosto; óculos escuros caíram no chão de tacos; tacos foram deslocados dos seus lugares; um quadro de vulcão em erupção caiu; a karambit extraiu sangue do antebraço do Coronel; a SK-5 perfurou a coxa, e logo depois o couro cabeludo de Toi Han; uma mão sangrenta agarrou um pulso; um joelho bateu num tórax; um dente quicou no corredor e foi parar na cozinha debaixo da geladeira; a SK-5 fez um longo corte nas costas de Toi Han; Toi Han ao recuar deixou um grande rastro de sangue na parede azul-clara do corredor; e os dois passaram a lutar na sala.

Da sala caíram pela janela, da rua chegaram brigando até a Professor Ataliba Hophop, onde entraram brigando numa casa de esfiha e fizeram uma pausa ofegante para comer quibe.

Pagaram (o Coronel emprestou dez reais para Toi Han) e continuaram a brigar no estacionamento da casa de esfiha, observados por uma multidão horrorizada e deliciada.

-Mata!

-Pula!

-Eita!

-São bons de briga!

Sem dúvida eram. Saltavam sobre carros fazendo glissades e in quartatas como se fossem Errol Flynns, e aos poucos foram banhando de sangue vários Celtas, Fits e Vectras, e perdendo aqui e ali pedaços de pele e nacos de carne. Por exemplo: o Coronel perdeu uma orelha, e Toi Han perdeu a batata de uma perna. Os espectadores da cena mal acreditaram quando viram uma batata da perna latejando espasmodicamente no asfalto como uma ratazana em agonia.

-Ai que desnecessarioooooooo!!! – gritou um menino de malha justinha, o Adilson.

Do estacionamento os dois foram lutando, mancando e rolando até a calçada, e dali pra dentro da loja de tapetes Sim Salabim. Os dois caíram numa pilha de cinquenta e seis tapetes persas, o Coronel embaixo, Toi Han em cima. Ali, durante dez minutos, cortaram-se cruelmente. O sangue encharcou os primeiros oito tapetes, e depois de algum tempo foi sendo absorvido pelos cinco tapetes seguintes.

-Perdão, Coronel! – Toi Han disse, chorando e esfaqueando. -Perdão! Perdão! Perdão!

-Eu é que tenho que pedir perdão, Toi Han – o Coronel disse.

-Por quê?

-Por isto – o Coronel falou depois de um movimento muito rápido do braço direito (foi a última vez que mexeu o braço direito ou qualquer outra parte do corpo).

Esse movimento com a faca fez com que o olho direito de Toi Han fosse parar em cima de uma mesa de fórmica a oito metros de distância.

Toi Han rolou de cima do cadáver do Coronel, e caiu no chão sangrando e berrando de dor e de tristeza.

Na porta da loja de tapetes Sim Salabim, Ah Sun Long, acompanhado de três acólitos e de um zumbi, bateu palmas de felicidade, porém com cuidado para não quebrar suas unhas longas e convolutas:

-Agora sim! Muito bem! Excelente!

Vamos cortar abruptamente? Para meses depois? (Vamos.)

Eis Toi Han e Tamara Lucas sentados no sofá do Coronel Farquhart. Eles vêem o Casal 20. O Coronel deixou o apartamento de herança para Toi Han, junto com a TV, os móveis, suas armas, um vidrinho com os testículos de Gamal Abdel Nasser (que o Coronel tinha arrancado pessoalmente) e todos os exemplares de Astros Esplêndidos da TV.

Toi Han usa um tapa-olho no olho direito. Durante as propagandas, levanta pra ir no banheiro ou na cozinha, e vai mancando devido à perda de vários músculos da perna, também direita.

Toi Han vê esse episódio do Casal 20 um tanto distraído. Ele costumava se identificar com Jonathan Hart, e sonhava em ser como ele. Mas desde que o Coronel morreu, ele sonha em ser como o Coronel.

Voltando para a sala com um copo de café com leite, Toi Han pára no corredor, olhando o retrato do Coronel Farquhart pintado por uma pintora egípcia famosa.

O Coronel, mais jovem, mais forte, bronzeado. No início da sua carreira. Antes das suas aventuras mais famosas. Fumando um charuto, sentado no lobby de um hotel de luxo no Cairo.

Toi Han olha para o Coronel.

O Coronel olha de volta para Toi Han.

O Coronel Farquhart parece sorrir para Toi Han.

Durante um segundo ele pousa nas coxas o jornal dobrado que estava lendo antes de ser interrompido rudemente por um pintor.

E claramente diz para Toi Han o que ele tem que fazer.

Toi Han volta para a sala, e se junta à namorada que está saindo do banheiro. Os dois vão mancando felizes até o sofá e continuam vendo o Casal 20.

Duas vezes Toi Han abre a boca para contar para Tamara Lucas o que o Coronel mandou fazer. Mas duas vezes ele fecha a boca sem dizer nada.

Alguns segundos depois, ele sussurra inaudivelmente para a tela da TV:

Vou matar Ah Sun Long. Vou matar Ah Sun Long.

Toi Han se certifica de que Tamara Lucas não ouviu nada. Ela continua vendo o episódio, absorta e com a boca um tanto aberta. Talvez um pouquinho lorpa.

E Toi Han mal consegue conter o sorriso diante da perspectiva de viver mais uma aventura, uma última aventura, uma última grande e gloriosa aventura, na companhia do Coronel John Long Felicius Aloysius Farquhart, C.B.E., O.B.E., V.C, libertador da Nigéria, castrador de Gamal Abdel Nasser, e supremo e magnífico bastardo.

Tetê Macabra e o Brasil Secreto

Tetê Macabra (née Mitchell Costa) era uma mecenas paulistana dos anos cinquenta e sessenta que costumava reunir na sua casa de Perdizes um bom número de gênios da arte.

Não quaisquer gênios da arte.

Nenhum gênio da arte que de fato e de modo óbvio produzisse arte. Se algo de bom se pode dizer sobre Tetê Macabra, é que tinha bom gosto demais para convidar para os seus chás (quartas e quintas) gênios explícitos e grosseiros como Di Cavalcanti ou Carlos Drummond de Andrade. Tetê Macabra convidava só quem ela pressentia ser um gênio da arte que jamais havia produzido arte alguma, que sequer falava de arte sem ser coagido, e que havia se enterrado em alguma profissão longe da arte e da sua irmãzinha imbecil, a boemia.

Nos seus chás apareciam engenheiros de minas, professores de karatê, massagistas, dirigentes de basquete, pilotos de helicóptero, dermatologistas. Eram todos gênios, ela dizia, ou pelo menos grandes talentos, ela dizia, da arte, embora não desenhassem nem cantassem nem coisa alguma. E percebia-se isso (mas só ela percebia isso, e talvez também seus escudeiros Nuno Tavinho e Dioná Pampulha), por sinais bem pequenos: a apreciação justa de uma goiabada, a escolha de duas palavras no meio de uma frase de seis, ou até uma pausa ou um franzir do nariz. Perto desses vidraceiros, dizia Tetê, perto deste zoólogo gordo e gago (apontando pra ele), como são imbecis, como são vulgares, como são pequenos os grandes gênios das enciclopédias.

Quando lhe perguntavam: e se chamássemos Vinícius? E se chamássemos Murilinho Mendes? – ela dizia: na minha casa jamais vão entrar essas (aqui fazia carinha de nojo) pessoas das enciclopédias. Um homem que entra numa enciclopédia – não há fracasso maior na vida. É quase tão ruim quanto aparecer na seção de crimes do jornal.

Gunther Baptista Briguet era um executivo meio-alemão meio-cubano que veio para o Brasil em 1959, fugindo da praga dupla da revolução cubana e do mambo. Gunther se estabeleceu primeiro em Ribeirão Preto, onde dirigiu uma fábrica de tinta (no singular: só fabricava uma cor, “stil de grain pardo”, pela qual era obcecado), e depois no Rio, onde se tornou presidente de uma companhia aérea cujos aviões eram todos pintados de stil de grain pardo.

Numa viagem de negócios para São Paulo, em 66, a então namorada de Gunther o arrastou da garçonnière que ele mantinha no Pacaembu para um chá na casa de Tetê Macabra, em Perdizes. “Vamos, amoreco, só dá gente bizarra.” Foram a pé, subindo com pernas bambas de sexo as calçadas íngremes dos dois barros vizinhos. Gunther era um homem quadrado e corpulento, com cabelo aloirado, e ela, sua namorada, esqueci. Suponho que era bonita.

A famosa casa de Tetê Macabra ficava no número 416 da rua Aimberê, então grafada Aymberê, onde é hoje a pizzaria Datemi un Martello. Ao contrário da pizzaria, que é uma construção sem graça de tijolo noturnamente transfixiada por uma luz azul fria que faz o fregueses de qualquer sexo parecerem prostitutas de George Grosz, a casa que ficava ali naquela esquina, naquela quarta de maio de 66, onde Gunther e sua namorada chegaram um pouco suados, era um palacete de Ramos de Azevedo com três andares, uma torrinha, uma garagem estreita e comprida que ficava numa construção separada, um jardim de palmeiras e um quintal de manacás.

Atravessaram o cascalho do jardim, Gunther e namorada esquecida, e depois de subir quatro degraus e da namorada (digamos que seu nome fosse Astrud) ter apertado a campaínha, a porta foi aberta por Nuno Tavinho, factotum da casa, taciturno, descalço, as barras das calças creme dobradas canelas acima, redolente de homossexualidade e esteticismo, como se os seus olhos doessem se esbarrassem em qualquer coisa menos bonita do que um quadro de William Turner. Entretanto isso não podia ser verdade, porque ele olhava todos os dias, e olhava com gosto, para o rosto inestético e charmoso de Tetê Macabra, tantas vezes comparado a uma lasca de um tronco de ipê carcomido pela chuva e coberto, em lugares assimétricos, de orelhas de pau.

E de fato esse era o rosto de Tetê Macabra, exceto que inteligente, uma característica que saltava dele pra fora com uma projeção espantosa; Tetê parecia tão inteligente que todos à sua volta queriam continuamente lhe perguntar o segredo da vida, e conviviam com ela na esperança de que, de comentário em comentário, ele fosse articulado de forma definitiva. Nunca foi, certamente; ou esquece esse certamente, talvez tenha sido; mas apesar dos esforços de Nuno Tavinho e Dioná Pampulha, que compilavam em papéis soltos tudo o que ela dizia, faltou que inteligências rabínicas analisassem o conjunto das opiniões de Tetê.

Haveria uma filosofia de Tetê Macabra? Uma visão do mundo? Na verdade não se sabe até hoje a opinião de Tetê sobre quase nenhum dos grandes assuntos – os comentários registrados por Tavinho e Pampulha são sobre bolos de fubá, gatos, design de carros, arquitetura indígena, drogas, dioramas, a onda dos frisbees, androginia, vitrais, cacomaníacos, a Nasa, sotaques dos diferentes bairros de São Paulo, e modos de fazer furos em cintos.

E lá estava esse mesmo rosto num canto da sala, os olhos projetando inteligência e desprezo para um vereador que falava, o Sr Ivan Bergamota. Embaixo do rosto de Tetê estava um corpo extraordinariamente em forma, e feminino, muito feminino, o que em contraste com o rosto feio era na verdade um atributo desagradável e chocante. Ou pelo menos essa foi a primeira impressão de Gunther, que continuou arrastando os olhos pela sala pra ver se havia lá pelo menos uma mulher bonita. Não havia.

Porém: assim que os olhos de Tetê se fixaram em Gunther, e Gunther, pobre Gunther, se viu o receptáculo passivo daquela inteligência, Gunther esqueceu a impressão de desagrado que tinha sentido cinco segundos antes, e a beleza dos olhos de Tetê adoçou o rosto todo que estava em volta, e o corpo bonito que ela empinou um pouco nesse momento (vestia um pulôver apertado nos peitos) terminou de fazer o serviço. Gunther se apaixonou – um pouquinho só, como era o seu jeito. Mas continuou segurando a mão suadinha de Astrud.

