Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

Uma Civilização Doente

Concebi a fantasia melancólica de um planeta hospital: toda uma civilização de gente doente sendo tratada num hospital que cobre a superfície inteira do seu planeta, além de estações orbitais em volta e algumas colônias por perto. Os próprios médicos e enfermeiros são doentes, e uma vez por dia se arrastam, ou são empurrados de cadeira de rodas, dos seus quartos nas cidades dos médicos e nas vilas dos enfermeiros, para os quartos dos meramente doentes. O Imperador é um doente como outro qualquer, num quarto só um pouco maior que os outros, e está de cama com um tubo enfiado na boca e recebendo soro pela veia; sua alta coroa está na mesinha de cabeceira desde que ele nasceu, junto com flores; o cetro está largado no sofá. O Parlamento é um quarto coletivo de doentes terminais e é possível ver, num painel eletrônico, quando um deputado acabou de morrer no meio de um debate. Há um continente para cancerosos, um continente para pessoas com insuficiência renal, o arquipélago dos cardíacos, a Península de Parkinson etc; e uma imensa ilha de paraplégicos, na qual, em alguns dias, a única coisa que se move são olhos. A ilha das pessoas que sofreram derrame desenvolveu a sua própria língua feita só de vogais. O curioso dessa civilização é que são guerreiros temidos, eficientes, sanguinários: acamados ou de cadeiras de rodas, respirando com tanques de oxigênio muitas vezes, e outras tantas no meio de sessões de químio, ou de radioterapia, seus oficiais e seus soldados nauseados e fracos comandam naves espaciais que impõem o terror em todo o espaço em volta deles. Conquistaram vários planetas; cruzaram, dizem por aí, com as populações vencidas, e espalharam suas doenças crônicas em pelo menos um terço do nosso céu visível.

Admirável Coutinho

Admirável Coutinho tinha esse nome, fazer o quê? Porém de tempos em tempos alguém numa redação ou numa estação de TV tinha a idéia:

-Tem um cara em Embu das Artes chamado Admirável Não-Sei-Quê, vamos perguntar pra ele o que ele tem de admirável?
-Putz, Embu das Artes?

Mas iam.

-Admirável, você é admirável?
-Não, né.
-Por que esse nome então, Admirável?
-Meus pais que me deram ué.

Se apenas ele desse umas respostas melhores. Mesmo assim sempre iam apertar a campaínha da casa dele.

-Como você se sente se chamando Admirável, Admirável?
-É o meu nome né. Podia me chamar Cláudio, ou sei lá… (longa pausa, era chato o homem) Pedro… Mariano… mas os meus pais me chamaram Admirável né.
-Mas você não é nem um pouquinho Admirável?
-Não sei acho que não né.
-Por que os seus pais te chamaram de Admirável, Admirável?
-Não sei eles morreram quando eu tinha quatro anos.

Podia mudar de nome, queria mudar de nome, para Pedro, Indelécio, tanto fazia, o que queria era parar aquelas visitas de jornais e estações de tevê, as perguntas bocós.

-Você é Admiráel, Admirável?

Era mais seco agora:

-Não.
-Ah eu discordo, Admirável, porque você é um brasileiro batalhador, simples, pai de família. Você é sim Admirável, Admirável. Concordam, família?

A família concordava, em tempos e alturas diferentes, num efeito desajeitado.

-Como você se sente ouvindo a sua família dizer isso, Admirável?

Admirável Coutinho sentia que todos esperavam que ele falasse que ficava emocionado, mas ele entendia que a família tinha sido meio que forçada a falar isso por causa da câmera, e só encolhia os ombros.

-Tá emocionado, né, Admirável?

Encolhia os ombros de novo, e depois de um tempo dizia baixinho:

-Não sei.

Sempre saíam decepcionados.

-Ele não é nem um pouco admirável esse Admirável – disse uma jornalista um dia ao voltar a entrar na van pra ir embora.
-Meio matuto.

Mas tarde da noite Admirável Coutinho ficava pensando. É, podia mudar o nome, mas não era uma solução fácil demais, uma solução de covarde? Não seria mais construtivo merecer o nome, virar admirável em alguma coisa?

Mas em quê? Ficava se revirando sem conseguir dormir, pensando em como podia ficar admirável.

-Está pensando de novo? – a mulher acordava no meio da noite.
-Estou.
-Pensa não – e ela se virava e logo voltava a dormir.

Um dia quando o filho mais velho tinha dezesseis anos a mãe contou na cozinha que o pai ficava acordado de noite, triste porque não tinha nada de admirável.

-Mas o pai é admirável.
-Fala pra ele.

Em vez de falar, uns dias depois o filho largou um papel pautado no colo do pai que via tevê na sala.

-Que é isso?
-Redação da escola, lê.

Admirável leu e viu que o filho tinha escrito vinte maneiras que o meu pai é admiravel, e Admirável foi lendo e tinha vinte maneiras mesmo, bonitinho, bons sentimentos, mas sentiu que os olhos do filho estavam fixos nele esperando alguma reação, que ele sorrisse ou chorasse, e ele tentou se forçar a chorar pra não desapontar o filho, mas de repente a redação pegou ele de jeito e ele estava chorando mesmo.

-Bobagem… Bobagem… – disse o Admirável estendendo a folha de volta.
-Bobagem nada, ué – disse o filho sorrindo.

Mas isso só piorou a sensação do Admirável: agora que tinha que se tornar admirável mesmo em alguma coisa, pra fazer jus não só ao nome mas também ao que o filho pensava dele. Que eram exageros que nem faziam sentido, ao seu ver.

“É um bom pai”. Por que ele era um bom pai, porque não batia? Porque cuidava? Era o mínimo. O nome que merecia era Mínimo, rará, pensou se revirando na cama aquela noite.

-Que foi, Admí? – perguntou a mulher.
-Nada, uma besteira. Volta a dormir.

A mulher um dia lhe tinha dito: escuta você é o único homem nessa rua inteira que está empregado faz onze anos na mesma empresa, nunca falta no trabalho, nem quando a kombi prensou você no muro você faltou. É o único homem nessa rua inteira que quando bebe só fica quieto, sorri, dá tchau e vai pra cama dormir. (Olha a diferença com os vizinhos dos dois lados.) Os nossos filhos são os únicos nessa rua inteira que já têm dinheiro economizado pra fazer faculdade, pra começar a pagar pelo menos. Como é que isso não é admirável? Como?

-Eu que pergunto, como é que isso é admirável? Fazer a própria obrigação?
-E não é?
-Eu não acho.
-Hoje em dia eu acho. Olha os outros.

Mas Admirável encolhia os ombros:

-Eles que sabem deles.

Tá bom, Admirável, parecia dizer o mundo. Esquece isso. É só um nome. E ele esqueceria até, dado tempo, se não fossem as equipes de tevê, os portais de notícia, as meninas jornalistas que falavam com ele como se ele fosse retardado.

-Não não tenho nada de admirável – ele já ia dizendo.
-Mas —
-Não tenho. Tchau.
-Mas é só uma perguntinha rápida —
-Como eu me sinto me chamando Admirável?
-É.
-Não sei, como você ia se sentir se chamando Linda? Você ia gostar? Você se acha linda?

A menina jornalista que era só ok mas acima do peso fechou a cara, era um daqueles homens do povo, não um do tipo que ela gostava.

-Tá, vamos embora, Tarcísio – e entraram na Fiorino.

Mas Admirável se sentia mal de ter sido mal-educado.

Bom, mudou o nome. Fez os trâmites lá. Se chamava agora Fernando Coutinho Guedelha.

Bem mais bonito, não? Agora dava o nome falando mais alto, preechia o nome com alegria, ou pelo menos alívio.

Quando alguém no bairro ou no trabalho ainda o chamava de Admí, corrigia:

-Fernando agora.
-Ah é.

No início estava alegre mesmo, mas de repente, principalmente tarde da noite sem conseguir dormir, começou a perceber uma sensação ruim.

Mas o que era, o que podia ser? O nome era perfeito, gostava muito: Fernando Coutinho Guedelha. O que tinha de errado? Mas alguma coisa tinha de errado.

Começou a perceber que estava ficando desleixado, que ficava mais tempo na cama de manhã, chegava agora dez ou vinte minutos atrasado no trabalho, um dia até quarenta minutos, o que não fazia antes.

De modo geral começou a ficar desleixado mesmo. Não fazia a barba com frequência, se vestia pior. Talvez os outros não notassem mas ele notava.

Gastava mais. Comprou uma tevê melhor, se pensar bem sem necessidade.

Que é isso? O que está acontecendo?

Fernando Coutinho Guedelha, o que tem de errado?

A mulher se esforçando pra chamar ele de Fê, se esquecendo às vezes.

Demorou um tempo pra perceber mas um dia, andando na rua, percebeu que enquanto se chamava Admirável ele se esforçava pra ser admirável, ou pelo menos fazer o mínimo que era preciso pra viver, mas ao desistir do nome era como se tivesse desistido de ser qualquer coisa melhor do que ele já era. E isso parecia ruim, muito ruim.

Era errado. Tinha sido mesmo um gesto de covarde. Ele tinha desistido de uma coisa que não era pra desistir.

Falou pra mulher que ia voltar com o nome original.

-Por que, (pausa mínima), Fê?
-Eu desisti de uma coisa que não era pra desistir. – Sacudia a cabeça, fazendo não, sem conseguir se expressar melhor. – Não era. Só sei que não era.

O juiz lá não queria mudar.

-Isso aqui não é palhaçada, decide primeiro e volta depois.
-Eu decidi…
-Não vai mudar depois? Porque isso aqui não é palhaçada.

Era, mas deixa quieto.

O nome voltou a ser Admirável Coutinho, e por inteiro Admirável Coutinho Guedelha.

Voltou a fazer a barba com frequência, a por uma roupa boa pra trabalhar.

É verdade que continuava pensando, tarde da noite: admirável em quê, admirável em quê? E como a resposta não vinha, continuava sofrendo.

Mas agora quando lhe perguntavam se era admirável, dizia:

-Não. Não sou não. Mas um dia, não sei. Um dia, sei lá. Um dia talvez eu seja.

O Vigilante Rodoviário Contra o Cerrado Infinito

Era preciso tirar a Mãe Preta do cerrado.

-Precisamos tirar a Mãe Preta do cerrado – disse o Presidente Café Filho.

Mandou chamar o Vigilante Rodoviário.

-Tire a Mãe Preta do cerrado, Vigilante Rodoviário!
-Já não era sem tempo, senhor Presidente!

Todos sabiam que Getúlio Vargas havia ignorado o tormento da Mãe Preta por mera torpeza tropical atavista. Mas Café Filho com todos os seus defeitos de homenzinho pouco notável estava disposto a mudar a metafísica infausta do Brasil.

O Brasil mudaria, o Brasil ficaria bom, se a Mãe Preta fosse instalada numa casinha de vó na Mooca.

O Vigilante Rodoviário preparou uma baita merenda basicamente consistindo de sanduiche de pasta de amendoim e um tupperware rosa com pedaços gelados de abacaxi para si e para o cachorro Lobo e os dois subiram na gloriosa Harley-Davidson de 1952.