O pobre Sr Ivan Bergamota, vereador paranaense famoso por ter pensado em fazer uma biografia de Lêdo Ivo mas depois mudado de idéia, era um homem com a reputação de inteligente e por isso mesmo tinha sido trazido até ali naquela tarde como o convidado mais importante do dia. Mas aparentemente havia soçobrado, tropeçado nos degraus das próprias percepções tacanhas, enganchado os pés nas calças da mediocridade da qual desesperadamente tentava se livrar enquanto falava, falava e falava, sobre o movimento beatnik e rapazes cabeludos (ele “via valor” nessa gente; ele “tinha esperança nessa juventude”). Durante os prévios dez minutos Tetê Macabra havia furado as bochechas do orador paranaense com o seu olhar pontudo, deixando marcas de varíola que, vá lá, talvez estivessem lá antes, mas agora Tetê só olhava para Gunther.

Como era dura a indiferença de Tetê Macabra! O Sr Ivan Bergamota, cuja voz ribombante havia feito tremer partidos inteiros na Câmera Municipal de Curitiba, foi desinflando, desinflando, falando cada vez mais baixinho, até que a sua voz era um mero arzinho escapando de um pneu, e outras vozes a cobriram. Deu uma ou duas olhadas com raiva para Gunther Baptista e depois começou a palitar os dentes.

Astrud chegou perto de Tetê:

-Tetê lembra de mim Tetê? Astrud filha do Paschoal, vim aqui com a Doralice. Tetê esse é o Gunther Tetê, ele é cubano, executivo de avião Tetê, louco pra conhecer você e a turma.

Tetê estendeu um braço longo para Gunther Baptista. Gunther pegou o pulso dela com alguma brutalidade e se curvou, beijando as costas da mão dela.

A combinação de brutalidade e gentileza fez os peitos de Tetê Macabra arfarem brevemente, seus olhos se arregalarem. Meu Deus quem é esse bruto maravilhoso?

-Sente-se, sente-se, Gunther… Sente-se aqui do meu lado, Dioná está de saída…

Dioná Pampulha, pupila de Tetê – uma menina gordinha – passou a estar de saída no momento em que foi informada que estava de saída, e saiu da cadeira. Gunther sentou.

-Agora vamos falar da morte – Tetê sussurrou no ouvido de Gunther, deliciosamente, ele achou. – Morte, Pacheco -, ela disse mais alto para um homem magrinho de gola rolê.

Ele estava consultando umas anotações.

-Ah, hm, ah…

Consultou mais.

-A morte, sim, a morte.

De repente enfiou as anotações no bolso da calça, sorriu, juntou as pontas dos dedos das mãos frias e brancas e disse:

-Pois bem, a morte.

E começou a falar da morte.

Falou bem, Gunther achou, como um Montaigne com quinze pontos de QI a menos que improvisasse um ensaio do qual mais tarde se arrependeria e queimaria na lareira.

Falou sobre a morte de Sêneca, e a morte de Garrincha; depois passou a falar sobre o assassinato de Kennedy e a morte de um hamster seu quando tinha nove anos, ligando as duas coisas de maneira surpreendente (esqueci qual maneira); depois falou sobre a possibilidade de morte por ingestão de fugu; pessoas famosas que haviam morrido engasgadas; depois mencionou uma novela de Tolstói, sem conseguir lembrar o nome do personagem do criado; mas, seguindo o costume daquele círculo, de passar rápido pela arte e de preferir ser artístico escolhendo assuntos considerados inartísticos, girou toda a conversa de modo surpreendente e passou a falar de astrologia e de mortes bizarras em elevadores.

Terminou descrevendo um tronco humano cortado ao meio com a precisão de um Rembrandt do Lausanne Paulista. Gunther ficou impressionado. Pacheco era um dos astros do círculo de Tetê, e naquela tarde estava em forma.

A conversa foi se abrindo para todos. Alguns falaram belamente sobre a morte de uma taturana ou de uma língua; o vereador Ivan Bergamota falou estupidamente sobre Hamlet.

Nuno Tavinho veio com uma travessa de queijo, e muitos levantaram e foram conversar em grupos menores. Gunther foi falar com Pacheco, o grande Pacheco; ou pelo menos o relativamente grande Pacheco comparado com as outras pessoas que habitam no país; e descobriu que Pacheco era um fabricante de meias, luvas e gorros de lã.

-O Gunther tá lendo esse livro do Tolstói que o Pacheco falou, não tá, Gunther – Astrud disse para Tetê, que olhou interessadíssima para Gunther.

-De fato.

-E no entanto você não mencionou isso quando o Pacheco tocou no assunto – Tetê disse, – e deixou que ele ficasse quase um minuto tentando lembrar o nome do criado do livro!

-Gerasim. De fato. Não quis interromper.

Isso firmou a paixão, e mais que isso a admiração que Tetê passou a sentir por Gunther durante anos. Quando alguém menciona um livro, poucos de nós resistimos a dizer que o lemos; Gunther tinha resistido mesmo durante o silêncio gaguejante de um minuto do Pacheco tentando lembrar os detalhes do livro. E mesmo depois não teria dito nada, se Astrud não o dedurasse.

Tetê percebeu isso, sorriu e olhou para o tapete, subitamente tímida de excitação sexual. Pousou a mão no antebraço musculoso de Gunther.

-Quero saber tudo sobre você. Você é tão fechado, tão reservado. Não pode, isso é um crime…

Era costume de Tetê reclamar carinhosamente de tudo que ela adorava.

E reclamou de Gunther durante anos:

-Mas pode esse homem? Onde já se viu alguém assim?

Durante anos Gunther manteve sua independência, continuando a morar no Rio, visitando São Paulo em finais de semana alternados, e saindo com muitas mulheres diferentes nas duas cidades. Mas à custa de afeto e, talvez, pompoarismo (dizem), Tetê o domesticou. Gunther abandonou o emprego na companhia aérea e se mudou para o segundo quarto maior da casa, forçando Nuno Tavinho a ir para o antigo quarto do motorista na garagem. E Gunther reduziu sua lista de amantes para só duas, Tetê e uma outra, que não entra nesta história (Astrud a essa altura já estava casada com um cardiologista).

Do seu quarto, que tinha mandado pintar de stil de grain pardo, Gunther às vezes descia de pantufas, fumando um charuto, para ouvir as pessoas nos chás das quartas e quintas. Falava pouco. Comia bastante bolo, e ficou gordo. Comia bolo, comia bolacha, bebia vinho do porto, e estudava as pessoas que estavam falando e que estavam ouvindo.

Tetê, por sua vez, o estudava as estudando.

Ela sempre tinha a impressão de que a presença de Gunther naquela casa era um milagre e que ele podia abandoná-la a qualquer momento. Se estavam os dois sozinhos, ele sério, e ele recolhia o ar como se fosse falar sobre um assunto desagradável, ela sempre passava um ou dois ou três ou até quatro segundos de terror porque achava (ela nem sabia o motivo) que ele ia romper com ela. Mas no fim ele falava de outra coisa, de contas a pagar ou da chatice de um dos convidados. Ele viveu dezenove anos naquela casa, de onde só saiu morto.

À noite Gunther e Tetê sentavam em um sofá de vime na varandinha que dava a volta na torre. Ele acendia um cachimbo, e os dois matavam uma garrafa de whisky, às vezes seguido de drambuie. Devagar os dois preparavam uma lista de convidados para os chás da semana seguinte. Ela escolhia a maioria dos nomes. Ele só vetava alguns, sem abusar do seu poder de veto, ou insistia em dois ou três convidados pelos quais tinha algum apreço em particular e Tetê não.

De modo geral, concordavam. Gunther havia aprendido o jeito teteístico de apreciar as pessoas e as apreciava também de jeito muito parecido. Além disso, achava que Tetê tinha uma sensibilidade maior que a dele para detectar gênios desconhecidos.

Aquelas pessoas – Tetê, Gunther, Nuno e Dioná, e mais toda a reserva de engenheiros, empresários, floristas, massagistas, herdeiros, michês, someliês, desempregados e olheiros de futebol de que dispunham – aquelas pessoas haviam se deparado umas com as outras na vida e ficado muito espantadas com o fato de não serem imbecis. Não teriam feito nada a respeito, só admirado as mútuas existências, se não fosse o gênio de Tetê, que fez com que todos se agarrassem com algum desespero no meio da brasilidade inclemente que os cercava, e se encontrassem às quartas e quintas para, durante quatro horas semanais, não serem imbecis juntos, não serem imbecis numa sala, não serem imbecis enquanto comiam sanduíches de pepino.

Uma noite, ainda no início do relacionamento, Gunther e Tetê fumando juntos na varanda da torrinha, Gunther massageando o próprio pé de meia, Gunther ficou um pouco em silêncio. Depois falou:

-Me ocorre algo que não é possível provar, Tetê.

-O quê, Gun?

-Venho pensando nisso faz tempo.

-Mas o quê, Gun, homem de Deus?

-Que em cada geração os homens mais inteligentes não sentem a necessidade da fama, e que portanto permanecem secretos. Digamos assim, em cada geração há uma casta secreta de homens de bom gosto existindo ao mesmo tempo em que a casta aparente de intelectuais. Entre a casta aparente de intelectuais, uns poucos têm talento, e uma maioria é imbecil. Entre os imbecis estão a maior parte dos escritores e jornalistas conhecidos de cada época, por mais respeitados que sejam. Eles não se dedicam de fato à vida da mente, mas enganam durante algum tempo, e talvez enganem a eles mesmos; ou talvez até se dediquem à vida da mente, mas imbecilmente, que é o que podem fazer com a mente que eles têm.

-Você devia repetir isso no chá de quarta, Gun.

-Repetirei. Mas ouve. Na casta secreta estão só as pessoas que genuinamente se dedicam à vida da mente, mas que nasceram sem a necessidade de tornar o próprio nome famoso. Alguns deles publicam um livro, mas não fazem nenhum esforço para promovê-lo, como a Estelita e o Ascasubi, ou para publicar um segundo, como o Dr Muller; outros publicam dois ou três, mas só espalham entre amigos, como o Pacheco; outros escrevem um ou outro artigo para jornal, talvez um jornal de associação profissional ou algo igualmente obscuro…

-Outros escrevem cartas para os amigos, como a Núria… – disse Tetê.

-Sim, como a Núria. Ou livros que deixam na gaveta. – Gunther não falou, e Tetê não sabia, mas ele mesmo tinha alguns contos na gaveta. – Minha idéia é que essas cartas, esses livros que ficaram na gaveta, essas conversas que os membros da casta secreta tiveram uns com os outros, são em cada geração a verdadeira vida civilizada existente, e não as obras-primas visíveis e conhecidas – ou pelo menos não só as obras-primas visíveis e conhecidas. E que da mesma forma que existe uma tradição contínua entre as castas aparentes se estendendo da Grécia até hoje, há também uma tradição secreta se mantendo através dos séculos – não no sentido de que ela lutou para ser esotérica, não no sentido de colégios místicos de origem hindu, mas só no sentido de que essa tradição secreta foi sempre demasiadamente discreta e tranquila para ser conhecida. Como essas obras secretas não são publicadas, ou se são publicadas não sobrevivem, ou sobrevivem com uma certa fama discreta que vai morrendo aos poucos, essa tradição é passada adiante de pai pra filho, de tio para sobrinho, de padrinho para afilhado, de mentor para protegé etc, através de conversas e do contato diário. Estou falando, claro, de pessoas como as que recebemos aqui, especialmente o Pacheco, a Núria, o Dr Ricardi, a Helen Stormbringer – pessoas que não se tornaram famosas não porque tentaram e não conseguiram, nem porque lutaram muito no sentido oposto (o que lhes daria uma aura de sociedade secreta que eles achariam um pouco ridícula), mas simplesmente porque queriam alguma outra coisa da vida – sossego, dinheiro, passear no parque com o neto, jogar frisbee, o que seja.

-Você está falando de você mesmo, Gun.

Gunther fingiu que ignorava isso e passou a mão distraidamente nos seios de Tetê.

-Essas reuniões, esses chás que você faz, desde 45, é isso?, esses chás, essas reuniões, me mostraram isso com muita clareza. Acho que em cada geração a civilização é mantida viva porque foi discretamente carregada nos ombros caídos de gente como o Ferreira Schumann, a Sônia di Pacci, a Helen Stormbringer, enquanto a casta aparente fazia discursos solenes e sonolentos, e escrevia editoriais imbecis, e, sim, muito ocasionalmente, e ocasionalmente demais, obras-primas.

Tetê colocou a mão entre as pernas dele.

-Fale mais – ela disse.

-Acabei. – Ele sentou pra trás na cadeira e abriu mais as pernas gordinhas. – Bom, era isso. Queria agradecer você por, com o seu esforço, reunir essa gente, e me fazer ver essas coisas.

-Essas coisas todas?

-É.

-E como é que você vai me agradecer por isso tudo?

-Você vai ver como eu vou agradecer, Tetê.

-É?

-É.

-E como é que é?

-Assim.

-Aaahn, assim?

-E assim.

-E vem cá, e assim – puxando a mão dele, – assim não?

-Meu Deus, Tetê. Tem gente passando na rua.

-Onde?

-Ali… e ali…

-É assim que você gosta, seu calhorda.

-Ah, Tetê.

Recuemos pudicamente diante do súbito espetáculo pornô na torrinha do palacete, e voemos um pouco pela noite paulistana de 1966. É uma noite quente, e mariposas batem nos nossos rostos. Nossos pais são jovens lá embaixo, e namoram, trabalham, riem. E o som contínuo e sem hesitação que sobe até os nossos ouvidos, atravessando um telhado e vários metros de ar noturno, tec tectec tec tec tec tectec, não é o som de Gunther e Tetê transando, porque já nos afastamos demais deles – é o som do jornalista Jânio de Freitas escrevendo mais uma coluna imbecil na sua máquina Olympia Splendid 33.

Já deu tempo de voltarmos? Deu tempo demais, se passaram dez anos. É noite de novo. Voemos de volta para a torrinha, passando desta vez pelo chuvisco de inverno, por Higienópolis, e pelo som contínuo e sem hesitação, tectec tec tec tectectec, do escritor Ignácio de Loyola Brandão escrevendo um romance bem ruim na sua DARO ERIKA modelo 41.

Mais adiante, em Perdizes, aquela torrinha iluminada: sentados no mesmo banco de dez anos antes, Gunther, mais gordo, o rosto um pouco mais inchado pela bebida, de chapéu de panamá, camisa stil de grain pardo e calça branca, fumando um charuto toscano tortinho, e Tetê Macabra ao lado dele, imutável, severa, esplêndida, de malha de angorá e saia de tweed, e botas militares com tachinhas enfiadas nas bordas, bebendo chartreuse. Um livro de poemas de Verlaine repousa entre eles, embaixo de um livro infanto-juvenil sobre a história das lentes de telescópio.

Gunther está calado faz tempo. Quase um ano, na verdade. Está em crise. Tem faltado nos chás de quinta, às vezes nos de quarta, e Tetê se pergunta se ele arrumou uma amante nova. Mas não, nem sabe ela que às quintas, às vezes às quartas, Gunther anda à toa pelos parques, ou entra na biblioteca municipal e lê enciclopédias entre os desempregados.

Gunther evidentemente está se forçando a falar algo difícil. Tomou ar, abriu a boca e deixou aberta sem falar nada. Olha para os seus próprios pés inchados e nus com unhas grossas.

Tetê fica tensa. É agora que ele vai terminar com ela. Vai fazer as malas, mudar para a casa de outra. Como vai ser a vida sem ele? A poltrona dele vazia durante os chás, como aliás tem ficado, mas não em caráter permanente meu Deus? Como vai ser o quarto dele vazio? Como vai ser a vida dela só com o Nuno Tavinho em casa – uma companhia mais triste que o câncer? Tetê se controla para não arfar visivelmente.

Que mulher, a Tetê. Olhando, não se nota nada.

-Olha Tetê.

Tetê impassível bebendo mais chartreuse do que a rigor queria.

-Vou falar uma coisa, Tetê.

-Fala, Gun.

-É difícil. Mas tenho pensado muito nisso.

-Quer um gole?

-Não.

(Pausa longuíssima.)

-Faz um ano que venho pensando nisso. Na gente. Nas pessoas que vêm aqui nas quartas e quintas. No nosso círculo. Na vida que a gente construiu.

Gunther olhando bem nos olhos de Tetê.

-Não te dá um desespero? Às vezes?

-Como assim?

Gunther suspirou.

-Tá, alguns deles são gênios. O Rosiska. O Pacheco. A Sônia di Pacci. A Helen Stormbringer. Você é uma gênia. Até eu sou um gênio. – Gunther levantou e começou a andar de lá pra cá. – Mas de que adianta tudo isso? De que vale ser um gênio numa conversa sobre ovos pochê ou trens de luxo, sobre o vento ou sobre o cafuné, como o Pacheco é um gênio falando sobre cafuné – mas e daí? Ser esquecido assim que terminou de falar? Não deixar nada duradouro na Terra? Nada, nada? Só migalhas de torrada no tapete?

-Não sabia que isso te incomodava, Gunther Baptista.

-Não me incomodava. Mas agora me incomoda. Talvez porque a morte esteja mais perto de mim. E está mesmo. Estou gordo, a minha pressão está alta – ele fumou o toscano. – Nesses últimos anos eu fiquei olhando essa gente falando nos chás das quartas e quintas e fiquei só pensando, que esterilidade, que esterilidade impressionante, que esterilidade horrorosa. Tem algo de doentio nisso. O que é que essa gente toda vai deixar? O que é que a gente vai deixar, Tetê? Quem vai se lembrar da gente dois dias depois da gente morrer? Eu te pergunto, Tetê, não vale mais a pena ser um bosta que nem o Antonio Callado, o Rubem Fonseca? Eles pelo menos vão ser lembrados uns quatro ou cinco anos depois da morte deles. Eu, nem isso. O Pacheco, coitado. O Pacheco vai ser esquecido na metade do velório, por mais brilhantemente que tenha falado sobre cafuné.

-Você quer muito ser lembrado? Por alguém além de mim?

-Não sei. Sim, quero. O que me incomoda é essa esterilidade – essa esterilidade dessa gente de bom gosto. Não valia mais a pena deixarmos esse bom gosto de lado e escrevermos uns romances mais ou menos, umas óperas assobiáveis? Não vamos deixar um soneto, uma limerique, uma caricatura num guardanapo de papel. E o que quer que tenham anotado do que a gente disse, vai ser publicado numa vanity press e esquecido na mesma hora.

Nisso tudo Tetê Macabra era inflexível:

-A imortalidade é uma grosseria.

-Que seja. Podíamos ser pelo menos um pouco mais grosseiros, é o que estou dizendo.

Gunther passou semanas sem conseguir sair da sua depressão.

Mas um dia tomou uma decisão: reescreveu e revisou o livro de contos que tinha na gaveta. Sondou um editor que aparecia nos chás e que ficou interessado na idéia de publicar o livro. O editor subiu para o quarto, ficou trancado lá lendo o livro enquanto Gunther bebia cerveja na sala. Passadas duas horas, o editor desceu. Disse que alguns contos eram bons mas que o livro, como um todo, precisava de mais trabalho.

E na mesma noite Gunther queimou o livro na lareira, tentando fazer com que o gesto não parecesse muito dramático.

-Eu queria ler. Você que sabe, você faz o que você quiser. Mas eu queria ler – Tetê disse, olhando o fogo.

-Continua com o seu Rex Stout, Tetê, que é melhor – ele disse sorrindo. – Beeem melhor.

Gunther pareceu de alguma forma aliviado com o fracasso da sua tentativa. Parou de falar em imortalidade. Começou até a se divertir mais nos chás, embora o nível dos convidados na década de setenta fosse um problema.

Voltou a arranjar uma amante, o que Tetê encarou como bom sinal.

-Agora está satisfeito e não me deixa.

-Ninguém te deixa, Tetê! – gritou o Nuno Tavinho.

Mas Tetê, que teria ficado contente com Gunther para sempre se ele nunca tivesse se revoltado contra a própria esterilidade, ficou desapontada que ele desistisse da sua revolta tão fácil. Agora lhe dava nos nervos quando ele ria relaxado e feliz nos chás, tremendo todo como um bonachão, hohohohoooo, um grande alemão bonachão, ou quando o pegava cochilando durante o dia. Queria gritar com ele que tentasse escrever mais um conto, um livro de memórias – que fizesse alguma coisa.

Ela tentava controlar a irritação, mas quando entraram na década de oitenta mais e mais ela era áspera com ele, e ele, percebendo que o impensável havia acontecido e que ele tinha perdido o domínio da relação, cometeu o erro de tentar apaziguá-la. Lhe dava presentes, lhe fazia carinhos, e, tanto quanto permitia o próprio orgulho, a bajulava um pouquinho, às vezes na frente de todo mundo. Passou a ser uma figura um pouco patética: os convidados mais jovens dos chás, que nunca haviam visto Gunther e Tetê no auge, o desprezavam um pouco. Havia perdido a seriedade. Era um palhaço.

E ela mesma arranjou um amante, na figura de um jovem arquiteto cabeludo que só falava em estrelas e astros de cinema, e que talvez fosse um pouquinho gay.

Em 83 Gunther teve um derrame, e ficou com a boca torta. Só Tetê o entendia. Mas Gunther ainda tinha alguma beleza, no seu jeito de alemão colérico. Sua amante vinha duas vezes por semana cuidar dele, e Tetê a deixava entrar. Mas achava a mulher burra demais, e nunca falava com ela.

O tempo passou. Tetê e Gunther ainda sentavam juntos no banco de vime da torrinha e falavam sobre os convidados, mal de uns, bem de outros. Geralmente só falavam bem dos velhos, que nem apareciam mais: o Pacheco tinha mudado de estado, o Rosiska tinha brigado com Gunther por causa de uma bobagem e nunca mais aparecido, a Sônia di Pacci e a Helen Stormbringer tinham morrido juntas num acidente de carro, e o Ferreira Schumann estava internado num hospício havia oito anos.

Não sobrava ninguém inteligente no Brasil? Não sobrava. Uma nostalgia indecente atingiu os dois, uma nostalgia pelo Brasil secreto que os dois tinham conhecido e vivido. E essa nostalgia foi reunindo os dois, reunindo, reunindo, até que largaram os amantes com algum alívio.

-Que imbeil que eu era – disse Gunther com a sua boca torta. – Esteilidade! Bah! Como eu queía conversa om o Pacheo de no-o.

-Como eu queria conversar com a Helen! – Tetê concordava.

-Om o Dr Ricardi!

-Com a Núria!

Tetê pegou na mão de Gunther. Apertaram as mãos com a força de campeões de queda de braço.

Nessa época Tetê Macabra fez a sua própria tentativa de conseguir a imortalidade. Ela sempre tinha achado que talvez pudesse ser lembrada pelo seu salão. As pessoas lembravam de Mme de Stael, não lembravam? E talvez pudesse ser lembrada por uma ou duas das suas melhores frases, como “A arte no século XX foi um insulto à burguesia. No século XXI, vai ser um pedido de desculpas”, ou “O ateu bom é uma criança que, quando os pais saem de casa, abre a geladeira e come brócolis”. Mas no fundo sabia que tudo isso ia ser esquecido.