Pegaram a estrada, o vento brincando com os grossos filetes de baba do bravo pastor alemão Lobo. Era um dia bonito.

Mas quando a estrada acabou e o Vigilante Rodoviário subiu com sua motoca homérica nas trilhas fechadas do cerrado, tudo escureceu, inclusive a alma do herói.

“O cerrado é infinito”, pensou o Vigilante Rodoviário com angústia.

De fato o cerrado era tão infinito que de repente não havia nem estrada pela qual ele tinha chegado ali – tudo era cerrado e sempre havia sido cerrado.

“Como vou encontrar a Mãe Preta?”, pensava o Vigilante Rodoviário avançando cerrado adentro ou, dava rigorosamente na mesma, recuando cerrado afora. “E se a encontrar, como vou tirá-la daqui?”

Nenhuma casa no cerrado, nenhum sinal de construção humana, nenhum vendedor de banana, nada exceto um cerrado que parecia ter sempre coberto a superfície da Terra toda, obliterando Império Romano, a infância gostosa do Vigilante no Cambuci, as estradas que ele amava, tudo.

Mas o herói prosseguia com determinação heróica mesmo se com altas doses de angst e começando a virar niilista ali porque o cerrado é niilista, ele bota isso no coração dos homens.

O cerrado começou a afetar o Lobo também. Ele aninhado no seu lugar lá do lado da moto começou a tremer, ganir baixinho, depois até uivar, triste de tudo.

-Que foi, Lobo, meu velho amigo? – disse o Vigilante Rodoviário parando a moto e passando a mão na cabeça do Lobo.- Você não teve medo nem com a gangue dos camelôs milionários. Está com medo agora? É só mato. Mato de todos os lados. Mato para sempre.

Lobo gania, chorava, uivava, tremia. A alma do Vigilante Rodoviário fazia a mesma coisa.

Ele olhou para o caminho que tinha pela frente, considerando a ordem que tinha recebido, mas considerando também seu amor pelo Lobo que nem o niilismo de um cerrado infinito podia destruir.

-Pode deixar, meu amigo – disse o Vigilante Rodoviário – Vamos pra casa. Se ainda houver uma casa…

Voltaram por onde tinham vindo. E, para a surpresa do Vigilante, o cerrado infinito acabou, ele estava de novo na estrada, Lobo estava feliz, ele estava feliz.

Naquela noite na sua casinha modesta mas confortável no bairro da Aclimação o herói tirou as botas, tomou um banho de banheira com Aqua Velva, alimentou o Lobo, se alimentou, os dois viram um filme dos Três Patetas, o Vigilante bebendo devagar uma única lata de cerveja e tentando não pensar que tudo isso era ilusão, o conforto da casa, do filme, a noite quente da Aclimação, e que na verdade ainda estavam no cerrado. Que sempre tinham estado no cerrado. Que nunca sairiam do cerrado.

***

No dia seguinte de manhã bem cedo ele e o Lobo pegaram a estrada de novo, dessa vez no Simca Chambord; para o Sul, para Buenos Aires, para consultar o seu velho amigo Jorge Luis Borges que sempre o orientava nos dilemas mais complicados da sua existência.

Nessa época Borges morava na calle Maipú. Era o fim da tarde; voltava de um chá na casa de um escritor medíocre e vaidoso e enfiava com mão insegura a chave na fechadura da porta quando, senão quando, sentiu um cachorro roçando a sua perna. Pela primeira vez naquele dia, sorriu de verdade, sorriu honesto, se agachou, acarinhou o bicho, sentiu o bafo afável do animal na sua cara ultracivilizada, e falou:

-É você, Lobo? Onde está o Vigilante?
-Aqui, meu amigo – disse o Vigilante botando uma pesada mão no ombro do autor de Ficciones.

Subiram. O Vigilante notou consternado que o seu amigo estava ficando cego, que se apoiava no corrimão da escada a cada passo, que deslizava a mão pela parede até encontrar a sua porta, mas não disse nada. (Caluda.) No apartamento foram recebidos com efusão e licores pela mãe de Borges que adorava o Vigilante Rodoviário. O Vigilante comeu o pudim da mãe de Borges, elogiou um bordado, chegou até a recitar Verlaine e Browning, ele que gostava de esconder a cultura que tinha e sem sacrifício nenhum bancava o homem simples para os homens simples.

O Vigilante teve o prazer de ouvir Borges citando Antero de Quental:

-Na mããão de Deus, na sua mããão direita…

Quando ela saiu e ele e o Lobo ficaram a sós com o escritor, o Vigilante contou o que tinha passado.

-O cerrado brasileiro me apavora – disse Borges. – Sonho às vezes com o cerrado brasileiro, que nunca vi, mas cuja descrição li no livro primeiro de Euclides da Cunha. Sinto que o cerrado apaga toda a história; apaga a Grécia e Bizâncio; apaga a feliz obra de Leibniz e a infeliz obra de Schopenhauer, apaga os campos ao sul de Gualegay, apaga os céus que vi pela janela da minha escola em Genebra aos dezessete anos, e as as manhãs e as noites da campanha de Gallipoli; apaga a batalha de Maldon e a íntima discórdia de suas duas linhagens; apaga todas as notações de todas as partidas de xadrez jogadas desde o século setimo; apaga a obra de Milton e as fitas de James Cagney; apaga até mesmo a penumbra crescente desta sala, e a presença cálida de dois velhos amigos como vocês.
-É como me senti – disse o Vigilante.- É como me sinto, ainda. É como se não tivesse saído do cerrado…
-Escute – disse Borges se inclinando de repente para a frente na poltrona e se apoiando na bela bengala de nogueira. – O cerrado é um labirinto. Mas falta a esse labirinto um minotauro. Ninguém jamais escapou de um labirinto que não tem um minotauro.

Tão rápido como tinha se posto pra frente Borges pareceu muito cansado e voltou a se inclinar para trás na poltrona, suspirando, subitamente murcho e amarfanhado no seu terno cinza claro. Despenteado, perdido, triste. E disse:

-Esse é o único conselho que posso lhe dar.

Escurecia. O Vigilante Rodoviário pousou a sua taça de licor de whisky numa mesinha lateral. Sentiu que o cerrado invadia a sala pela grande janela que dava para a calle Maipú; que ao sair dali não encontraria cafés abertos, libélulas em volta das luzes das livrarias, mulheres maquiadas, grupos de estudantes soltando berros; mas só uma tristeza inumana e horrível.

***

A tarefa de fabricar um minotauro brasileiro não foi bolinho.

Café Filho terminou de ler o relatório do Vigilante Rodoviário e apertou um botão vermelho num telefone vermelho.

-Dona Laurinda Stevens chame o Dr Oswaldo Cruz, que é um baita de um crânio.
-Mas ele morreu, Café.
-É? Quando?
-Faz muito tempo, Café. Pôxa.
-Bom. Chama o Rondon então.

O Marechal Rondon chegou lá com folhas de árvores e besouros nos cabelos.

-Que foi?
-Precisamos construir um minotauro brasileiro.

O Marechal Rondon olhou bestamente para o Café Filho.

-E eu com isso?
-Ué você não sabe os segredos dos índios tudo lá?

O Marechal suspirou.

-Sei alguns. Mas eles não fazem minotauros. Eles não sabem nada de minotauros.
-Não?
-Não. Eles fazem curupiras, raptando uns molequinhos na Mesbla, no Mappin e nos supermercados Valdirama, e martelando os pés…
-Não quero ouvir – disse o Café Filho, que era sensível.

Na cara do Marechal Rondon o Café Filho apertou de novo o botão vermelho no telefone vermelho.

-Dona Laurinda Stevens me chama aí um cientista – ele disse, e olhando significativmente para o Marechal: – Alguém que SAIBA de alguma coisa.

O Marechal Rondon cuspiu tabaco no tapete com motivos tropicais de tucanos e umas plantas que nem existem, encolheu os ombros e voltou despeitado pra Amazônia.

Dona Laurinda Stevens não chamou propriamente um cientista mas chamou o jurista e filósofo Pontes de Miranda, que era também, no dizer presidencial, um baita dum crânio, e que entendia dessas coisas de ciência, contradizendo e humilhando Einstein sempre que podia só por hobby e livre exercício da sua superioridade intelectual.

-Diga lá.
-Precisamos construir um minotauro brasileiro.

Pontes de Miranda arregalou os olhos, cheio de idéias.

-Mas é pra já.

Saiu sem nem perguntar pra quê, não queria saber, era um projeto, ele tinha construído um porão na sua casa em Perdizes justamente para projetos científicos, era um porão bacana, queria estrear o porão. (Deixa ele.)

Na mesma tarde Carlos Lacerda com seus óculos pesadões foi visitar o Pontes de Miranda no seu porão vagamente macabro cheio de bicos de bunsen e jarras com fetos deformados de girafas e orangotangos e coisas assim. Uma grande capivara com duas cabeças estava empalhada num pedestal bacanudo de madeira.

Lacerda tirou uns livros de uma cadeira de vime e sentou pesado, viril.

-Então vai fazer um minotauro?
-Vou.
-Não te ocorreu perguntar pra quê, sua besta?
-Não me interessa.
-Pois te digo: é pra tirar a Mãe Preta do cerrado.
-Ótimo!
-Mas se é assim, se é preciso um minotauro, por que não importar um minotauro da Grécia? O Chiquinho Scarpa tem um e passeia de coleira com ele todo dia pela Alameda Santos, chocando a sociedade paulistana.
-Mas aí é que está! Não quero chocar a sociedade. Quero dignificá-la. O Brasil precisa de um minotauro nacional. – E logo Pontes de Miranda deixou escapar o motivo verdadeiro do seu interesse: – É um desafio, de qualquer maneira.

Carlos Lacerda suspirou, limpou os óculos com um lenço de cambraia.

-Então tá. Como posso te ajudar?
-Voluntários, meu caro. Preciso de voluntários.
-Vou arranjar no exército.
-Bem parrudos.
-Tá bom.

Eis a lista dos heróicos voluntários do exército e da marinha que faleceram durante as experiências no porão de Pontes de Miranda:

Sub-tenente Adilson Queiroz; Taifeiro de 1a Classe Heitor Damasceno Britto; Segundo-Sargento Fabio Tulipa Neto; Cabo (não-engajado) Wenceslau Broca dos Santos; Corneteiro de 2a Classe Olímpio Nascimento dos Anjos; Soldado-Clarim Temístocles Aderbal dos Santos Queiroz; Soldado Fuzileiro Naval Roberto Aparecido; e o Grumete Antônio Feliciano dos Santos (o “Biba”).

Porém Pontes de Miranda, que era craníssimo, sabia o que era DNA por ter sido descoberto dois anos antes, tudo bem, mas ele tinha na verdade descoberto o DNA muito antes disso, quando era garoto; e deduziu que se pegasse o DNA no sangue de um boi mangalarga, e que se injetasse sem dó esse DNA na cabeça de um sudestino parrudo, poderia obter quem sabe um minotauro autenticamente nacional.

Ele finalmente conseguiu isso certa manhã na figura do voluntário carioca o heróico cabo Edmilson Feliciano dos Santos, um entusiasta do bodybuiding, do jiujitsu e do surfe.

-Estou ao dispor do Brasil – disse o cabo com ampla sinceridade.

Veio a injeção direto no olho. O cabo Edmilson começou a urrar.

-Valha-me Deus! Acuda!

Segurava a cabeça, se sacudia.

-Shhhh, shhhh – dizia o Pontes – Vai passar.

Coisa estranha, a cabeça do cabo foi ficando no formato da cabeça dum boi, os ossos quebrando e se amoldando; mas sem pelos, retendo a tez e todos os traços humanos. Era um pouco penoso de ver, suas sobrancelhas, seus olhos comoventes parados numa expressão perplexa. Mas era inegável que era uma cabeça de boi num corpo formidável e fortinho; fortão, até; monstruoso.

Começou a se debater, a quebrar móveis; uma expressão furiosa surgiu no seu rosto agora subitamente mitológico. Foi contido por seis seguranças que estavam lá pra isso mesmo, e um tranquilizante cavalar no antebraço veiúdo e moreno; e muito bem amarrado numa maca.

Foi o primeiro e último minotauro carioca. Há uma estátua do minotauro carioca na Praça Quinze. Um colosso. Uma estátua que inspira vitalidade ao mais pachorrento dos cariocas arrasta-chinelo.

***

Um piloto chamado Álvaro Linhares foi encarregado de largar o minotauro adormecido no meio do cerrado. Porém assim que sobrevoou no seu helicóptero os primeiros metros de cerrado, viu que qualquer ponto do cerrado era o meio do cerrado, e que a Terra inteira estava coberta de cerrado.

“Entrei em pânico. Decidi largar o minotauro logo ali e sair de lá o mais rápido possível. De olhar para o cerrado cobrindo o horizonte em todas as direções, senti que queria vomitar. É difícil explicar, mas era terrível. Parecia que o cerrado estava olhando pra mim. Senti que meu apartamento recém-comprado em Copacabana não existia mais, e que a minha mulher não existia mais. A minha filha Maísa de dois meses não existia mais. Minha mãe, meu pai, não existiam mais. Estava louco pra telefonar pra minha mulher e ouvir a sua voz dizendo que tudo estava bem. Meus dedos tremiam e a minha visão estava embaçada de lágrimas. Desci um pouco, até cerca de vinte metros do solo. Puxei a alavanca e vi o corpo drogado do minotauro caindo com um baque na terra lá em baixo. E “chispei” dali.”

(Do livro “Operação Minotauro”, 1966, Álvaro Linhares e José Louzeiro, editora Cogitec, 2a edição.)

O Vigilante Rodoviário deixou o Lobo na casa do seu amigo o inspetor Leite, um detetive muito esperto da época.

-Caso eu não volte…
-Vai voltar.
-Mas caso eu não volte, ele gosta de cenoura. Louco por cenoura. Uma inteira por dia.
-Está bem.
-Crua.
-Está bem.
-Frango ele adora. Maçã. Às vezes dou um hamburguer.
-Vou providenciar.
-Ele gosta de dormir perto da gente, também. Não se dá bem dormindo no quintal. Quer dizer, ele não reclama, se for necessário. Eu é que gosto de dormir com ele no quarto. Ele não reclama mesmo. É um anjo.
-Entendi.

O Vigilante Rodoviário se ajoelhou no gramado extenso da casa do inspetor Leite no Pacaembu, onde havia aliás uma biblioteca imensa sobre criminologia que o Vigilante às vezes visitava e na qual passava horas. Fez um carinho na orelha do Lobo.

-Vou tentar voltar, ouviu? Vou fazer de tudo.
-Vai voltar, vai voltar – dizia o inspetor Leite.

Houve uma festa no quilômetro 75 da Raposo Tavares para a despedida do Vigilante Rodoviário. Uma bandinha militar tocava umas músicas lá. Um assessor do Café Filho apertou a sua mão. Deu um diploma que depois, discretamente, o Vigilante largou no lixo.

Virgínia Lane, uma beldade corista e cocota, deu um beijo estalado na sua bochecha enquanto os fotógrafos sorriam e soltavam flashes fumacentos.

-Boa sorte, herói do Brasil! – disse Virginia Lane com lágrimas nos olhos.
-Obrigado, Virgínia!

As mulheres tinham um negócio pelo Vigilante.

Os jornalistas perguntaram que armas estava levando pra lutar com o minotauro. O Vigilante mostrou as mãos enluvadas: só uso as mãos. Às vezes os joelhos. Às vezes, precisando, botinadas.

Um jornalista escreveu: HERÓI OU LOUCO?

Ninguém sabia. Era de se debater.

Bom, ele acenou, acenaram de volta, soldados bateram continência, e a banda militar tocou uma música do Cauby Peixoto por algum motivo abstruso. Cinco marinheiros mamelucos atiraram pro ar. Virginia Lane chorou num lenço fornecido momentos antes pelo Vigilante. Chorou de verdade. Estava, todos disseram, encantadora, vulnerável, sexy.

De repente sem virar pra trás o Vigilante saltou na Harley-Davidson de 52 e partiu pela estrada. Que estava fechada pra outros veículos. Nem era necessário mas estava fechada por ordem do governador gordito que queria aparecer no jornal.

O Vigilante indo pela estrada vazia na velocidade máxima que a lei permitia, tentando aproveitar seus últimos momentos (talvez na vida) de velocidade, vento e felicidade. Mas a expressão no seu rosto era já fechada como o cerrado que o esperava.

***

Subia um morrinho de cerrado, depois outro morrinho, depois uma planície infinita que apesar de infinita terminava num morrinho, e depois em outro morrinho, e depois em outra planície infinita.

Tinha a noção de que estava ficando louco: que dali a pouco estaria tendo pensamentos de cerrado. Talvez já estivesse tendo pensamentos de cerrado. (Estava.)

O que o salvou foram os urros de uma criatura em um morrinho lá perto, quando acabava a planura que não acabava. Dava pra ver a criatura dando murros a esmo nas poucas árvores mirradas a meio caminho da descida do morro. Elas balançavam, galhos voavam.

A criatura estava dando uma surra no cerrado, e ganhou a simpatia do Vigilante Rodoviário.

-Eu e você, minotauro – disse, e avançou com alegria na direção do morrinho.

Mas opa. É possível travar uma luta de vida e morte com alegria? É, e foi, porque a excitação da ação física obliterou o cerrado, obliterou o infinito e o nada que o esmagava. Um segundo que passe de vez, mas passe bem passado, vence a eternidade, por um segundo que seja.

Assim que viu o Vigilante chegando na sua motoca o minotauro baixou a cabeça e veio correndo na direção dos dois; baaaaaaah, berrou, e bateu a testa com tudo na frente da moto: o Vigilante Rodoviário rodopiou no ar e caiu num arbustinho seco que cortou a sua nuca.

O minotauro levantou a moto e jogou no arbusto; o Vigilante levou uma guidonada na cara e ficou prensado ali contra o arbusto cortante. Ainda estava alegre com toda essa ação física, embora atordoado com a coisa em si que estava acontecendo. O minotauro veio correndo e saltou por sobre a moto qual um astro de telecatch, caindo pesado, urrando, bufando, e um escapamento da sua moto querida rompeu o músculo da coxa direita do Vigilante e fez o seu joelho fazer tlec.

Fazer a sua Harley-Davidson, companheira de tantas aventuras, espancá-lo! O Vigilante com o rosto retorcido de dor, que fez? Retorceu o rosto um pouco mais para rir: seria divertido contar isso depois para a Virgínia Lane, ou para os seus netos, os pequenos Lanes.

Felizmente o minotauro era burro e ficou dando socos na moto. Talvez achasse que lutava contra dois inimigos. O Vigilante foi cobreando pra fora do arbusto, processo no qual juntou, nas costas, cicatrizes novas à cicatriz que tinha feito na explosão do celeiro de aguardente falsificada (no caso da Gangue da Aguardente Falsificada).

Com a camisa rasgada nas costas, como um herói de capa de revista de aventuras masculinas dos anos 50, que era exatamente a época em que estava, e não mais na eternidade, o Vigilante Rodoviário se pôs de pé e deu quatro botinadas violentas no oblíquo desenvolvido e suado do homem-boi, que rolou para o chão berrando de agonia porque uma das botinadas lhe havia esmagado o baço.

Em um ponto o minotauro arrancou uma árvore e a esgrimiu contra o Vigilante; em outro ponto o vigilante tirou o capacete e com ele esmagou um pouco o crânio do minotauro. Houve no jargão do boxe trocação franca, costelas sendo quebradas e dentes sendo cuspidos na secura. Houve as tentativas do minotauro, que guardava no fundo da cachola uma memória de jiujiteiro, de levar o Vigilante Rodoviário para o chão; mas o Vigilante, que brigava nas ruas do Cambuci desde os oito anos (sempre por causas justíssimas), sabia bem afastar as pernas e manter a base.

Forte por forte, o minotauro era mais forte; mas o Vigilante tinha a astúcia de pelo menos quatro Ulisses e um sétimo de Ulisses; e cansava o minotauro, o deixava dar socos loucos no ar, o irritava jogando barro nos seus olhos tão humanos, tão de no fundo um coitado; dançava em torno dele embora coxo, parecia ágil e descansado embora estivesse começando a ver preto em um olho. No fim o minotauro, exausto de tudo, impulsionado por um uppercut na queixada descomunal, caiu com um urro perplexo numa brenha.

O Vigilante chegou até a beira do pequeno abismo (são diminutas as quedas no cerrado porém as rochas cortam a carne como quaisquer rochas) e viu que o minotauro ia morrer. Desceu, tentou consolá-lo:

-Qual o seu nome?
-Não lembro… – disse o minotauro com voz de boi.
-Você me ajudou a vencer o cerrado. Obrigado, seja você quem for.

O minotauro olhou pra ele sem entender nada. Ergueu o braço para dar um último safanão, fez só um gesto ineficiente de matar mosca, mugiu e morreu.

O Vigilante tirou o capacete e fechou os olhos do bicho. Fez uma oração.

Olhou em volta. O próprio cerrado era agora finito no tempo e no espaço; e como todas as coisas que são só o que são, era agora uma lembrança simpática no coração dos homens. O cerrado havia sido vencido, e o cerrado estava feliz por isso.

Imediatamente a Mãe Preta saiu de detrás de um arbusto. Levava os olhos escancarados porque nunca tinha visto outro ser humano.

-Moço, leva eu?

O Vigilante pôs a Harley-Davidson de pé, viu que estava só um pouco amassada mas nada demais, fez um rapapé e disse:

-É um prazer, Dona Mãe Preta. Deixe ajudar a senhora.

E foram indo, vento nos cabelos da Mãe Preta; e pimba, saíram os dois do cerrado.

A Mãe Preta depois de umas entrevistas para a revista Manchete foi instalada de fato numa casa de vó da Mooca, pequena, mas charmosa. Café Filho mandou lhe dar uma pensão vitalícia que a bem dizer não era enooorme, mas bastava para os seus gostos modestos.

A Mãe Preta era feliz vendo novela, lendo Allan Kardec. Adotou um gato da vizinhança. Regava suas plantinhas. Cultivou manjericão. Fez capas de bujão de gás para vender pra fora. Fez amizade com uma tal dona Salete, viúva de um dentista diabético e igualmente espírita e noveleira, que vivia no quarteirão de cima juntamente com a filha loiroodontíssima.