Um dia ela chegou perto de Gunther, que lia na sala a seção de turfe do jornal, e disse tranquila:

-Comecei um livro.

Ele entendeu que havia um “a escrever” elipsado na frase: “comecei a escrever um livro”.

-Vai bem?

-Por enquanto – ela disse. – Vamos ver.

Era um romance sobre eles todos: sobre o Brasil secreto: sobre o Brasil inteligente que ela tinha conhecido nos anos cinquenta e sessenta. Sobre o Pacheco, o Dr Ricardi, o Ascasubi, a Sônia di Pacci, a Helen Stormbringer.

Sobre ela e Gunther também. Talvez principalmente sobre os dois.

Mas uma noite Tetê se juntou ao Gunther na torrinha e depois de algum tempo em silêncio ela disse:

-Não deu certo. O livro.

Gunther olhou pra ela um tempão.

-Ena.

-Tudo bem.

Gunther empurrou a taça de porto dele na direção dela. Ela aceitou.

Imagino que viveram o resto dos seus anos reconciliados com o esquecimento completo que esperava por eles. Felizes, talvez, com o fato de terem sido felizes um dia, durante quase duas décadas.

Quando morreram (Gunther Baptista primeiro, Tetê Macabra sete anos depois), foram de fato esquecidos.

Bom, eu mesmo me esqueci deles, e nada sei deles; e fui obrigado a inventar do nada os seus nomes, os seus sentimentos, e a sua breve história.

A ÚLTIMA IRÔNIA DE MATIAS CHAPELIN

Quando bebê de dois meses, o sr Matias, então chamado apenas de Mamá, caiu da cama e bateu a cabecinha no sinteco cruel – e, como consequência, para o resto da vida passou a escrever a palavra “ironia” com chapeuzinho: “irônia”.

Não é bem isso: o dano cerebral foi mais extenso e extinguiu todo o seu senso de humor, de modo que o sr Matias nunca mais conseguiu identificar uma piada. A única coisa que ele achava engraçada na vida era escrever “irônia”; era isso que ele achava que era uma piada, e ele ria muito desenhando chapéus de vários estilos e épocas (trilbys, panamás, fedoras, boinas, e mesmo chapéus egípcios ou astecas) em cima da letra “o”, cada vez que encontrava a palavra “ironia” numa revista ou num livro.

Quando seu filho Domingos Chapelin voltou de um intercâmbio na Austrália, casado com uma linda piada estudante de veterinária que ele havia conhecido na praia de Burleigh Heads, o sr Matias foi apresentado à piada mas não enxergou nada. “Pai, esta é aquela piada de canguru que eu falei pro senhor.” A piada estendeu a mão na cozinha dos Chapelins em Blumenau, mas o sr Matias ficou olhando imbecilmente pro filho. “Que piada? Que canguru?”

A piada de canguru segurou a mão do filho do sr Matias, pedindo paciência. Mas quando, na manhã seguinte, a piada acordou cedo e encontrou o sr Matias na cozinha, e berrou BOM DIA, SR MATIAS, para que não houvesse possibilidade de ser ignorada, ela mesma ficou chocada quando o sr Matias não disse pio, nem levantou a cabeça grisalhuda do jornal, ocupado que estava desenhando um chapéu de alpinista na letra o de ironia, na frase “há sem dúvida uma deliciosa ironia no destino do recém-defenestrado ministro; folgamos em compartilhá-la com os leitores desta coluna”, logo na segunda página do jornal de domingo. E depois de desenhar a pena no chapéu e reler gostosamente a frase o sr Matias riu sua risada chispada de fumante, sem saber que a dois passos de si uma piada australiana chorava em silêncio.

Três anos viveu a piada na casa do sr Matias, sem que ele desse pela sua existência; o velho cortando suas frases no meio; forçando-a a se desviar do caminho; e uma vez entrando no chuveiro enquanto a piada ainda tomava banho.

Porém logo Domingos Chapelin teve filhos com a piada de canguru com micropênis. Como sabemos, os filhos de seres humanos com piadas podem ser de cinco tipos: risadas; risinhos; sorrisos polidos; reações de indiferença; e desconfortos, causados ou pela sensação de que não estamos rindo tanto quanto o interlocutor gostaria ou pela sensação tão frequente de que estamos rindo de maneira esquisita. Todos os filhos de Domingos Chapelin com a linda e sensual piada australiana foram desconfortos. Quatro leves desconfortos logo alegraram aquela casa.

E desconfortos o sr Matias sentia, via e ouvia. Como explicava o sr Matias a existência destes desconfortos que ele via perfeitamente, que pegava no colo, cujas fraldas limpava? Não explicava. Seu filho Domingos Chapelin arrasta uma cadeira para perto do seu papá, e lhe conta a rede de causas e efeitos que trouxe os quatro desconfortos ao mundo, e pacientemente faz com que o próprio velho deduza, disso, a existência no Universo de toda uma categoria de objetos verbais (“piadas”) das quais antes não tinha consciência.

O velho tenta compreender. Pede exemplos de piadas. Domingos e a empregada lhe contam piadas de rabinos, de portugueses, de nordestinos, de negões, e de filhas ninfomaníacas de fazendeiros severos: debalde, debalde!, o velho não consegue nem ouvir nada. Domingos lhe compra um livro de anedotas de sogras: para Matias o livro está em branco, com uma ou outra letra impressa em lugares arbitrários.

-Você conheceu essa… piada quando estava na Austrália? – pergunta o sr Matias, tentando entender.

-Sim, me contaram a piada – diz o filho. – Os australianos têm muitas piadas sobre cangurus, mas essa era diferente. Era uma piada sobre um canguru com micropênis. Eu achei muito engraçada. Achei muito bonita também. A gente não conseguia tirar os olhos um do outro.

Marido e mulher se sorriem na cozinha dos Chapelin.

Matias pergunta: “Mas então onde está a minha nora? A minha nora piada de canguru?” Diz o filho que está sentada nesta cadeira. Matias olha para a cadeira que lhe parece vazia. Sendo fundamentalmente decente, começa a conversar com a nora. Olá, nora. Você está bem? Quer um copo d’água? Um vinhozinho? O filho serve de intérprete. Nora e sogro conversam, se sorriem. Os dois se levantam e tentam se abraçar. Já tentou abraçar uma piada? É mais difícil que beijar um aforismo. Fracassam. Mesmo assim, os dois choram de emoção. É um dia feliz na família Chapelin, e o primeiro de muitos dias felizes de família unida (foram 202 ao todo).

Foram 202 ao todo, nos quais o sr Matias tentava contar piadas para a sua nora sem saber muito bem o que eram piadas. “E aquela do cientista turco? Ele era turco. Mas os pais eram italianos.” Ainda outra: “Um matemático entra num bar. Ele usa um casaquinho.” Isso obviamente não obtinha sucesso além de sorrisos pálidos, e o melhor dos 202 dias que aquela família passou junta foram conversas banais, porém ternas, que não reporto aqui para não entediá-los.

Conta a história que no 202o dia bem de manhazinha o sr Matias arranjou uma escada com os vizinhos e subiu no parapeito do primeiro andar dum prédio da avenida Alfajores, onde se via pichada nos ladrilhos azuis pálidos a afirmação espantosa de que A MAIOR IRONIA DO FUTEBOL É O BLUMENAU ESPORTE CLUBE. Aquilo havia lhe incomodado durante dias. Finalmente subiu e começou a pintar um chapéu borsalino com tinta marrom bem em cima do “o” de “ironia”. E ia já pintando a fita do borsalino com muito capricho quando a morte segurou suas orelhas de abano e gentilmente o fez olhar para ela e então sorriu para o velho paterfamilias.

A escada caiu. Caiu o balde de tinta, caiu o pincel, caiu o seu corpo de velho com óculos e tudo. Mas sua alma subiu, subiu, subiu para a grande piada lá em cima, onde foi recebido com um abraço pela última e grande irônia que nos espera a todos.

Tentando ler o Capítulo V de “The Portrait of a Lady” na varanda enquanto a empregada na cozinha tenta fazer a cachorra comer a papinha

It was very probably this sweet-tasting property of the observed thing in itself that was mainly concerned in Ralph’s quickly-stirred – vai, fia, come a papinha – interest in the advent of – It was very probably this sweet-tasting property of the observed – come a papinha, fia – of the observed thing in itself that – It was very probably – vai, fia – It was very probably this sweet-tasting property of the observed thing in itself that was mainly concerned in Ralph’s quickly-stirred interest in the advent of a young lady who was evidently not insipid. If he was consideringly disposed – papinha, fia – If he was consideringly disposed, something told him, here was occupation enough for a succession of days. It may be added – vai, fia, óia a papinha, papinha -, in summary fashion, that the imagination of loving—as distinguished from that of being loved — não vai cumê a papinha, fia? Óia que eu como tudo – It may be added… It was very probably this sweet-tasting property…

A Paixão Obscura e Completamente Superduper de Jebediah Mendes

Imagine um impossivelmente grande quintal onde oito irmãos brincam, cada um entretido com a sua paixão terna e monomaníaca: um estuda besouros, outro passarinhos, outro formigas, outro borboletas, outro minhocas, outro lagartixas, outro aranhas, e outro abelhas. Resta ao nono filho dos Mendes, Jebediah, Jebediah Mendes, ficar sentado desconsolado na quina do murinho que vai dar na estufa, tirando casquinha de ferida dos seus joelhos sefarditas. Sua paixão científica nunca tinha sido despertada por coisa nenhuma, e passava seus dias fazendo nothing much – até que um pobretão barrigudo, chamado Ediclei, passou pelos irmãos acocorados para ir consertar o teto da estufa.

Mal o cheiro do cigarro de Ediclei tinha sumido do ar e Jebediah já estava escrevendo num caderninho, “Ediclei fuma. Ediclei é vidraceiro. Ediclei está ouvindo música ruim num radinho.” Escondido num arbusto Jebediah escreveu quatro páginas inteiras de observações sobre o comportamento bizarro do seu primeiro pobre. Tinha oito anos. Era 8 de abril de 1978.

Seus pais – dois engenheiros-enxadristas que haviam revolucionado o campo da nanotecnologia ao construírem pequenos vibradores para joaninhas – apoiaram o interesse do filho mais novo, mesmo depois do susto de encontrá-lo na cozinha examinando o motorista da família, o Seu Jair, com o auxílio de um poderoso microscópio ZEISS TRINOCULAR AXIOPLAN 2. No aniversário de onze anos de Jebediah chegaram a lhe dar um menino pobrinho enrolado num laço vermelho; o menino, que se chamava Ayrton, foi estudado de perto durante dois anos e depois largado num canto junto com alguns frisbees rachados e fantoches da Vila Sésamo (onde se acredita que ainda esteja, comendo pipoca doce e ouvindo pagode.)

“Por que pobre ouve música ruim?”, perguntou Jebediah, aos vinte anos, para a sua primeira platéia de antropólogos estudiosos de pobre. “A princípio somos tentados a dizer que é porque eles não têm dinheiro, até que nos lembramos que é tão dispendioso ouvir Bach quanto Tchakabum.” (Imaginai aqui, leitor amigo, leitora de seios marmóreos, um homem na platéia, de rosto enrugadinho e erudito, óculos de leitura na ponta do nariz de acadêmico ashkenazi, mordiscando a ponta da língua enquanto anota no seu caderninho, em ídiche: “Tcha-ka-bum”.) Foi muito aplaudido, embora sua pergunta – conhecida na pauperologia como A Pergunta Mendes – não tenha sido respondida satisfatoriamente até hoje.