***

Naquele mesmo dia da saída da Mãe Preta do cerrado o Brasil girou nos eixos; foi desfundado e refundado em um segundo, um segundo e meio. O Brasil ficou bom. Tudo que era ruim ficou bom.

Todos os crimes foram descometidos, todas as maldades que foram ditas saíram do cérebro dos magoados que desmagoaram, e entraram de novo na boca dos ex-maldosos, que as absorveram como vitaminas e dançaram freneticamente ao ritmo do rockabilly; todos os amargos adoçicaram, todos os ranzinzas desranzizaram, todos os doentes nos hospitais saltaram da cama gritando por algum motivo um berro de caçada à raposa, todos os mortos levantaram do cemitério saudáveis como lutadores de telecatch, e foram pra casa e disseram oi pai, oi mãe, oi filho, oi querido, e pelo menos em um caso oi Berta La Douce, vim te fulminar com um beijo esta noite.

Tudo que aconteceu de triste em cinco séculos, e talvez mais, desaconteceu da manhã para a noite; tudo estava certo; tudo sempre esteve certo, o que há é que não se percebia, mas agora se percebia, e como se percebia, como se percebia, com espanto contínuo pelas ruas.

***

O próprio Lobo, que ultimamente já vinha apresentando alguns sinais de senilidade, naquele anoitecer parecia que tinha dois anos de novo e brincava pelo quintal com as bolinhas de plástico coloridas havia muito abandonadas embaixo dos móveis da casa.

O Vigilante o observava da soleira da cozinha, com um sorriso besta.

-Isso, pega a bolinha, Lobo! Pega a bolinha! Rarará!

E chutava a bolinha pra longe no longe que não era tão longe assim no quintal exíguo mas bastava pra alegria dos dois.

Sentia um vigor nas pernas como se precisasse saltar; uma espécie de corrente de vril lhe retesando as coxas; a coxa rompida estava mais que curada, estava sobrecurada; e tudo que queria era pular na moto naquele mesmo momento e percorrer alguma estrada, todas as estradas do país, com o Lobo ao seu lado, e conhecer cidades, impérios, viver aventuras, as aventuras que pode haver num país feliz, uma ameacinha de problema e logo uma solução espetacular e talvez engraçada pra gente rir em volta da fogueira anos depois; comer omeletes e milkshakes em paradas, hamburguers com muito ketchup e mostarda, batata frita, conversar com taxistas e velhas e crianças em praças do interior, tomar sorvete de milho todos os dias, ter latas e latas de coca cola gelada no compartimento da moto; e logo em seguida a estrada de novo, para sempre, para sempre jovens eles os dois, só voltando de vez em quando para a sua casa na Aclimação para ler, longe dos olhos de todos, com o Lobo dormindo no tapete arraiolo aos seus pés e um copo de leite frio suando ao seu lado na mesinha, Ariosto, Tasso, Horácio, Homero, Leopoldo Lugones, seus preferidos, por uma eternidade noturna entrecortada de quando em quando por cigarros de palha no quintal e uma ocasional bisnaga de pão com manteiga na cozinha, por toda a doce suavíssima noite equanto o sol não nascesse.

E quando o sol nascia muitas vezes tomava o café da manhã (iogurte, suco de laranja, croissants à vontade) debaixo da parreira no quintalzinho, era agradável ali. Lia o jornal: dava risada, só notícias boas, Dom Pedro II restituído ao trono, Café Filho e Pontes de Miranda seus sábios conselheiros para sempre, José Bonifácio primeiro-ministro para sempre, Joaquim Nabuco redivivo escrevendo artigos e até romances policiais. Pousava o jornal, olhava o céu azul meio frio, e pensava em que estrada queria estar em trinta ou quarenta minutos. Fumava um último cigarro de palha, muito reflexivo (não fumava na estrada, a estrada era pura), chamava o Lobo e partia de casa na gloriosa e rútila Harley-Davidson da polícia rodoviária.

Às vezes também, considerando, fazendo curva numa estrada (logo estava na estrada), sentia desprezo – desprezo não, pena – é, pena – pena sim de Aquiles, de Orlando, de Rinaldo, de Lancelote, do Rei Artur, até dos conquistadores mongóis, dos navegadores portugueses, de Cortês, do Zorro no seu cavalo, do Tex, do Dartagnan coitado – por nunca terem andado de moto numa estrada bem asfaltada, numa velocidade alta porém dentro da lei estadual. Como sói. Como ele e o Lobo queriam.

Era um prazer inesgotável. Era o maior dos prazeres. As estradas em primeiro lugar; em segundo, só viver.

O Despertar do Kundalini


Escrevo desde os sete anos e tal, mas nunca fiz questão de contar vantagem disso porque o que eu escrevia era, well, utter trash. Eu não fui propriamente precoce. Na verdade quando penso nas histórias que escrevia é quase como se eu fosse retardado – e só não fico mais deprimido porque penso nas histórias que os meus amigos escreviam e vejo que, por comparação, eu era o Tchecov da Escolinha Mágico de Oz.

Havia uma história minha, por exemplo, em que um menino saía de casa para visitar a avó, ficava vinte anos procurando por ela e depois descobria que ela estava na sala de visita conversando com a mãe dele o tempo todo. E uma outra em que a mãe descobria que o filho havia mentido porque ele disse “vou fazer estrume” (querendo dizer que ia fazer cocô), e (assim raciocinava ela, e eu também) “estrume é coisa de bicho, logo ele mentiu”. E uma outra em que um detetive brasileiro vivendo em Londres tentava encontrar um assassino que matava as vítimas em busca de algo chamado “suco cerebral”. O assassino queria retirar o “suco cerebral” das vítimas e injetar na cabeça da mulher dele, que era burra ou maluca ou algo assim (já não lembro qual dos dois).

O estilo era empolado, do tipo que impressionava professoras de português e os meus amigos mais retardadinhos; estava tirando os cadernos de cima do armário hoje de tarde e encontrei uma história com a frase “não tivesse ele feito a peregrinação que lhe fora recomendada…” no meio duma história de pirata.

E encontrei também uma história em quadrinhos que eu fiz quando tinha nove anos, sobre um superherói chamado O Estrela (geralmente vinha um ponto de exclamação depois do nome dele, que era escrito num balão dramaticamente pontudo como se o balão tivesse explodido de tão excitado por conter o nome do herói).


Todo o problema do Estrela, além do nome que era extremamente lame (ou, como todo mundo dizia na época, “baiano”, “baiola” e, se não me engano, “requenguela”) era a origem dele, que eu contei nesta página:

Ele está andando de moto quando é cortado por um fusca e cai num desses negócios que ficam na beira da estrada, que eu fui perguntar pros meus pais como chamava (“olho de gato”). E o olho de gato, bem, “ativa o kundalini dele” – o que quer que isso seja.


Bom, eu não sabia exatamente o que era kundalini mas tinham me dito que ele ficava na “base da espinha”, e caso você não tenha visto direito como eu desenhei a cena aqui está uma ampliação:

Note a cara de dor. “Kundalini”. Ah, ok.

Bom, eu não tenho certeza se o Estrela é o único superherói que ganhou seus superpoderes ao ser empalado num acidente de moto porque faz tempo que não leio revistas de superheróis e, do jeito que as coisas vão, a esta altura deve haver um monte. Mas na verdade eu é que desenhei mal. Quando mostrei a história pro me irmão ele riu muito, e eu tive que repetir indignado que “mas não é na bunda. É na base da coluna”.

Em outra história fiz o Estrela se lembrar do episódio da sua origem e me esforcei pra desenhar a cena direito, antes que um boato grotesco estragasse a carreira dele:

(“E me senti bem estranho.” I’d say you did.)

Mas vamos voltar à origem do Estrela. Ele fica um quadrinho inteiro suando com cara de muita dor enquanto eu repito a palavra “Kundalini” várias vezes num clima psicodélico. Depois ele levanta do olho de gato e descobre que ficou fortudo, da seguinte maneira: ele vê o fusca capotado e diz que vai tentar desvirar o carro, o motorista acidentado diz “Mas é impossível!!!!” e o Estrela, sempre otimista, responde que “não custa tentar”. Daí ele vira o fusca com facilidade, e fica tão surpreso que traços saem da sua cabeça em todas as direções enquanto ele olha para as próprias mãos com a boca aberta.


Em seguida ele testa a força dele com rochas:

(Ao ver isso eu não sei como o outro sujeito não tentou bater com o kundalini no olho de gato também. É o que todo mundo faria. Mas provavelmente ficou com vergonha.)

Do nada, aparece um monstro que ataca o Estrela. Eu gosto da página seguinte, embora ache que ela tem um problema qualquer de perspectiva – ou o monstro está andando pra trás, ou eu não sei o que está acontecendo:

Na página seguinte aparece o Mestre Misterioso responsável pelo despertar do Kundalini do Estrela – mas o que eu gosto mesmo nessa página é da imagem dramática do monstro morto no chão, com a sombra do Estrela do lado:

Hein? Hein? Vou ampliar a imagem para que vocês vejam o drama:

Com o detalhe do pezinho do monstro saindo pra fora do quadrinho.

A história nunca continuava. Ela termina com um “Continua na página 33!”. Depois eu desenhei uma propaganda falsa de revista (um superherói chamado “Quasar”), palavras cruzadas com dicas do tipo “A?é ?u, Bru?us” (você tinha que escrever “T”) etc.

E havia uma segunda história em que o Estrela aparece lutando contra Hitler e seus soldados (na verdade eu preferia a palavra “asseclas”). Por falar em dramaticidade, repare na morte de um amigo do Estrela nas mãos de um assecla encapuzado:

E o dramático chiaroscuro do quadrinho do canto inferior esquerdo:

O criminoso negro com a faca está dizendo “Tá frito, xará!” – o que prova que eu já dominava a linguagem das ruas quando tinha 9 anos.


Mais um detalhe de grande dramaticidade: o Estrela confrontando o Mestre Misterioso.

Não particularmente bem-desenhado, ok, mas a fala tem a naturalidade de mais ou menos metade dos diálogos de “Batman Begins” – e vocês levam aquilo a sério. E note o suor de tensão que aparentemente brota de um momento para o outro.


Ok, só mais uma imagem e devolvo o caderno pra prateleira de cima. Nessa cena, um membro da organização criminosa T (com um T bem grande nas costas e um chapéu de palha, pra ficar com um ar bem malvado) vai cobrar a dívida de um velhinho:

Não sei se vocês conseguem ver todos os detalhes. É importante. Um delegado de polícia careca (pra mim todo delegado de polícia era careca) está confessando que faz parte da Organização T. “Atuamos no mundo inteiro fazendo “proteção forçada” (entre aspas) e, no fim do mês, cobramos taxas elevadas. Como vê, usamos meios eficazes para cobrar…”


(Eu não sei porque ele diz “como vê”, já que o que se segue é uma ilustração dos métodos da Organização T que o Estrela não tem como enxergar, sendo um flashback or something, mas adiante.)


“…tais como estes:”


Quadrinho 1
Bandido: Pague, velhote!
Velhinho: Aaaahh! Netinha! Fuja!
Netinha: Vovô!
Quadrinho 2
Velhinho: Aaaahhh!
Bandido: Não quer pagar? Tome! &%”#%#!
Netinha: Vovô!
Quadrinho 3
Bandido: CALA BÔCA MENINA!
Netinha: Aaaii!


Repare no uso do silêncio na última imagem. O ângulo. A bonequinha sorrindo. É chato ser eu mesmo a afirmar, mas nunca, nunca, desde “Roma, città aperta”, um artista mostrou com tanto faux pathos o sofrimento duma criancinha.

Grandes Partidas da História

Geller x Spassky – Riga, 1965

Em 1965 os enxadristas russos Boris Spassky e Efim Geller jogaram uma partida na semifinal do campeonato mundial em Riga. Graças a algumas peculiaridades, essa partida logo se transformou numa das mais estudadas da história. Geller jogou com as brancas e a partida foi anotada da seguinte maneira:

1 d4 Nf6
2 c4 e6
3 Nc3 Bb4
4 Nf3 c5
5 e3 d5
6 a3 Bxc3+
7 bxc3

Nesse ponto, segundo testemunhas, Spassky passou o indicador de a5 a h5, delicadamente desviando dos próprios peões, e disse:

-O que passar desta linha é viado.

Isso foi anotado assim:

7 bxc3 a5-h5!

A Linha Homossexual de Spassky

Geller olhou nos olhos de Spassky e disse “Ah, vai!”, mas Spassky encolheu os ombros e disse “Você que sabe”.

-Quer dizer então que isso tudo aqui é viado? – Geller disse, apontando as peças de Spassky.
-Não – Spassky explicou calmamente – Eu disse “tudo que passar daqui”, não “tudo o que está aqui”. Tem que passar desta linha. Neste sentido aqui.

Geller pensou um pouco e disse:

-Ah é, então eu também passo uma linha aqui – e passou o indicador de a4 a h4.
-Copião – Spassky disse – Não pode.

O juiz confirmou que não podia e chamou Geller de imitão também.

A partida prosseguiu:

8 Bb2 Nc6
9 Rc1

Nesse ponto Spassky pensou bastante e estendeu a mão para a rainha, mas no lugar de movimentá-la ele tirou do bolso um pincel e um potinho de tinta e pintou bem na frente da rainha uma manchinha vermelha, dizendo:

-Está menstruada.

E voltou a colocar a rainha no mesmo lugar. Geller perguntou:

-Essa é a sua jogada?
-É.
-Ela está menstruada?
-E já não era sem tempo – Spassky disse, piscando o olho.

Isso foi anotado assim:

9 Rc1 Qmens!

E a partida prosseguiu:

10 Bd3 dxc4
11 bxc4 e5
12 dxe5

Com esse movimento o peão de Geller ultrapassou a Linha Homossexual de Spassky, e Spassky fez um grande estardalhaço rindo e dizendo “Iiiiiiiih! Iiiiiiiih! É viado! É viado!”, até que o juiz o mandasse ficar quieto.

O Peão Homossexual de Geller e a Rainha
Menstruada de Spassky: posição clássica

Geller deu de ombros e pareceu não se importar com isso, mas para o resto da vida passou a ser importunado por repórteres que perguntavam “porque ele preferia jogar com peões homossexuais”. “Foi o início”, escreveu Geller em suas memórias, “da grande provação da minha vida.”

A partida terminou quando, no movimento seguinte, Spassky disse “IIIIhhh, o sanguinho da menstruação tá escorrendo, iiiiih, quanto sanguinho, isto aqui é sanguinho, se pisar aqui pega AIDS”, enquanto pintava com o pincel toda a coluna D de vermelho. O juiz foi obrigado a reconhecer que isso dava uma vitória incontestável a Spassky.

Isto foi anotado assim:

12 dxe5 d1-d8aids!

Uma das partidas mais controversas da história, Geller x Spassky se tornou também uma das preferidas dos estudantes de xadrez, que a partir dela desenvolveram jogadas hoje consideradas clássicas como o Quadrilátero Homossexual de Polgar e o Laguinho de Aids de Nakamura.

Coleção Grandes Pensadores

Da Wikipedia:

Abílio Diniz (São Paulo, Brasil, 1936), filósofo brasileiro conhecido por afirmações como “qualidade de vida exige método e disciplina” e “não adianta guardar ressentimento. É bola pra frente e vamos que vamos”. Estudou em Heidelberg sob a tutela do grande filósofo neotomista Jacques Maritain, que teria ficado impressionado com a afirmação casual de seu aluno de que “a natação é o esporte mais completo” e “quem fica parado é poste”. Diniz recusou a cadeira de filosofia em Heildelberg alegando que “não conseguia ficar parado” e abriu uma rede de mercearias no Brasil para sobreviver. “A filosofia já não me apresentava nenhum desafio, e sou um homem movido exclusivamente à base de desafios” (Diniz, “Recordações de Maritain e Etienne Gilson”, 1974). Só voltou à filosofia em 2004, com “Caminhos e Escolhas – O Equilíbrio para uma Vida Mais Feliz” (considerado por Nuno Cobra como o “Tractatus Logico-Philosophicus brasileiro”). Teve grande influência em Quine, Rorty e Habermas. Habermas afirmou no seu livro Theorie des kommunikativen Handelns que “a filosofia nunca mais foi a mesma depois do insight de Abílio Diniz de que “quem fica parado é poste”. Esse terrível aforisma ecoa no pensamento europeu com a mesma intensidade fatídica do “Deus está morto” nietzscheano”. (Ao ouvir a frase de Nietzsche, aparentemente pela primeira vez, o neotomista brasileiro teria dito, “Ô, que coisa, que é isso” – o que fez com que Habermas replicasse: “Que fofo!”. Ver Dennet, Daniel, “Great Philosophical Conversations of Our Times”).

Citações

“O homem é o lobo do homem”, quer dizer, tem muita gente querendo fazer treta por aí. Olho vivo nesse pessoal. (“Hobbes para Gerentes”, Capítulo V.)

Quando a gente olha pro abismo, o abismo às vezes olha pra você e fica aquele clima ruim. Não olha pro abismo não.

Os grandes maitres à penser Jacques Maritain e Nuno Cobra foram as influências intelectuais da minha vida – com o Dráuzio Varella, Içami Tiba e o Dr. Ermírio chegando perto. Aquela menina, a Luciana Gimenez, também é mais inteligente do que parece. (…) Acho que todo mundo tem alguma coisa pra nos ensinar nesta vida, menos a Angélica e o Luciano Huck. (da série “Palestras em Powerpoint”.)

Eu não costumo falar com faxineiros porque esse pessoal todo é muito chucro, mas talvez devesse porque às vezes essa gente diz umas coisas que você fica até bobo. Estava falando com a Dona Magali, que é a caixa numa das nossas unidades aqui da Mooca, e ela dizendo que foi baleada por traficante, destruíram o barracão dela. (…) E eu perguntei se ela não tinha raiva, e ela disse: “Ah, Dr. Diniz, eu acho que a melhor vingança é viver bem, né?”. E ripa na xulipa! Foi uma lição de vida que aquela mulher burra de doer acabou me dando.

Muitas pessoas ficam obcecadas em atingir um padrão de beleza imposto pela mídia. O importante é a gente estar bem com a gente mesmo.

Vais ver as mulheres? Ah, que bom, faz bem.

Então eu digo pra vocês: eu fiz Heidelberg, mas o que eu queria fazer mesmo era a escola da vida. Então eu larguei Heidelberg e fui fazer a escola da vida. Fui procurar o Dr. Antônio Ermírio que pra mim era o mestre disso tudo aí (da escola da vida). Ele me recebeu numa saleta e perguntou: “Abílio, você consegue quebrar isso?”. E me deu um lápis, que eu quebrei. “Agora vê se você consegue quebrar isso”, ele disse, e me deu uns quinze lápis, com aquele sorriso sabido dele. E eu fiquei com vergonha de dizer pra ele que aquele truque era muito manjado. Então a primeira coisa que eu queria passar pra vocês é isso, que velho só fala merda.

Nietzsche disse “Aquilo que não me mata, só me fortalece”. Mas nós do Pão de Açúcar resolvemos tirar isso à prova. Então um belo dia fechamos o supermercado e começamos a ver quantas coisas nem matavam nem fortaleciam. (…) Nenhum produto do setor de papelaria matava ou fortalecia, com exceção da tesoura e da cola, que podiam matar mas também não fortaleciam. Durex não mata nem fortalece, papel timbrado Tilibra não mata nem fortalece. É difícil matar com uma régua… (…) No setor de produtos de limpeza, fizemos um vendedor beber meio litro de pinho sol mas ele não morreu nem ficou mais forte (muito pelo contrário, até hoje não está muito bem). Essa frase do Nietzsche só se aplica ao setor de hortifrutigranjeiros e laticínios, e mais uns poucos produtos, do tipo bolacha Calipso. Então essa é a segunda coisa que eu queria passar pra vocês, que Nietzsche só fala merda.

Um Zepelim para Belford Roxo

(Um texto antigo sobre a afirmação de que não se pode criticar um romance pelo assunto, mas só pela maneira com que é desenvolvido.)

Essencialmente o que quero quando leio um romance é a sensação de estar vivo num lugar em que eu queira estar vivo. A sensação de estar de pé num corpo que não é meu, ou a de não estar em corpo nenhum, uma consciência descarnada passeando por aí, observando outros corpos e outras vidas e sentindo os cheiros, as brisas, as mudanças de pressão.

Um romance é ao mesmo tempo o meio de transporte e o destino, o meio de transporte sendo o estilo e a habilidade geral do escritor, o destino sendo onde quer que você se imagine enquanto lê o livro. Alguns romances são um meio de transporte vagabundo, ou não especialmente digno de nota, mas me levam exatamente para onde eu quero ir no momento, digamos a Promenade des Anglaises ou Key West ou Oxfordshire ou as ilhas Grenada. Outros romances são meios de transporte excepcionais mas me levam para lugares onde não quero ir: um Flying Scotsman para a caatinga, um Mirabella V para o Largo 13, um Bugatti Veyron para o Capão Redondo, ou um Expresso do Oriente direto para Osasco.

Seria de se esperar que todos concordassem que o ideal é um romance que seja um meio de transporte excelente para um destino excelente – mas nãããão. Se um romance é um avião, a maior parte dos leitores sérios de ficção também séria parece exclusivamente interessada na beleza do avião, na sua estabilidade e engenharia, na história da aviação e tal, e fica um pouco impaciente quando alguém reclama da feiúra da paisagem vista pela janela. De fato, é de mau tom reclamar do destino; isso é o escritor que tem que decidir; cale a boca e admire o design dessa asa.

E compreendo também que não se pode criticar uma linha aérea pelo ponto de destino – que não se pode chegar no balcão da linha aérea e dizer, “O quê, um avião pra Uganda? Que bosta!”, por mais que se tenha vontade. Posso reclamar de uma linha aérea porque me serviram refrigerante sem gás, mas não porque me levam pro Inferno.

E, ok, às vezes acontece que não reclamo. Se a decoração do avião for bonita, ou nem um avião, digamos se estivermos a bordo de um LZ 127 Graf Zeppelin a caminho de Belford Roxo, talvez eu consiga só prestar atenção nos vidros Lalique e evitar olhar pela janela. Mas mesmo assim, né, não quero ir pra Belford Roxo.