Leonard Klugmann, a maior figura na história da pauperologia, não resistiu a se tornar ele mesmo pobre, gastando de propósito toda a sua fortuna em jujuba e sorvete de flocos. “Poderia Fabre”, Klugmann se pergunta com a boca cheia de sorvete no documentário Reflexions of a Pauper, “resistir à possibilidade de se transformar numa formiga? Poderia Camille Flamarion resistir à possibilidade de se transformar numa galáxia? Poderia Margaret Mead resistir à possibilidade de se transformar numa samoana ninfomaníaca, ou Dian Fossey num orangotango? Pois muito menos pude eu, Leonard Klugmann, resistir à possibilidade de ficar pobre e ir viver na periferia de São Paulo, cercado dos objetos do meu estudo”.

Jebediah tinha uma fotografia de Klugmann no seu quarto, um homem de aparência aristocrática e tristonha, fotografado usando chapéu de explorador, chicote e bermuda na laje de uma favela; mas nunca teve a coragem de abrir mão da fortuna dos Mendes, pacientemente construída sobre a lubricidade de milhões de joaninhas.

O que fez, no entanto, foi extrair coragem do olhar magnético de Leonard Klugmann – que da parede, em cima da tevê de tela plana, parecia lhe dizer “Pesquisai! Pesquisai, meu bom menino!”. Começou a fazer pesquisas de campo, indo para várias favelas munido de binóculos e caderninho de anotações, e vestido – por camuflagem – com uma roupa que de costas parecia um telhado de zinco, e de frente parecia um pedaço de madeira meio podre com restos de um poster da Brahma. Instalava-se numa laje qualquer e ficava horas observando os pobres soltando rojão.

“24 de Dezembro de 1994, 20:32.”, anotou Jebediah. “Quatro pobres (entre os quais um homem evidentemente bêbado usando uma rede no cabelo) estão soltando rojões desde as 18:25 de ontem. Acho curioso como pobre solta rojão no Natal. Terá Klugmann escrito algo a respeito? (…) O homem com rede no cabelo só tem dois dedos na mão esquerda porque perdeu os outros num acidente no ano passado. Na minha experiência, pobre vive perdendo dedo soltando rojão. Idéia para estudo: contar quantos dedos uma população de 100 pobres têm.” Depois: “31 de Dezembro de 1998, 23:10. Estou observando um grupo de aproximadamente quinze pobres parados em pé na frente do Bar do Zé Sucrilho. Como começaram a soltar rojões na noite do dia 28, já não têm mais rojões pra soltar. Pobre vive fazendo isso (é uma raça notável pela falta de autocontrole). Estão chorando, chateados porque os fogos acabaram. Um pobre está gritando: “Caraaalho! Caraaalho!”. Nos bairros mais abastados os fogos de Ano Novo começaram a estourar faz pouco, aumentando a frustração do grupo sob observação. Um deles se acocorou no meio da rua e está repetindo “Puta merda, puta merda”, cobrindo a cabeça com as mãos sem dedos. Vou passar pra casa do lado pra observar melhor a lamentação dos pobres.”

Mas o estudo que finalmente estabeleceu sua reputação, aos 32 anos, se chamava “Os Pobres e Sua Paixão Por Lajes – Uma Observação de Campo”. Nele Jebediah dizia que a paixão por trabalhar com lajes era o que caracterizava os pobres de todas as épocas; “eles adoram laje, é impressionante”. Continuo citando Jebediah: “Não se pode dizer que alguém é pobre baseado exclusivamente na sua renda – onde estaria a fronteira entre o pobre e o não pobre? O que caracteriza o pobre de todas as épocas é sua paixão por lajes de todos os tipos, que precisam eternamente ser ampliadas ou simplesmente reformadas.” O estudo prosseguia contando o caso de Waldimar dos Santos Pereira, um pobre de Belo Horizonte que, tendo ficado rico na loteria, havia se mudado para uma casa no Morumbi, em São Paulo, provocando a revolta de seus vizinhos ao construir uma laje gigantesca de pórfiro e ônix, com uma caixa d´água aparente e montinhos de cimento espalhados aqui e ali, em cima da qual o Sr. Waldimar e seus amigos, sem camisa e falando muito alto, comiam churrasco e ouviam pagode. “Pobre que é pobre”, concluía o estudo, “está sempre fazendo um puxadinho; e é característico dos pobres que a reforma da laje nunca acabe, provendo a laje de acessórios que dão status, como carrinhos de cimento e pás.”

“Bravo”, escreveu Zuchmann. “Excelente”, escreveu Zarkoff. Na noite em que leu o estudo sobre puxadinhos para duzentos pauperólogos reunidos em Budapeste, Jebediah foi aplaudido de pé, e em húngaro, durante longos onze minutos; e enquanto voltava para o quarto no hotel, dançava no corredor de tanta felicidade, fazendo gestos desnecessariamente efeminados e em câmera lenta. Disso, desse momento de grande alegria, foram testemunhas as portas do hotel húngaro, os insetos que giravam em torno das lâmpadas (dispostas a cada cinco metros no teto, com uma delas, a terceira a partir do elevador, piscando efusivamente como se congratulasse Jebediah), e as lentas e laboriosas estrelas. Também testemunharam a depressão que se seguiu, porque dias e dias se passaram e nenhuma palavra de Klugmann, seu herói.

“Klugmann disse algo?”, ele escreveu para Zarkoff. “Sabe se Klugmann leu o artigo?”, escreveu para Filipoff. Ninguém sabia nada; e tão grande foi a depressão de Jebediah que passou alguns dias trancado no seu quarto em São Paulo, vendo sitcoms em posição fetal e ocasionalmente comendo goiabinha. Isso durou quatro meses; até que uma tarde, estando numa laje observando pobres no seu binóculo (havia um grupo sentado em latinhas de soja, imbecilmente olhando uma rachadura na calçada durante horas), viu contra o sol poente um homem que vinha – (mas deixa eu mudar de parágrafo)

Jebediah viu contra o sol poente um homem que vinha pulando de laje em laje. Era alto, magro, usava capacete de explorador do Congo Belga e era muito vermelhão.

Era Klugmann! Klugmann pulou para a laje em que Jebediah estava, e acenou com a cabeça; e fazendo um gesto de silêncio, sentou ao lado de Jebediah e começou a olhar os pobres junto com ele, usando seu próprio par de binóculos.

Longo tempo ficaram assim na tarde de agosto, com o coração de Jebediah pulando no peito como se fosse uma rã presa numa caixinha de chá – poc poc, poc poc. Jebediah olhava para seu herói disfarçadamente (tinha tantas marcas de bala, de tantas vezes que tinha sido assaltado, e marcas de faca também), e Jebediah pensava se devia perguntar alguma coisa, ou pelo menos se apresentar, quando finalmente o grande herói se levantou da laje.

Tirando areia dos joelhos, Klugmann casualmente disse:

– And by the way, great job on the puxadinho thing. I´m Klugmann. See you around.

E nunca, nunca, a vida foi tão bonita, ou de novo tão gloriosa.

A História Secreta do Futebol no Brasil



A HISTÓRIA SECRETA DO FUTEBOL NO BRASIL,

ou

FUTEBOL PARA CAVALHEIROS



(uma história do Vovô Aguiar)
(Aguiar Paranhos de Mourão Filho)
(não o outro Vovô Aguiar,
que é um FINNOCHIO)




Vocês ouviram muitas vezes, meus netos com suas carinhas cobertas de leite e paçoca, que o futebol foi trazido ao Brasil por Charles Miller em 1894. Charles Miller, diz a história, era um rapaz brasileiro magrelo e sonhoso que frequentou uma escola inglesa chamada Banister Court. Lá o valoroso “sportsman” aprendeu futebol, rugby e críquete. Quando voltou, trouxe duas bolas de futebol na sua mala, tão pouco gloriosas que nem mereceram um nome, coitadas, entrando tão anônimas quanto as outras duas que o menino trazia aconchegadas nas ceroulas; e mesmo assim o futebol logo se espalhou pelo país e virou a nova paixão nacional, superando até o herpes genital e a Doença de Chagas.

Isso é o que vocês ouviram. Porém, que sabe a história? Que sabe a história, Marcos, Túlio, Elisa e minha neta menos preferida? Chutemos o livro de história para a vala aberta. Chutemos especificamente este livro aqui, “História do Futebol no Brasil”, de Moacyr Prunella, figura odiosa e enganada da vida. Chute este livro, Marcos, com toda a força de quem cansou de ser enganado! Porque vocês foram enganados, meus pequenos, pela tevê e pelos jornais, e por várias gerações de educadores mendazes e esquerdolecas. Agora, depois dum pinguinho desta cachaça com mel, contarei a redolente verdade.

Em Banister Court o senhorito Charles Miller jogava por um time chamado St Mary YMA, hoje conhecido como Southampton F.C. Jogava nem bem nem mal. Friso ainda, não jogava mal; a julgar pelas fotos era cantinflas de tudo, mas não jogava mal; ou talvez os outros é que jogassem tão mal quanto ele – não sei -; o fato é que não se destacava de um jeito ou de outro. Isso tudo é sabido e está no livro aí que você chutou pra debaixo da estante, Marcos. Agora o que o livro não diz – mas que pipoque a verdade toda, que de uma vez só a verdade pipoque e popupe, tenho a permissão dos meus camaradas d’armas para contar tudo – o que o livro não diz é que dois anos antes de Miller um outro paulista estudou em Banister Court, e também jogou pelo St Mary YMA. O nome desse paulista era Jaquinzinho “Dôndi” Albuquerque de Flecha Cabral, o verdadeiro fundador do futebol brasileiro.

Agora reparem nisto, que à diferença de Miller, que era um bom rapaz do Brás, nem cavalheiro nem descavalheiro, Jaquinzinho era sim um bruta cavalheiro. Ao nascer, no lugar de ser envolvido em toalhas como qualquer bebê normal, havia sido envolvido em cavalheirice pura. Já em casa só conseguia mamar no peito da babá mineira e aureoluda depois de tirar seu chapeuzinho, o que era lindo de ver, e como agradecimento sempre deixava à mulher uma moedinha feita do seu próprio mecônio.

Só sei que ao chegar em Banister Court viu-se logo que o rapazinho da Aclimação era mais milorde que um milorde. Naquele ano quem estava lá, e o viu, ficou abestalhado. Só não foi uma humilhação completa para os outros porque Jaquinzinho era cavalheiro demais para humilhar uma joaninha que fosse, e tratou logo de baixar a intensidade da sua gentlemanliness para não ofuscar a dos outros. Vocês entendem? Percebem a exensão disso? Era tão cavalheiro que cometeu rudezas para não humilhar ninguém! Bem que tentava ser vulgar. Numa bookstall na estação de Southampton chegou a ser visto comprando um livro de anedotas de sogras. Em vão! A verdade é que perto dele os earls e os vinscounts todos pareciam presidiários brasileiros queimando colchões e traficando drogas nos respectivos ânuses. E eles mesmos percebiam isso. Eis a força do nosso Jaquinzinho Dôndi!

No rugby e no críquete, era um atleta elegante e formidável. Esguio e forte, corria pelo campo de rugby com a cabeça erguida, como uma gazela fugindo dos predadores nas savanas do Serengueti (porém uma gazela heterossexual). No críquete também não era nenhum dibbly-dobbly, e logo virou Capitão dos Onze.

Um dia foi convidado para jogar futebol pelo St Mary YMC. Leu as regras do esporte na noite da véspera da partida, traduzindo tudo mentalmente para o grego homérico – de tão milorde, não, perdão, bimilorde, trimilorde, polimilorde que era. De manhãzinha Jaquinzinho vestiu o uniforme do time e lá se foi ele para o campo, que na verdade era o campo de críquete adaptado às pressas com pedrinhas para marcar as balizas e os corners.

O sol nasceu.

Agora quero que visualizem Jaquinzinho na posição de centre forward esperando pelo apito do juiz. O primeiro brasileiro num campo de futebol! E era um príncipe e um superhomem! Os jogadores terminam de alongar as quarenta e quatro pernas e os quarenta e três braços (havia um aleijadim).