Ao que, claro, me dizem sensatamente Então não vai, ué. E não vou, quase nunca. Mas não me basta não ir. Tenho que ficar no aeroporto reclamando do fato de tantos zepelins tão bonitos e tantos pilotos tão hábeis voando exclusivamente para Belford Roxo, só porque uma convenção tola estabeleceu que quanto mais feio o ponto de destino mais artística é a viagem, e que há algo de profundamente kitsch em querer ir para um lugar onde você realmente goste de ficar.

(Para o espírito de Guimarães Rosa. Onde quer que você esteja, um chute nas suas canelas.)

Pfui!

Queria que as pessoas parassem com essa história de que “a literatura é uma ocupação perigosa”.

Este discurso aqui de Roberto Bolaño.

Blábláblá, “qualidade de escrita não é saber escrever maravilhosamente bem, porque qualquer um pode fazer isso”, (não é um mero esteta o Roberto Bolaño, hein), mas “é o que sempre foi: saber enfiar a própria cabeça no escuro, saber saltar no abismo, saber que a literatura é basicamente uma ocupação perigosa”.

Uma amiga me recomendou ler Roberto Bolaño faz tempo, mas isso é muito brega.

Deus sabe que sou a favor de qualquer modo de encarar sua própria vida que permita que você se sinta um pouco heróico – mas é preciso manter algum sentido do ridículo, seu chileno.

Wodehouse nunca “enfiou a cabeça no escuro”. Ou ele estava “enfiando a cabeça no escuro” quando escreveu que o Bertie teve que deixar o Jeeves cortar a gravata preferida dele? Ou que o Gussie Fink-Nottle bebeu suco de laranja com gim e nadou numa fonte pra caçar lagartixas or something?

Marcial estava saltando no abismo quando escreveu epigramas sobre eunucos seguindo maridos infiéis no mercado? Jane Austen quando descreveu que a Emma foi rude com a Miss Bates num piquenique e que o Mr Knightley ficou meio zangado?

E mais importante, Edward Lear estava saltando no abismo quando disse que Violet, Slingsby, Guy e Lionel fizeram chá de pedrinhas enquanto o Quangle-Wangle tocava sanfona?

Queria que as pessoas parassem com essa idéia de que grande literatura tem que ser intensa como o Sean Penn urrando. E mesmo que fosse, mesmo que tivesse que ser – o que não é, e não tem que ser – não seria uma ocupação perigosa, exceto claro para os extras em volta do Sean Penn recebendo os borrifos de cuspe diretamente nas suas caras esperançosas e famintas de sucesso.

Ou nos casos em que é literalmente perigosa, como escritores que são presos ou exilados pelo que escreveram, ou decapitados, ou empalados, ou simplesmente chutados nas canelas por senhoras com raiva usando botas com solas de ferro, ou alvejados por bolinhas de papel babadas e arremessadas por elásticos presos entre o indicador e o polegar de carrascos mascarados que não gostam de literatura.

Mas não é a esse perigo (esse perigo-perigo) que Roberto Bolaño se refere, nem o perigo de estar escrevendo e a cadeira quebrar e você morrer, à la Salazar, coitado, mas a uma espécie de perigo metafórico de quem se forçou a encarar As Realidades Duras da Vida, Cara!

Ou até o Lado Escuro de Mim Mesmo! Porque Eu Sou Que Nem o Batman! Que Nem o Jack Bauer! Eu Tenho Lados Que Você Nem Queira Saber, Rapaz!

Tudo isso só reforça o meu preconceito contra a literatura latino-americana, coisa que deveria ter sido óbvia para mim assim que vi a latinidade do acento em cima do N de Bolaño. Amadurecer é ver todos os seus preconceitos serem postos em dúvida, e depois discretamente confirmados.

Eu entendo que exista um tipo de literatura mais, digamos, sofrida, complexa como um personagem de filme que fica de pé olhando a janela no escuro, e quando você fala com ele ele responde sem se virar e tal, dizendo alguma frase amarga e vivida sobre a vida, e em alguns momentos eu até gosto de literatura assim – apenas em pequenas doses, porque sou frívolo – mas o que me irrita é a completa inconsciência do valor de qualquer outro tipo de literatura, que frases bregas como essa do “enfiar a cabeça no escuro” deixam antever.

Eu não escrevo sobre o Ursinho Puff, meu caro! Eu não escrevo sobre Quangle-Wangles! Minha querida esposa quando me vê saindo do escritório depois de um dia de trabalho mal sabe a Escuridão em que enfiei minha cabeça!

Saltar no abismo! Desculpe, mas não posso deixar de visualizar um salto à la Margot Fonteyn.

Pfui.

Talvez os livros de Roberto Bolaño sejam melhores do que isso, mas agora fiquei indisposto com ele e tão cedo não tento ler. Porque sou injusto, impulsivo, intuitivo e infantil.

Por outro lado, comprei ontem um romance de Javier Marías e parece bom, sei lá.

As Três Crianças de Leipzig




I

Quando, na noite de Natal, os presentes foram finalmente desembrulhados, tanto o robô de plástico quanto o soldadinho de chumbo não conseguiram disfarçar o desapontamento ao ver as caras das crianças que os haviam recebido.

-É só isso? – disse o robô.
-Que bosta! – disse o soldadinho de chumbo.

Dos três irmãos, Cláudio, Milton e Cynara, foi Cynara que se recuperou do choque mais rápido. Ela disse:

-Quem é uma bosta? Vocês são uma bosta.
-Não, você é uma bosta – disse o soldadinho de chumbo.
-Menina com cara de bosta numa casa toda feita de bosta – disse o robô.

Cláudio e Milton estavam chorando. O soldadinho de chumbo, de tão frustrado, deu um chute no próprio tamborzinho, que saiu quicando pelo chão da sala fazendo um barulhinho metálico: chink chink chink chink chink.

-Toda essa expectativa pra nada – resmungou o soldadinho.
-Quanto maior a expectativa, maior o desapontamento – disse o robô, que era mais ou menos um sábio.
-Ai, gente. Coitados – disse Conchita, a boneca, que estava acompanhando tudo num canto.

Cynara estava pensando, com ranho escorrendo do nariz.

-Vou pedir pro papai trocar vocês, seus bostas – Cynara disse.
-Não – disse o soldadinho – Eu vou pedir pro seu pai trocar vocês.

O pai das crianças, o Professor Boombeck, estava numa poltrona da sala quebrando nozes na testa. Ele tinha uma testa muito dura e gostava de quebrar nozes, avelãs e amêndoas batendo com elas na testa. A cada noz, avelã ou amêndoa quebrada, algumas células do seu cérebro morriam e ele ficava um pouco mais burro. Mas ele era professor de filosofia e não ligava.

Cynara olhou pra ele. Claro que a idéia de que o pai ouviria o soldadinho e trocaria os próprios filhos por outras crianças era absurda. Mesmo assim, ela começou a correr pra chegar na frente do soldadinho.

Para azar dela e das crianças, no entanto, o robô pegou o soldadinho nos seus braços grossos e fortudos e o jogou com força na testa do pai das crianças. O soldado quicou na testa e caiu na vasilha de nozes, avelãs e amêndoas que estava no colo do pai.

-Pai, troca essas crianças que elas são umas bostas! – gritou o soldadinho.
-Pai, troca esses brinquedos que eles são umas bostas! – gritou a menina.

O pai coçou a testa, onde a baioneta do soldado tinha feito um cortinho, e disse:

-Humm, o soldadinho falou primeiro.
-Ah, pai – disseram as crianças, desesperadas.

-Vocês gostariam se vocês tivessem falado primeiro – disse o pai, que era muito justo – e eu fizesse o que eles querem? Não seria justo, seria? Seria?
-Não – disseram, chorando, Cláudio e Milton (que também eram muito justos).
-Ele falou que a gente é uma bosta – Cynara disse.
-Bom, bom – disse o pai rindo. – É um soldadinho brincalhão.
-E que a gente vive numa casa toda feita de bosta – Cynara continuou.

O pai ficou pensativo. Quebrou uma avelã na testa e disse:

-Aí é um pouco demais, hein?
-Mas não é? – perguntou o soldadinho. – Estou mentindo?
-Pior que é – disse o robô. E completou numa vozinha meiga, ainda que eletrônica: – Seja justo, pai. Olha quanto espelho, quanta coisa dourada. A gente não mente, pai.

O pai ficou pensando, com sanguinho escorrendo pela testa do corte da baioneta do soldado.

-Você que acha, boneca Conchita?
-Essa casa toda é um grande no-no, pai – Conchita disse. – Menos é mais.
-Menos é mais – repetiu o pai, sem entender. Depois quebrou uma noz na testa e disse: – Ok, crianças, entrem nas caixas em que os brinquedos vieram que eu troco vocês amanhã no orfanato. Sem choro nem cara feia, o justo é o justo.

As crianças choraram e espernearam, mas acabaram entrando nas caixas. Depois que elas entraram, o pai embrulhou as caixas e amarrou tudo com fitas para que as crianças não saíssem.

Em seguida o pai colocou uma etiqueta em cada caixa indicando qual filho estava dentro, e em cada etiqueta escreveu: DESTINO: ORFANATO.

As crianças mal podiam acreditar: uma hora antes estavam todas contentes comendo rabanada e chocotone e esperando a hora de abrir os presentes – e agora estavam passando a noite de Natal em três caixas escuras. Eles choraram tanto que quase morreram afogados dentro das caixinhas.

II


Quando finalmente amanheceu, e as caixas foram abertas pela diretora do orfanato, que era uma gordona do tamanho dum New Beetle, Cláudio, Milton e Cynara estavam tão enrugados de terem passado a noite mergulhados nas próprias lágrimas que pareciam três velhinhos.

-Meu Deus, quem são esses três velhinhos? – disse a diretora do orfanato. – Me disseram que aqui havia três crianças, bem fresquinhas e macias!

Ela estava especialmente desapontada porque estava preparando feijoada naquele dia para receber umas amigas, e todo mundo sabe que feijoada só fica boa com pedaços de criança boiando dentro. Velho tem carne dura.

Cynara, que era a mais esperta dos três (Cláudio e Milton eram meio retardados, coitados, porque tinham pegado o hábito do pai de ficar quebrando nozes na testa), teve uma idéia e imediatamente ficou curvadinha, cobrindo a cabeça com o papel de embrulho como se fosse um xale. E disse:

-Eu sou a Dona Maricotinha, esse é o Seu Agenor e esse é o Seu Nicanor. Somos três velhinhos muuuuito velhos.
-Velhos quanto? – perguntou a diretora do orfanato, desconfiada.
-Somos as pessoas mais velhas do mundo – Cynara disse. – Temos, sei lá, mais de dezesseis anos. Quando a gente nasceu todas as galinhas do mundo eram pintinhos. Todos os cachorros eram filhotinhos. As árvores, que na época eram só arbustos, falavam.
-Falavam o quê?
-Elas fofocavam sobre as nuvens. Passavam o dia inteiro fofocando. As nuvens ficaram completamente desmoralizadas.

A gorda coçou o queixo peludo.

-Droga – ela disse. – Velho não serve pra fazer feijoada. Todo mundo sabe que feijoada só fica boa com pedaços de criança boiando dentro.

Cynara teve a segunda idéia brilhante do dia, e disse:

-Ah, não é verdade. Quando você for tão velha quanto eu, minha boa gordota, vai saber que existe coisa melhor pra se colocar na feijoada do que crianças macias e gostosinhas.
-Melhor do que crianças? – perguntou a diretora do orfanato, arregalando os olhos. – O que pode ser melhor do que uma criança tenrinha?
-Ah, não digo não – Cynara disse, só pra fazer manha.
-Ora, por favor – insistiu a diretora, fazendo um carinho desajeitado e muito falso no papel de embrulho que cobria a cabeça de Cynara.- Diz pra mim, simpática e vetusta velhinha coroca.
-Ok, vou dizer. Mas só porque você é uma gorda simpática e rechonchuda. A melhor coisa do mundo pra se colocar na feijoada na verdade são três coisas. Vou dizer em ordem crescente de gostosura. Está anotando?
-Estou.
-A Terceira Melhor Coisa do Mundo pra se Colocar Numa Feijoada é um robozinho de plástico todo escangalhado. A Segunda Melhor Coisa do Mundo pra se Colocar Numa Feijoada é uma boneca de plástico toda despedaçada. E a Melhor Coisa de Todo o Mundo pra se Colocar Numa Feijoada – Cynara disse – é um soldadinho de chumbo todo derretido. Anotou tudo?
-Anotei – disse a gorda. – Mas é estranho. Se colocar os três juntos não vai ficar temperado demais?
-Não, é uma delícia. Não é, Seu Agenor? – Cynara perguntou, cutucando o irmão menor.
-Ô – Cláudio disse.
-Não é verdade, seu Nicanor? – Cynara perguntou, cutucando o irmão do meio.
-Não tem nada igual.

Nisso Cynara olhou para os irmãos e percebeu que os três estavam desenrugando, e que se ela demorasse mais um pouquinho a mulher ia perceber o engôdo (que eu gosto de escrever assim com chapéu mesmo, me deixem). Então Cynara disse, pondo uma perninha enrugadinha na caixa onde tinha passado a noite:

-Conselho de velha caduca, ouve o que eu estou te dizendo: põe a gente nessas caixas e devolve a gente na casa do homem que enganou você. Exige três crianças no lugar dos três velhos corocas que você está devolvendo. Daí você faz feijoada com essas crianças, ok?
-Ok – disse a gorda.
-E aproveita e pergunta se eles não têm um robô, uma boneca e um soldadinho de chumbo sobrando pra dar pra você, pra dar aquele gostinho especial.
-Nhame-nhame – disse a gorda, se babando toda de antecipação da feijoada que ia preparar. – Está bem.

Em seguida as crianças entraram nas caixas, que a diretora do orfanato embrulhou e amarrou com fitas. Depois ela começou a andar na direção da casa do professor, que ficava do outro lado da cidade de Leipzig. Ia equilibrando as caixas na cabeça, no ombro e nas tetas.

Agora sou obrigado a dizer que de vez em quando ela arrotava uma criança que ela tinha comido no café da manhã. Fiapos de crianças estavam pendurados nos seus dentes, porque ela era muito porca e não passava fio dental. Uma unha de criancinha estava presa entre os dois dentes superiores da frente dela, e a diretora do orfanato, enquanto caminhava, ia tentando tirar a unha do lugar com a língua. Aquilo já a estava deixando maluca.

A certa altura ela tentou tirar a unha com o cantinho de uma das caixas. Depois de vários minutos com a gorda parada no meio do mercado de Leipzig esfregando uma caixa nos dentes, a unhinha finalmente saiu do lugar.

Ela cuspiu a unha com gosto, e continuou andando na direção da casa do Professor Boombeck.


III


Vejamos agora como iam as coisas na casa do Professor.

Naquela manhã a Sra.Boombeck, que tinha ido dormir muito cedo na noite anterior sem ter visto o que tinha acontecido, acordou com a campainha. Era o carteiro, que lhe entregou três crianças extraordinariamente repelentes, todas elas chamadas Jorginho. Elas vinham de banho tomado e amarradas com lacinhos.

-Yo soy Jorginho – disse Jorginho 1.
-Yo soy Jorginho también – disse Jorginho 2.
-Mira, yo también soy Jorginho – disse Jorginho 3.

-Do orfanato, em troca pelos seus filhos – o carteiro disse. – E uma péssima troca, se me permite dizer, Sra.Boombeck.

Todas as pessoas têm um lado repelente. Eu mesmo sou egoísta e preguiçoso, e trocaria você, meu filho, por uma hora a mais de sono numa manhã de inverno, ou até mesmo de verão. Mas aquelas crianças eram conhecidas no mundo inteiro pela sua extraordinária repelência. Não sei nem como explicar de que modo exatamente eles eram repelentes. Não era nada do que eles diziam ou faziam. Você tinha que olhar pra eles pra entender.

Mal consigo escrever, minhas mãos tremem de fúria só de pensar nos três Jorginhos. Espera, vou me acalmar um pouco.

Me acalmei. Mas não a Sra.Boombeck! Ela havia acabado de saber que os seus filhos tinham sido dados a um orfanato pelo marido cabeça-oca. Devia ser a terceira ou quarta vez que ele fazia isso. E o que a irritou mais ainda é que, quando ela foi acordar o marido, reparou que a decoração do quarto, e aliás da casa toda, havia sido mudada: os espelhos haviam sido quebrados, as paredes pichadas. Tudo que era dourado havia sido raspado com a ponta da baioneta do soldado, que brilhava de longe.

O Professor Boombeck mal lembrava de ter entregue os filhos no orfanato, e aceitou estoicamente a fúria da mulher, só ficando realmente horrorizado quando percebeu que sua coleção de selos não estava mais em cima da cômoda. Foi encontrar os selos todos picados, alguns deles grudados nas paredes da privada, outros flutuando na água.

-Hobby idiota! – disse o soldado lá da sala.

O robô ouviu isso e riu, com a lanterninha vermelha no seu peito piscando sarcasticamente.

E, para piorar, os três Jorginhos estavam agora brincando com os brinquedos dos filhos dela! Educadamente sentados quietinhos no tapete! Ondas de horror atravessavam as costas da Sra.Boombeck como torcedores pelados correndo por um campo de futebol.

Examinemos com cuidado, desgosto e volúpia o quadro repelente:

Jorginho 1 brincava com o robô fazendo com que ele trabalhasse empilhando bloquinhos de madeira para a construção de uma creche.

Jorginho 2 brincava com a boneca Conchita fazendo com que ela estudasse direito para se tornar advogada de presos políticos.

Jorginho 3, que era contra guerras, fazia com que o soldadinho de chumbo interviesse pacificamente num conflito de pretos da África, e desse saquinhos de arroz pra eles.

O robô, a boneca e o soldado pareciam achar essas brincadeiras construtivas, educativas e superduper, e olhavam para os Jorginhos com admiração e amor. Eles mesmos estavam com a mesma cara de banhinho tomado dos três Jorginhos.

De tanta fúria o corpo da Sra. Boombeck balançava precariamente, como o chifre dum unicórnio num filme que eu vi uma vez de madrugada. Foi nesse momento que a campainha tocou de novo. Era, claro, a diretora do orfanato, com três caixas equilibradas na cabeça, no ombro e nas tetas.

-Toma esses três velhos de merda – disse a gorda do orfanato para a Sra.Boombeck – E me dá de volta os meus três Jorginhos.

O Professor, que eu já disse que era um pouco burro, olhou para as três caixas em dúvida e abriu a boca para dizer que não se tratavam de velhos, mas foi contido pela mulher, que espetou as unhas nas suas costas.

-Leva, pode levar.

Cláudio, Milton e Cynara saíram das caixas e, devagarzinho, para se fingirem de velhos, sentaram no sofá, tossindo muito. Disseram que o filme que estava passando na tevê era bobagem, que tinha muita violência e tal, e pediram pra botar na novela, como os velhinhos fazem.

Os três Jorginhos se agarraram em tudo o que puderam, na árvore de Natal, numa mesinha com xícaras de porcelana, nas pernas do casal Boombeck, mas nada adiantou: a gorda do orfanato batia nos dedinhos deles com uma colher de ferro que ela tirou da cintura, e eles soltavam o que quer que estivessem agarrando. Berrando e gemendo, e soltando ranho por vários buracos que ninguém esperaria que soltassem ranho, foram enfiados nas caixas.

-Absurdo!- gritou o robô de plástico.
-Pobres Jorginhos! – gritou a boneca Conchita.
-Gorda asquerosa! – gritou o soldado de chumbo.

A gorda olhou pra eles ali na frente dela e mal acreditou na própria sorte. Exigiu os três brinquedos como compensação, o tempo todo pensando que bela feijoada ia fazer com as três crianças, uma boneca, um robô de plástico e um soldadinho de chumbo. É claro que o casal Boombeck aceitou na hora – e em poucos segundos os três brinquedos, berrando palavrões horríveis que fariam corar um presidiário, foram enfiados nas caixas junto com os três Jorginhos e levados embora.


IV


Naquele mesmo dia a melhor feijoada da história do mundo foi servida no Orfanato de Leipzig, ali perto da praça Birbenstein. Não havia sobrado nenhuma criança no orfanato para provar o prato porque, lamento dizê-lo, todas elas tinham sido comidas nos dias anteriores, mas as amigas da gorda (e a própria gorda) ficaram muito satisfeitas com o gostinho da comida. O cheiro adocicado saía das janelinhas estreitas do orfanato e tomava conta da praça e das ruas adjacentes, deliciando as pessoas que passavam na rua.

Dizem, no entanto – e eu não tenho como confirmar – que a feijoada teria sido mais saborosa se o soldadinho de chumbo não tivesse escapado no último instante, atirando com a sua baionetinha nas bochechas das amigas da gorda e fazendo cosquinha em todo mundo com suas balinhas minúsculas. Antes de pular da janela para a rua Max Schreck, o soldado foi ouvido jurando vingança contra os filhos do Professor Boombeck.

Agora: se você conhece Leipzig, sabe que o Orfanato e a Casa dos Boombeck (que fica perto do Teatro Burgenheimer) ficam em bairros distantes um do outro, com vinte quilômetros de distância entre os dois. Ora, o soldado de chumbo tinha perninhas de, no máximo, dois centímetros. Calculando que cada passo do soldado cubra uma distância de dois centímetros (deitei no chão agora para verificar que cada passo que eu dou tem no máximo o cumprimento da minha perna), e que o soldado consiga manter uma média de dois passos por segundo, temos que

4 cm/seg = (4cm x 60)/1 min = 240cm por minuto ou 2,40m/min ou –

– mas deu preguiça de terminar a conta. Basta dizer que o soldadinho de chumbo vai demorar 100 anos pra chegar na casa dos Boombeck e conseguir vingar seus companheiros mortos.

Quanto a Cláudio, Milton e Cynara, devo dizer que eles passaram um bom Natal, mesmo sem ter ganhado nenhum presente. Estavam felizes pelo simples fato de estarem vivos, e em casa, comendo rabanada e chocotone.