O juiz apita! Jaquinzinho corre sem pressa para o campo adversário, acompanhando a evolução do jogo. Que elegância, meu Deus! Juiz e adversário estão prontos a lhe dar a vitória só pela elegância com que Jaquinzinho corre.

De longe ainda, Jaquinzinho olha a bola de futebol com curiosidade, porque é a primeira vez que vê uma. Agora quero que visualizem a bola. Naquela época as bolas de futebol eram diferentes, muito mais bonitas e menos chegueis. Eram feitas de couro de crianças indianas (principalmente crianças brâmanes cujo couro era mais agradável ao toque que a das crianças intocáveis, como todos os pederastas ingleses bem sabiam).

Finalmente um midfielder passa a bola para Jaquinzinho. A bola vem rolando hinduista e linda para os pés do brasileiro, que mal tem que reduzir o passo da corrida para interceptá-la. E ela está ainda a dez metros do brasileiro quando de repente, que acontece? Que faz Jaquinzinho? Num espasmo grotesco, Jaquinzinho chuta o ar com o pé direito. Seu cabelo até estremece na cabeça com a força do movimento e logo uma ameba de brilhantina verde-transparente salta da sua cabeça e cambalhota liricamente no ar.

Que que foi isso? O choque e a incompreensão daqueles ingleses são tremendos. Jaquinzinho percebe o erro e tenta chutar de novo, mas a bola já está passando pelas suas costas, nem esbarra no seu calcanhar que retrocede para o novo chute. E a bola vai continuar o jogo nos pés de outros atletas.

-Por que você fez isso? – perguntou surpreso um dos companheiros de time.
-Me descoordinei, old boy – foi a resposta humilde.

O St Mary YMC acabou ganhando aquela partida contra a Milbrok School por quatro a um; porém sem participação alguma de Jaquinzinho. O qual nunca mais foi convidado a jogar pelo time.

Agora: pode-se dizer, como muitos dizem, que Jaquinzinho “Dôndi” Albuquerque de Flecha Cabral jamais tocou numa bola de futebol? Não, e por dois motivos. Primeiro, Jaquinzinho às vezes pegava a bola com as mãos quando ela rolava até os espectadores do lado de fora do campo. Então tem isso. Como nunca tocou numa bola? Tocou sim.

Segundo, mesmo com o pé Jaquinzinho há de ter esbarrado na bola alguma vez, porque seu “fag”, i.e. o escolar mais jovencito que lhe servia de criado, Jonathan Spencer-Spencer, punha às vezes a bola de futebol no joelho de Jaquinzinho, quando ele estava sentado num sofá lendo Catulo, e dizia com sua vozinha de sodomita e futuro político trabalhista: “Fica calmo, não mexe, vamos ver”. E soltava a bola. Se Jaquinzinho deixava a perna inerte, às vezes acontecia da bola correr pela sua canela e fazer um contato breve com o seu pé.

Mas que seja. Era natural que esse sportsman mimado de aplausos passasse alguns dias acabrunhado com o seu primeiro falhanço atlético. Durante semanas Jaquinzinho rondou o campo de futebol como um triste fantasma perna-de-pau. Que grande mistério que um homem tão fino pudesse ser tão grosso! Às vezes, no café da manhã, ganhava coragem e tentava fazer uma embaixadinha com um muffin, mas tudo que conseguia era chutar cruelmente o scott-terrier de Spencer-Spencer, ou a garganta de alguma visita que calhava de estar ali.

Um dia andava Jaquinzinho pelo quadrângulo da escola pensando na sua desgraça futebolística quando um grupo de jovens marqueses e um ou dois duques fez silêncio à sua aproximação. Um deles, o delicado punheteiro Christopher Nevill, sexto marquês de Abergavenny, limpou a garganta e disse:

-Eu digo! Jaquinzinho (pronunciavam Jackeem-zeem), estávamos nos perguntando se você não gostaria de passar nos aposentos de Beaufort para chá com torradas. Três da tarde.
-Com prazer, velho camarada.

Cerca de vinte pessoas riam e comiam scones na salinha de Beaufort (que mais tarde seria o primeiro alpinista a subir o Aconcágua recitando Juvenal). Fizeram um silêncio respeitoso quando o brasileiro entrou. Eram todos aristocratas, e ainda mais que aristocratas eram todos gentlemen-scholars. Jaquinzinho notou que nenhum deles jogava futebol no St Mary YMC, nem em nenhum dos outros times locais, embora alguns (como o próprio Beaufort) fossem excelentes atletas em outros esportes.

Fizeram o brasileiro ficar à vontade, deram-lhe chá e polvilhos, mas era claro que se impacientavam para dizer alguma coisa. Jaquinzinho esperou calmamente, mastigando polvilhos com todo o brio de um verdadeiro paulista. Por fim o Visconde de Beaufort disse:

-Velho feijão, queremos convidá-lo para fazer parte da nossa liga secreta de futebol.
-Falta apenas um homem para que completemos dois times – disse o Marquês de Trebuchon, que apesar de ser francês também era um cavalheiro.

Jaquinzinho ficou surpreso.

-Seria uma honra – disse – Mas, amigos… vocês me viram jogar futebol?

Os meninos se entreolharam.

-É justamente porque o vimos que decidimos convidá-lo, Jackeem-zeem.
-Espetacular descoordenação das pernas! – disse Lucien Farquhart, que aos quinze anos já era um espião internacional, e estava tão à frente do seu tempo que vendia segredos para a União Soviética numa época em que a União Soviética ainda nem existia.
-Temo não estar entendendo…

O Visconde de Beaufort riu e disse:

-É claro. Perdão. Permita que eu explique. – Ele fez uma pausa enquanto passava manteiga num scone. – Nenhum cavalheiro tem coordenação alguma abaixo da cintura, Jackeemzeem. Nossos pais têm tão pouco ritmo abaixo da cintura que frequentemente quebram a pélvis de nossas mães durante o ato da procriação.

O pequeno Laird de Glainmora confessou baixinho:

-Elas acabam preferindo copular com jardineiros e tipos assim.
-Entendo – disse o nosso J. – Mas pra que jogar esse jogo se nós… se nós jogamos tão… – desculpem! – se nós jogamos tão mal?

Mais uma vez os entojados meninos se entreolharam.

-Nós não consideramos isso jogar mal – disse o Conde de Meraviglia com orgulho – Nós consideramos isso jogar bem.

Beaufort bateu com o cachimbo na mesa e completou:

-Jogamos apenas entre nós. Em segredo. E jogamos num sistema de “quem perde, ganha”.
-Vocês perdem de propósito?
-Isso é que não. Damos o máximo de nós mesmos. É um ponto de honra que temos de nos esforçar para ganhar – isto é, nos esforçamos honestamente para fazer um gol no adversário – o que equivale, nas nossas regras, a perder. Por dentro rezamos para errar o gol, entenda, ou pelo menos para que o “goalkeeper” cubra a baliza com competência miraculosa. Mas fazemos o possível para marcar o gol – o que felizmente nós, sendo cavallheiros, raramente conseguimos.
-A maior parte das partidas é decidida por gols contra – disse o Conde de Meraviglia – O que fazemos sem querer, porém com secreto êxtase. O gol contra tem, assim, a beleza de uma vitória acidental, o que em termos estéticos é algo que o futebol normal jamais vai conseguir superar. Ou sequer chegar perto.

Estavam emocionados só de falar no esporte que haviam criado e que praticavam em segredo. Um se levantou:

-Senhores! Um brinde à extraordinária beleza do futebol para cavelheiros!

Todos se levantaram, Jaquinzinho antes de todos, já emocionado diante da perspectiva de jogar o esporte da maneira que (percebia agora) ele devia ser jogado.

-Um brinde, por Júpiter! – bradou.

Acabou se juntando ao Lupercal Club, o time do Laird de Glainmora. E lá jogou com desjuntado garbo durante dois anos, nos quais fez oito gols contra e só um a favor, um chute fraquito fraquito de tudo meu Deus que Jaquinzinho deu só porque a honestidade o impelia, e que entrou na rede porque o beque, o Sexto Lorde de Carnaevon, tentou desviar a bola com um chute e só conseguiu arrancar uma formiguinha que vinha grudada nela.

De modo que foi uma grande campanha. Até hoje nos círculos do futebol inglês para cavalheiros (“True Football”, “Secret Football”, “Divine Footbal” etc) celebram Jaquinzinho Dôndi como uma lenda viva: um Beckenbauer da grossura, um Neeskens do chute pra fora, um Puskàs do passe falhado: nosso mais angélico Perna-de-Pau.




A ERA DE JAQUINZINHO DÔNDI (1892-1911)

Dôndi, não Miller, trouxe o futebol ao Brasil; e isso dois anos antes do outro; mas secretamente, só para cavalheiros. De modo que o Brasil mesmo nunca soube disso.

É verdade que foi quase impossível encontrar 22 cavalheiros por aqui. O próprio Dôndi relata isso nas suas memórias, “Lindo Dia para Uma Derrota, Companheiros!”, na pg.35. Vou ler pra vocês, Cecília traga meus óculos. Pois bem:

“Para saber se uma pessoa seria boa candidata a jogador do Futebol Secreto, costumava aplicar um teste: durante uma conversa casual com o fulano, mandava que um negrinho chamado Leôncio, ao longe, deixasse uma bola correr na direção dos pés da pessoa, como que por acidente. Se a pessoa entrasse em pânico e saísse correndo (a mais promissora das atitudes), ou tentasse devolver a bola com um chute mas errasse monstruosamente, ou ignorasse a bola e a deixasse bater nas canelas inermes sem pestanejar, ou ainda se apanhasse a bola com as mãos, recebia uma nota positiva no meu caderninho, e seria submetida depois a outros testes. Mas a verdade é que tôdo brasileiro que encontrava naquela época, por mais que fosse de rica ou rara família, caracterizava-se por uma asquerosa habilidade dos membros inferiores, e logo começava a fazer malabarismos de várias espécies, fazendo a bola saltitar nos pés mesmo sem jamais ter visto uma “football” antes. Nesse ponto eu tirava o chapéu e interrompia a entrevista cordialmente, abandonando o palco desse repugnante espetáculo.”

Durante todo o ano de 1892 Dôndi viajou o país inteiro à cata de cavalheiros, os quais ia encontrando com muita dificuldade, aqui e ali, em cafés, paquetes, sanatórios, liceus, mosteiros e até mesmo nos famosos lupanares para gagos do Rio de Janeiro. Só em 1894 conseguiu formar dois times: o paulista “Prinsterer F.C.”, primeiro time brasileiro, e o carioca “Des Esseintes”. Em 1893 Dôndi foi eleito presidente da Federação Brasileira de Futebol Secreto. Em 1894 ele criou a Seleção Brasileira de Futebol Secreto, juntando os piorzinhos do Prinsterer e do Des Esseintes. Em 1895 a seleção jogou na primeira Copa do Mundo de Futebol para Cavalheiros, disputada secretamente num galpão em Londres, e felizmente a seleção se saiu pessimamente, saindo logo no primeiro turno e ganhando a copa.

Foi o início da carreira gloriosa dos brasileiros nas Copas Secretas: durante os vinte primeiros anos, a seleção brasileira conseguiu não marcar nenhum gol. É dessa época que data o apelido dado à nossa esquadra, O Gigante que Tropeça (mais tarde, Canarinho Bêbado).

Infelizmente os planos de Dôndi de formar mais que dois times nacionais nunca vingaram, porque nunca o Brasil teve mais que 22 cavalheiros; e em algumas épocas teve bem menos.