E isso me leva à moral da história, meu filho:

Se você não gostar do seu presente de Natal, jamais reclame – porque pode ser que, ao invés de devolver o seu presente, o seu pai devolva você.

Por que não a mamãe?

Lá estava o Dr.Urbano no horário de almoço, andando pelo quarteirão do seu consultório em São Paulo, quando, tendo olhado a vitrina de uma livraria e seguido adiante distraído, de repente se perguntou se estava maluco ou havia mesmo, seria possível, visto uma foto da mãe dele na capa de um livro?

Não podia ser, podia? A Dona Martha? Também conhecida como a mamãe?

Mas voltou atrás e, ué, era sim. A mamãe! Na capa de um livro!

Na capa de vários livros, na verdade, ou de vários exemplares de um mesmo livro, que era a edição brasileira do bestseller filosófico daquele ano, “Vamos Matar a Dona Martha”, do Professor de Bioética de Oxford, o célebre e controverso Prof.Nicholas Killer-Couch.

O coração do Dr.Urbano ficou parado e encolhido durante dois segundos, como uma caloura na qual tivessem despejado um barril de gatorade durante um trote, e só aos poucos voltou a bater. Nunca tinha ouvido falar daquele livro. Leu e releu o título. Voltou a olhar a foto.

Era a mamãe! Sorrindo enrugadinha no seu vestido azul de maria-mijona, seus óculos de leitura pendurados por uma cordinha e descansando nos peitos monstruosos.

“Vamos Matar a Dona Martha”, mas por quê? Por que ela? Uma santa que só ficava em casa fazendo quitute? O Dr.Urbano entrou na loja e estudou o livro, que viu ter o subtítulo de “O Livro que Deu Origem à Campanha Para Matar a Dona Martha”. O texto da orelha, que não conseguiu ler direito de tão, qual a palavra? nervoso? pasmo? em choque?, dizia qualquer coisa sobre brilhante blablablá análise arguta da necessidade ética da descriminalização de procedimentos legais para pôr um termo à vida, não, entre aspas, “vida”, da Dona Martha; “o Professor Killer-Couch merece elogios”, estava assim, mais abaixo, num blurb, “por abordar com tanta sutileza um tema complexo, sem jamais ceder ao clima moral atual de certezas tanto à esquerda quanto à direita”.

Tremendo, o Dr.Urbano comprou o livro e foi ler no consultório. Descobriu que o título original era “Pray Let Us Kill Doña Martha”, uma brincadeira com os dois sentidos da palavra “pray”, “por favor” e “rezar” (Killer-Couch era ateu). O prefácio brasileiro, de um professor da Usp, avisava que o livro “tinha material de sobra para causar revolta nas mentes menos ousadas, diante da exposição fria e desapaixonada de uma vida inútil e dos muitos argumentos para terminá-la”. O prefácio da edição americana era assinado pelo “Diretor Internacional da Campanha para Matar a Dona Martha” (a CKDM). Mas era difícil pro Dr Urbano ler qualquer coisa, estando em pânico. Havia na orelha uma foto de Killer-Couch, bonitão para os padrões científicos, assim com uma espécie de beleza de astrônomo.

A caminho de casa o Dr.Urbano veio tentando ler o livro no carro, em cada sinal fechado – e sempre encontrava uma frase absurda, de implicações malévolas, justamente quando o farol abria. Antes de entrar em casa escondeu o livro na sua pasta.

Sua mãe estava na cozinha, descascando ervilha e vendo novela. Ela deu a bochecha pra beijar, disse “Ô filho, cê não morre tão cedo”, e começou a dizer que tinha falando dele com a tia Célia que estava com diabete. Mas, francamente, o Dr.Urbano parou de ouvir.

Ao vê-la curvada tetuda sobre as ervilhas, toda entretida com a saúde da tia Célia, seu cotovelo cascudo em cima do livro espírita que também sustentava um isqueiro azul de plástico, ao ver seus cabelos grisalhos de velhinha que nunca ouviu que os setenta são os novos cinquenta, ao ver debaixo da mesa suas pernas de maternal elefanta, seu chinelo estourado, e sobretudo ao ouvir sua voz rouca de velhinha fumante, sua voz de mamãe, Urbano decidiu que nunca a deixaria saber que lá fora, no vasto mundo filosófico, sutil, ético, palestrante, milhares de pessoas com diplomas queriam matá-la.

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-Não, não! Eles não querem matar ela – disse o Inácio, seu melhor amigo, quando Urbano telefonou pra ele trancado no escritório – Eles querem ter o direito legal de matar ela. É diferente.

-Ah, você sabia? Por que não disse nada?

-Eu pensei que você sabia. Tá a semana toda passando isso na televisão.

Não, aparentemente, nos intervalos da novela – ou a mãe saberia. Ou ela sabia? Seria possível? Urbano desceu, e quando viu que estava passando o jornal, disse às pressas qualquer coisa sobre querer ver o jogo e mudou de canal, sob os protestos estridentes da Dona Martha Gontijo de Almeida.

A conversa com Inácio o havia deixado tão indignado quanto antes, mas ao mesmo tempo com a sensação de que estava sendo injusto por ficar indignado – que havia uma razoabilidade nos argumentos do Professor Killer-Couch, e que ele, Urbano, não havia entendido nada, julgando “com o coração e não com a cabeça”.

Essa foi exatamente a sensação que teve quando finalmente conheceu o Professor Killer-Couch, quatro meses depois, nos bastidores do estúdio paulistano em que os dois gravariam um debate. Inicialmente o Professor queria debater diretamente com “Doña Martha” – como ele disse, no telefone, para a própria, antes que Urbano arrancasse o aparelho das mãos maternais pintalgadas. Urbano havia se recusado, insistindo que a mãe não devia saber de nada, e se ofereceu para ir no lugar.

De modo que os dois se encontraram, numa manhã de chuva, num prédio feio e moderno perto da Marginal.

O Professor era muito alto, seus cabelos brancos mais amarelos e ensebados do que parecia nas fotos, e sorria tão timidamente que o Dr.Urbano, que veio disposto a briga, não soube o que fazer. Isso ficou pior quando Killer-Couch disse em inglês, com grande simplicidade, e se curvando todo lá de cima até a altura do otorrino paulista:

-Agradeço a sua presença. Deve ser difícil para você.

E bastou isso para o Dr.Urbano desfranzir o rosto e dizer, com um leve ar de míope razoável, “Ah sim, bastante.”

Pouco antes do debate começar, os dois ainda em pé nos bastidores, Urbano pediu um copo d’água para a mulher lá do programa e Killer-Couch deu uma corridinha, voltando com um copo pra ele.

-Obrigado – Urbano resmungou.

-De nada.

Os dois subiram num palco e sentaram em cadeiras brancas de plástico. Na platéia pessoas sentavam até nos corredores, garotas bonitinhas segurando o livro do Professor Killer-Couch com a Dona Martha na capa.

Havia uma foto bem grande da mamãe na parede do fundo.

Um moderador invisível, uma voz de imparcialidade sinistra, pediu que Urbano explicasse o motivo de achar que a mãe não devia ser morta. Monotonamente, Urbano recitou o texto que havia preparado contando a história da mãe, o campeonato de natação, o casamento, a lua-de-mel em Poços de Caldas, os três filhos, a viuvez, a novela, o centro espírita, o medo de trovão, a gota, a paixão por côco. Disse que a vida dela não era inútil e que ela era muito amada por três filhos, uma irmã diabética e um weimaraner chamado Coxinha. O texto acabava muito de repente e Urbano teve a certeza de que não havia conseguido dar o tom emocional que queria.

Quando chegou a vez de Killer-Couch, o Professor sorriu, pôs a mão no joelho do Dr.Urbano e falou:

-Deixe começar dizendo que se é por falta das famosas tortas de limão da sua mãe que você não quer que ela seja morta, há em Londres uma famosa doceria (risos da platéia), e eu ficaria contente em mandar quantas tortas você quisesse para a sua casa se você simplesmente deixar (pausa, mais risos da platéia), deixar, enfim, que a Doña Martha nos abandone.

O Dr.Urbano não quis que pensassem que não tinha senso esportivo, e riu também.

Ficando mais sério, Killer-Couch explicou os argumentos apresentados no livro. Disse também que pessoalmente não achava que a vida de Dona Martha fosse inútil, mas que esse ponto era irrelevante para a sua argumentação. Parecia tão lógico, tão razoável, tão educado, que Urbano começou a se sentir como um estraga-prazeres por estar lá contrariando todo mundo. Tinha certeza que as pessoas na platéia olhavam para ele com raiva dos seus preconceitos ridículos, do seu apego sentimental à sua mãe gordinha, catarrenta e noveleira. E Killer-Couch falava tão bem! Todos os argumentos que Urbano mencionava, e que havia escrito na palma da mão, Killer-Couch anulava com uma facilidade humilhante.

A frase da noite foi:

-É arcaico que existam leis para que o Estado proteja a vida de uma senhora de braços flácidos no bairro da Chácara Flora.

Todos riram muito disso.

-Mas e o direito à vida? – Urbano perguntou a certa altura, sem convicção nenhuma e se sentindo absurdo, burro, clichezento.

-O direito à vida, meu caro Urbano, é um jogo de palavras que significa apenas a campanha, mais ou menos explícita, por parte do Estado moderno, para acabar com o direito de terminar a vida.

Não conseguiram nem aplaudir de tão admirados – e longe dali, na Chácara Flora, Dona Martha lavando a garagem sentiu um arrepio sem saber por quê.

-Peço que retroceda no tempo e imagine uma época que uns dirão sem lei, que uns dirão se tratar do reinado do mais forte, – Killer-Couch continuou, – mas que digo que antes de tudo foi uma época de grande liberdade. Refiro-me à época anterior à criação do Estado. Antes dos reis, antes dos patrões, antes mesmo dos sábios. Pois bem, nessa época, se eu quisesse matar a sua mãe, não haveria Estado para retirar essa decisão dos meus ombros. Repito o que já disse no meu livro, o Estado não tem o direito de retirar essa decisão dos meus ombros. Essa decisão é minha – metafisicamente minha, abismalmente minha.

-Por que sua? – Urbano perguntou.

-Ah sim! Fico feliz que pergunte. É, na verdade, de todos nós. Sim, inclusive sua, meu caro. É também pelo seu direito que eu luto.

Houve um longo silêncio, e Urbano, lembrando da mãe, quase vendo a mãe na frente, achou que tinha que dizer alguma coisa. O quê, precisamente, não sabia. Os holofotes queimavam a sua careca com uma intensidade assustadora, mas na sua frente Killer-Couch parecia imune ao calor. Só nesse ponto Urbano percebeu que Killer-Couch estava usando sandálias de couro e tinha as unhas do pé muito compridas – e por mais que se esforçasse para voltar a pensar na mãe, não conseguia pensar em mais nada, e só conseguia ficar olhando aquelas unhas.

-Mas, mas, mas – apelou o Dr.Urbano, finalmente sem argumentos – Por que a mamãe?

-Me deixe devolver a pergunta – Killer-Couch disse, juntando as pontas dos longos dedos pálidos e abrindo um sorriso na verdade muito simpático – Por que não a mamãe?