A ERA DE OLAVITO ROCHEFORT (1911-1945)

Olavito Rochefort foi o maior jogador de futebol para cavalheiros, do Brasil e do mundo. Ombros largos, bronzeado, Olavito era um playboy internacional com espasmos incontroláveis nas pernas causados por um problema neurológico de nascença. Chegou a perder gols quando a bola estava a dois centímetros da linha do gol, tendo honestamente tentado fazê-los, e nessa posição pelo menos uma vez quebrou a perna ao chutar o ar violentamente, como faria um senhor bastante fora de forma que decidisse, durante um churrasco em família, matar uma vespa com um chute. Olavito dominou o esporte sem jamais ter tocado na bola, e uma vez aposentado foi técnico da seleção nas Copas Secretas de 32, 36, 40 e 44 (o Brasil perdeu todas, levando as taças).

É da época de Olavito que a mais bela jogada do futebol secreto aconteceu, mas com outro jogador, o ponta esquerda Ferdinando “Tutty” Menino Galvão, quando Olavito e Tutty jogavam lado a lado pelo Prinsterer. Numa partida contra o Guermantes, um time francês de futebol secreto, Tutty foi cobrar uma falta alguns metros para dentro do campo adversário. Depois de correr vinte metros na direção da bola para ganhar força no chute, Tutty chutou a bola com toda força na direção do gol adversário; mas, não se sabe como, a bola ao sair do seu pé foi propulsionada violentamente para trás, não para a frente, entrando no gol do Prinsterer. Físicos e estudiosos do jogo tentaram reproduzir esse desastrado chute dezenas de vezes, mas ninguém consegue produzir um efeito sequer similar.



A ERA DE LEOPOLDINHO BRAGANÇA NUNES (1945-1988)

Até hoje o futebol secreto brasileiro é marcado por Leopoldinho “Dotty” Bragança, esse enorme, genial, péssimo jogador de Petrópolis. Começou como centroavante no Prinsterer e na seleção; errou os passes mais extraordinários (dizem que toda bola que chutava, mesmo sem força, ia acabar se chocando violentamente no pênis do jogador mais próximo) e nunca conseguiu cobrar um escanteio para dentro do campo. Uma vez aposentado, foi técnico da seleção, dirigente e presidente da Associação Mundial de Futebol Secreto, onde tem uma atuação polêmica por causa dos problemas de bem-versação dos fundos (todos os cartolas do futebol secreto são tão cavalheiros que roubam ao contrário, isto é, colocam às escondidas dinheiro deles mesmos nos cofres da Associação, o que às vezes causa problemas graves de controle de contabilidade.)

Ainda é uma figura popular nas transmissões televisivas secretas de futebol para cavalheiros.



CRISE (1988-dias de hoje)

Sim, crianças, o futebol para cavalheiros existe até hoje. Eu mesmo joguei muito, joguei muitíssimo, até perto dos trinta anos, quando comecei a desenvolver alguma habilidade nas pernas e tive que me aposentar (um problema comum dos jogadores cavalheiros mais veteranos).

Talvez vocês tenham visto, em dias de jogo, uma figura tímida sair à janela de algum apartamento aqui na cidade? Aqui nesse prédio mesmo, três andares abaixo? Se viram, certamente não ouviram o que ele gritou, porque cavalheiros não gritam. Essa figura – um rapaz careca torcedor do Des Esseintes F.C. – para junto à janela, tosse seco para timidamente chamar a atenção do mundo, e diz qualquer coisa como “É uma honra jogar com vocês, Printerers, se me perdoam a franqueza!”, ou “Não deixemos que a paixão do jogo nos exalte demais, meus amigos! Cordialidade acima de tudo!”. É lindo ver vários torcedores dum time de futebol para cavalheiros – nunca tem mais de vinte ou trinta nas arquibancadas dada a escassez de mandarinice na alma do brasileiro – cantando “Áveis, áveis, áveis! Vocês são formidáveis!” para o time adversário. E é às vezes normal ver cenas de violência também: os chamados “auto-hooligans”, que batem em si mesmos se por acaso, depois de um exame demorado de consciência, acham que exageraram na veemência com que torceram para o próprio time. Batem-se em si mesmos com socos ingleses, gemendo baixinho para não incomodar ninguém. Às vezes é triste de ver!

Porém agora chegamos na fase realmente triste desta história. Se antes reclamávamos que só haviam uns trinta brasileiros que eram cavalheiros, formando no máximo dois times, lá nos anos oitenta é que a coisa começou a ficar preta: de repente não se encontravam nem vinte brasileiros que soubessem pegar nos talheres e que lavassem atrás da orelha. Em 88, com a aposentadoria de gigantes do futebol ruim como o sorocabano Julico Schönberg-Cotta Rattenau e o mineiro supertímido e batuta Conde Nataniel “Tito” de Solange e Albuquerque, pela primeira vez não conseguimos formar mais do que um único time!

Só sobrou o Prinsterer. Eles tinham que se dividir em dois times de cinco pra jogar. Mas não dá pra jogar futebol de cavalheiros com dois times de cinco. É sempre zero a zero, muito chato. Quanto mais jogador em campo, maior a chance da bola bater em alguém e ir parar no gol sem querer. Desde os anos 90 não se marca um gol sequer no futebol secreto brasileiro. Quer dizer, uma vez no estádio secreto de Higienópolis um gandula devolveu a bola e ninguém conseguiu interromper a lerda trajetória da bola até que ela entrou no gol. Tropeçavam, esbarravam uns nos outros, torciam os tornozelos. Mas esse gol não chegou a valer, claro.

Foi quando o Leopoldinho “Dotty” Bragança, na época comentarista secreto do futebol secreto – a narração vinha pelo rádio amador, em grego ático pra ninguém de fora entender nada – sugeriu, durante o intervalo de um jogo desenxabido do Prinsterer contra si mesmo, aquilo que poderia ser a salvação do Futebol para Cavalheiros no Brasil. Coisa de gênio. Que foi esta aqui. O Dotty propôs o seguinte:

-Sugiro que podíamos fazer uma coisa – ele disse lá em grego ático na mais linda inflexão dos paulistas secretos – que lhes parecerá drástica. Porém, ouçam-me, amigos. Poderíamos dissolver a liga de Futebol para Cavalheiros, já que sequer temos dois times. Mas calma, não seria o fim do esporte. Por quê? Porque, sem dizer nada ao mundo, o Prinsterer se registraria como time de futebol comum, e disputaria os campeonatos normais do futebol brasileiro. (pausa) Senhores, seria uma solução para todos: os times de futebol normal venceriam pelas regras deles, e ficariam contentes; o Prinsterer venceria secretamente, pelas regras nossas – e nós ficaríamos contentes.

Pois a idéia pegou. O Prinsterer se registrou como time oficial agora no início do ano passado. Não causou alarde porque todo mundo achou, corretamente, que era só um timinho ruim. Bom, pelas regras do futebol normal era mesmo! E assim sem moral nenhuma o Prinsterer estreiou no Campeonato Brasileiro no final do ano passado.

E, senhores – quer dizer, meus netos – o inaudito inesperado aconteceu. Como contar isso? O Prinsterer começou a ganhar!

Talvez porque fosse uma das piores escalações do Prinsterer de todos os tempos – gente com uma triste habilidade com a bola. E isso ao mesmo tempo coincidindo com a decadência do futebol normal brasileiro. Pois, meus netos senhores, o Prinsterer foi subindo catastroficamente de divisão em divisão, como um homem tão desajeitado que tropeçasse escada acima até cair alquebrantado na própria cama. Até que finalmente, no ano passado, o Prinsterer jogou a final do Campeonato Brasileiro contra o Corinthians.

Vocês viram o jogo. Talvez menos o Lúcio que é efeminado, mas os outros viram. Vocês sabem o que aconteceu. A expectativa. O nervosismo. Os gogós que tremulavam como dezenas de bandeiras ao vento. O espanto e a hilariedade dos jogadores do time alvinegro ao verem cavalheiros pela primeira vez.

Ninguém no grande Brasil exotérico sabia o que esperar dali. O Prinsterer tinha ganhado alguma notoriedade porque os seus jogadores se lamentavam quando marcavam um gol, e comemoravam quando levavam um. (Mas nem comemoravam muito, porque cavalheiros não comemoram muito coisa nenhuma. É sabida a história de quando o Jaquinzinho Dôndi, já velhinho, recebeu a notícia de que o seu câncer tinha entrado em remissão. Sua única mudança de expressão foi que uma das suas maçudas sobrancelhas saltou para cima cerca de um centímetro, num espasminho, e logo voltou ao lugar. E Dôndi, envergonhado, disse aos médicos: “Peço perdão pelo movimento frenético da minha sobrancelha, mas acredito que fiquei feliz.”)

De modo que ninguém sabia o que esperar, mas o bom senso dizia claramente quem ia ganhar a partida. Nas arquibancadas Corinthianos se congratulavam quais parolos, soltando canções de triunfo com os próprios gases intestinais; e os Prinsterers se congratulavam quase invisivelmente, sorrindo com os olhos. Ambos achavam que iam ganhar segundo as suas próprias regras; era como se, numa gigantesca cama de grama no final de um verão idílico, um sádico e um masoquista se encontrassem para algumas horas de amor.

E o juiz apitou, e a bola rolou.

Durante muito tempo, nada aconteceu. O Corinthians ficou com a posse da bola durante noventa minutos de jogo, sem fazer nada de decisivo.

Nisso senão quando.

Faltavam dois minutos pro fim da partida quando um Corinthiano foi passar a bola pra outro e errou. Chutou na direção do pé de Viana Simpson Marechal, o lateral esquerdo do Prinsterer.

Viana vinha correndo, pensando no Paraiso Perdido de Milton que ele vinha traduzindo por hobby, e diz ele que nunca chutou a bola de propósito, a perna só estava indo pra frente, coitada – estava cumprindo o papel lá dela de perna correndo. Mas o pé bateu na bola, que foi na direção do gol e, ó meus netos, entrou (o goleiro sendo um dos piores da história desse time inurbano e pelamingas).

Vocês lembram né da foto que foi tirada no segundo imediato ao gol: não onze, mas vinte e dois jogadores em desespero. Vinte e dois jogadores levando as mãos simultaneamente à cabeça. Ninguém entendeu direito aquela foto. Vivem passando esse momento em câmera lenta na tevê. Acham que os Prinsterers lamentaram a vitória porque tinha aceitado suborno pra perder. Os Prinsterers! Homens que só aceitariam um suborno se ele fosse pago em moedas feitas de HONRA!

Não, eu estou aqui contando pra vocês o que aconteceu de verdade. Os jogadores do Corinthians lamentaram porque sabiam que a crise, não só do time, mas do futebol brasileiro como um todo era tanta, que aquele era o fim do esporte no país. E foi mesmo. Acabou o futebol. E os Prinsterers se lamentaram porque também sabiam que aquele era o fim do futebol de cavalheiros no Brasil. E foi mesmo…

Desde dezembro ninguém joga mais bola no país. Em lojas de esportes, em prateleiras de garagens, debaixo das camas de garotos, todas as bolas de futebol do país estão esquecidas, imóveis e murchas.

Mas não façam essas carinhas. Nossa, meninos, estou me sentindo mal até, contando a vocês sobre a existência do mais nobre esporte que já houve, só para terminar dizendo que ele acabou acabado e kaput! Talvez vocês preferissem nem ficar sabendo que ele já existiu. Que coisa gloriosa, que dança cósmica do destrambelhamento foi o futebol para cavalheiros no seu auge! Que semideuses andaram pela Terra, com suas musculosas pernas descoordenadas! Dôndi! Dotty! Carvalhal! Às vezes se descoordenavam andando, e tentavam dar dois passos seguidos com uma mesma perna antes de dar a vez à outra. Não se vê mais gente assim, meus netos. Acabou.

-Mas vô, disse Elisa, a neta com micose nos lábios, mas vô vem cá, vô diz uma coisa, vô tem uma coisa que eu não entendi. Se os jogadores brasileiros de futebol normal tão jogando mal, eles não podiam jogar nas copas do futebol pra cavalheiros lá fora, e sei lá, ganhar tudo?

Não, não, Elisa. Impossível. Embora eles de fato joguem muito mal agora, pior até que cavalheiros – e eu nem sei pra que servem as classes baixas se elas nem conseguem jogar futebol melhor que as classes altas. É verdade, se eles fossem inscritos nos campeonatos internacionais de futebol secreto, eles de tão ruins perderiam para os piores times europeus de futebol secreto e levariam sem dúvida a taça. Porém: não são cavalheiros! Sabendo que basta jogar pior que o adversário pra ganhar, eles jogariam mal de propósito, o que é inteiramente contrário ao espírito do jogo. Compreendem?

Os cavalheiros do Brasil poderiam, esses sim, jogar abertamente nas ligas de futebol normal, e aceitando intimamente as regras do futebol normal – já que sempre se esforçaram para jogar bem, só não conseguiam mesmo. Como agora estão em decadência, jogam bem, e talvez ganhassem de todo mundo. Mas pobres aristos, não suportariam o ambiente rústico do futebol normal. Desmontariam à primeira visão da torcida brasileira assoprando vuvuzelas e batucando nos próprios bócios.



O FUTURO QUE NOS AGUARDA, LENDO CORNEILLE

Não, foi o fim dos futebóis. Alguns dizem que pra sempre – mas eu faço parte dos otimistas, Elisa. Uma nova geração de pernas-de-pau há de surgir.

Numa manhã de neblina, montados em cavalos brancos como Dom Sebastião (talvez Dom Sebastião o próprio entre eles!), os jogadores cavalheirescos voltarão. Descerão das suas montarias, e sorrirão galantemente. E, num campo improvisado nas planícies da zona cafeeira, chutarão o ar, chutarão cupinzeiros, chutarão formigueiros; e quebrarão as próprias pernas em movimentos espasmódicos na brisa, enquanto a bola no centro do campo tira um cochilo sossegado e feliz.






A Alma da Festa em São Paulo

aalmadafesta, capa

Amigos que estão em São Paulo: convido-os a descolarem as bahookies das cadeiras nesta próxima segunda (dia 9), e a virem para o lançamento do meu romance “A Alma da Festa”.

É na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, a partir das seis e meia da tarde – mas se for mais fácil podem passar lá pelas oito ou mesmo nove e tanto, que ainda vou estar lá, provavelmente com dor de cabeça de tanto pensar no que por nas dedicatórias.

É o primeiro livro que publico em nove anos. Escrevi a primeira versão em 2006/2007. Mas sentia que o final estava errado; deixei o livro parado e em 2011/2012 reescrevi a segunda metade inteira, dando um final que me satisfaz mais.

Estou orgulhoso do livro as it stands.

aalmadafestarealejo

Eis a história (com um pequeno SPOILER no final do parágrafo):

João Maximiliano de Juquinha-Fortescue, 8º Barão de Guisnay vel Quisney, último representante dos Juquinha-Fortescue e descendente direto da Rainha Boadicéia, contrata um detetive para encontrar um amigo desaparecido quarenta anos atrás. Aos poucos, tanto o Barão quanto o detetive descobrem coisas espantosas sobre Orlando, esse amigo desaparecido: que tinha uma fortuna de origem inexplicada; que era amigo de literalmente metade de todas as pessoas do mundo; e que era, enfim, a reencarnação de um antigo Deus Egípcio do Charme.

O Barão apura que Orlando renasceu em São Paulo, que agora se chama César, e que ele não tem memória nenhuma do Barão, nem de quem ele próprio foi ou do que fez. Pior que isso tudo, não tem nada do charme de antes. É uma criatura triste, tímida e desajeitada – como o próprio Barão.

Saudoso do amigo, o Barão insiste em fazer com que César recupere a memória e o charme. César também quer desesperadamente que isso aconteça: nada o agradaria mais do que se livrar do próprio desajeitamento social e voltar a ser o Deus Egípcio do Charme. Mas, no fundo, desconfia que o Barão seja um maluco qualquer, e que nenhum Orlando jamais tenha existido.

Você pode ler o primeiro capítulo aqui.

E se não puder ir no lançamento pode comprar online, aqui e aqui.

É isso. Espero que gostem, meus pequenos chuckaroos.

E cá entre nós espero que não demore outros nove anos até o próximo romance (vamos ver; mas já estou pensando numa possível história).

Yves Hublet – Um Paladino que Retorna?

O primeiro conto do Twice-Told Tales de Nathaniel Hawthorne é sobre um misterioso senhor barbudo, cheio de autoridade natural e carregando uma bengala, que aparece sempre que o povo da Nova Inglaterra precisa dele.

“Who is this gray patriarch?” asked the young men of their sires.

…the old man grasped his staff by the middle and held it before him like a leader’s truncheon.

“Stand!” cried he.

The eye, the face and attitude of command, the solemn yet warlike peal of that voice — fit either to rule a host in the battle-field or be raised to God in prayer — were irresistible.

“Are you mad, old man?” demanded Sir Edmund Andros, in loud and harsh tones. “How dare you stay the march of King James’s governor?”

And who was the Gray Champion? (…) I have heard that whenever the descendants of the Puritans are to show the spirit of their sires the old man appears again. (…) And when our fathers were toiling at the breastwork on Bunker’s Hill, all through that night the old warrior walked his rounds.

Há figuras assim em todos os países. Em Portugal foi o Velho do Restelo, que fez várias aparições públicas desde o início da crise em 2008.

*****

E este é Yves Hublet, escritor, que em 2005 deu bengaladas no cocoruto de José Dirceu:

hublet

Duas na cabeça e uma nas costas, segundo a Wikipédia.

Não foi um dos grandes momentos da história do país? Pois foi. (É verdade que o Brasil não tem lá muitos grandes momentos; afinal este é o país em que o equivalente à guilhotina ou ao assassinato de Kennedy foi o Carlos Lacerda tomando um tiro no pé.)

Se dependesse de mim, haveria estátuas desse senhor pelo país todo – dando bengaladas, claro, mas também lendo quadrinhos da Disney (além dos seus próprios livros, Hublet foi autor de duas histórias da Disney brasileira, “A Torta Certa” e “O Materializador de Desejos”). E pelo menos a sua bengala devia estar numa redoma em algum museu – nossa Durendal, nossa Joyeuse, nossa Excalibur.

Muito bem, senhores. Diz a História que o sr Hublet morreu em 2010. Nunca acreditei nisso; tive sempre uma teoria, que não queria expor ao mundo antes de ter suficientes provas iconográficas.

Pois agora tenho essas provas, e a teoria é esta: o sr Hublet é um herói mítico que, desde o Descobrimento, sempre aparece em momentos de crise da História Nacional.

Riem? Me acham maluco? Com gargalhadas afetadas e sem tirar as piteiras das bocas, me pedem provas? Pois tomem provas.

Este é um quadro de Pedro Américo representando a Batalha do Avaí, na qual, com muita dificuldade, vencemos os paraguaios em 1868. (Volto depois da imagem, comendo bis.)

hublet - batalha de avaí, pedro américo

É impossível negar que esse seja Yves Hublet, liderando a carga num dos nossos momentos de maior dificuldade!

Aqui, também de Pedro Américo, a Batalha de Campo Grande (1869):

hublet inteiro, pequeno-pedro_americo_batalha_de_campo_grande_1871

Esperem que já amplio, e verão Yves Hublet surgindo de uma neblina mística:

hublet cropped -pedro_americo_batalha_de_campo_grande_1871

Aqui a Passagem do Chaco, de 1871:

passagem do chaco amplo111 hublet

hublet - passagem do chaco, pedro américo

Hublet de novo, apontando o caminho – com a bengala quiçá escondida no poncho!

Em 1888, quem é que Victor Meirelles registrou num canto do seu “A Abolição da Escravatura”?

Victor_Meirelles111_-_hublet Abolição_da_Escravatura

Em 1879, Pedro Américo pintou Hublet num momento de merecido descanso:

hublet momento repouso

E, finalmente, esta imagem estarrecedora, tirada quando José Dirceu e José Genoíno ouviam as suas sentenças:

Dirceu-e-Genoíno hublet no fundo11

Eu mesmo não quis acreditar quando vi essa foto num jornal online, mas levei o laptop à ponta do meu nariz romano para enxergar direito e, meus caros, dei um berro!

Não pode haver dúvidas depois disso. Que Yves Hublet voltará sempre que precisarmos, é um fato. Resta só nos perguntarmos se, quando o momento pedir, nos juntaremos a ele numa guerra santa de bengaladas – ou se, como sempre, continuaremos sentados de cueca sendo maldosinhos no twitter.

Hublet: um bravo homem e um magnífico senhorzinho batuta.

Hublet: um bravo homem e um senhorzinho batuta.

Capiche?

Um ensaio de Bernard Cooper que encontrei numa antologia sobre memória, e resolvi roubar inteiro porque achei bonito. Foi publicado originalmente em um livro chamado Maps to Anywhere, de 1990.

In Italy, the dogs say bow-bow instead of bow-wow, and my Italian teacher, Signora Marra, is not quite sure why this should be. When we tell her that here in America the roosters say cock-a-doodle-do, she throws back her head like a hen drinking raindrops and laughs uncontrollably, as if we were fools to believe what our native red rooster says, or ignoramuses not to know that Italian roosters scratch and preen and clear their gullets before reciting Dante in the sun.

In Venice there is a conspicuous absence of dogs and roosters, but all the pigeons on the planet seem to roost there, and their conversations are deafening. When the city finally sinks, only a thick dark cloud of birds will be left to undulate over the ocean, birds kept alive by pure nostalgia and a longing to land. And circulating among them will be stories, reminiscences, anecdotes of all kinds to help pass the interminable days. Even when this voluble cloud dissipates, the old exhausted birds drowning in the sea, the young bereft birds flying away, the sublime and untranslatable tale of the City of Canals will echo off the oily water, the walls of vapor, the nimbus clouds.

There were so many birds in front of Café Florian’s, and mosquitoes sang a piercing song as I drank my glass of red wine. Waving them away, I inadvertently beckoned Sandro, a total stranger. With great determination, anxious to know me, he bounded around tables of tourists.

The Piazza San Marco holds many noises within its light-bathed walls, sounds that clash, are superimposed or densely layered like torte. Within that cacophony of words and violins, Sandro and I struggled to communicate. Something unspoken suffered between us. We were, I think, instantly in love, and when he offered me, with his hard brown arms, a blown glass ashtray shaped like a gondola, all I could say, all I could recall of Signora Marra’s incanting and chanting (she believed in saturating students in rhyme), was “No capiche.” I tried to inflect into that phrase every modulation of meaning, the way different tonalities of light had changed the meaning of that city.

But suddenly this adventure is over. Everything I have told you is a lie. Almost everything. There is no lithe and handsome Sandro. I’ve never learned Italian or been to Venice. Signora Marra is a feisty fiction. But lies are filled with modulations of untranslatable truth, and early this morning when I awoke, birds were restless in the olive trees. Dogs tramped through the grass and growled. The local rooster crowed fluently. The Chianti sun was coming up, intoxicating, and I was so moved by the strange, abstract trajectories of sound that I wanted to take your with me somewhere, somewhere old and beautiful, and I honestly wanted to offer you something, something like the prospect of sudden love, or color postcards of chaotic piazzas, and I wanted you to listen to me as if you were hearing a rare recording by Enrico Caruso. All I had was the glass of language to blow into a souvenir.

A Alma da Festa

Esse é a capa do meu último romance, “A Alma da Festa”. Lançamentos em setembro (Santos) e outubro (São Paulo). Lançamento também em Curitiba, mas não tenho a data.

aalmadafesta, capa

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