Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

Mês: outubro, 2012

Trote

Quando criança tínhamos uma empregada que me instruía a passar trote perguntando se a pessoa não queria lamber o pirulito do Kojak. Eu não entendia o duplo sentido mas passava o trote mesmo assim, e a empregada ficava rindo na cozinha.

Eu ria também, porque achava engraçada a idéia das pessoas lamberem o pirulito babado do Kojak. As pessoas deviam ouvir a pergunta junto com a minha risada e me achar uma criança  imunda, um retrato destes tempos desgraçados. Diziam uns palavrões e batiam o telefone. Um ou outro dizia que ia chamar a polícia. Mas um dia uma mulher quis me doutrinar.

-Que coisa feia, uma criança tão bonita dizendo uma coisa tão horrorosa.

-Como é que você sabe que eu sou bonito, você nunca me viu – eu disse, mas ela me ignorou.

-Menino, você por acaso sabe do que você está falando?

-Sei.

-Do que é então?

Fiquei tão perplexo que demorei um tempo pra dizer:

-Do pirulito do Kojak, ué.

-Mas o que é o pirulito do Kojak?

Outra pausa perplexa:

-Hein?

-É o pingulim do homem.

Respirei como um retardado no telefone, tentando entender o rumo que o trote tinha tomado.

-Tem mulher que coloca o pintinho do homem dentro da boca – a mulher disse. – E é disso que você está falando.

-Não, pô.

Foi a vez da mulher suspirar.

-Tá bom, vai, fio. Vai lá brincar e não manda mais ninguém lamber o pirulito de ninguém, tá bom?

Desliguei o telefone e fui brincar, espantado com a depravação daquela mulher. Chutava a bola com força contra a parede do quintal e de vez em quando exclamava “Putz! Que mulher maluca!”.

Foi a primeira, mas obviamente não a última mulher maluca com quem falei na vida.

LUANA PIOVANI INTERPRETA VAGINA DE VIRGINIA WOOLF

Irreconhecível e desfigurada por um imenso clitóris no rosto, a atriz Luana Piovani começou hoje os ensaios da peça “Sete Pedras nos Bolsos da Alma”, sobre a vida da escritora inglesa Virginia Woolf. Na peça a atriz faz o papel da vagina de Woolf e se mantém amarrada o tempo todo na cintura de Ioneide Nunes, a atriz que faz o papel da escritora. “É um desafio tanto físico quanto interpretativo”, diz Luana. “Fico parada a maior parte da peça, mas tem uma hora que eu fico tipo pulsando.”

Durante a peça o ator Ricardo Corrêa, que faz o papel de pênis de Leonard Woolf, bate violentamente a cabeça contra o estômago de Luana, repetidas vezes, ao som da Sinfonia de Câmara n2 de Schoenberg. “Nessa hora eu me lubrifico, e toda a minha postura muda. Aprendi muito consultando a dona Suely Lacerda, que foi a vagina da Dama das Camélias nos velhos tempos do TBC. Ela me ensinou a usar a minha voz para indicar a lubrificação e a soltar uns guinchos. Inclusive ela me indicou uma leitura do Stravinsky, que disse que se uma vagina pudesse falar ela guincharia como um hamster com a patinha presa no ralo.” Quando a reportagem disse a Luana que ela provavelmente se referia a Stanislavsky, ela mascou chiclete e disse “whatever”. Em seguida negou o boato de que estaria saindo com Maurício Sanches, o ator que interpreta o testículo esquerdo de Leonard Woolf.

“Ele deixou a barba crescer para o papel e está horrível. Mas fico impressionada como ele conseguiu dar humanidade ao saco esquerdo do Leonard”, comentou a atriz paulistana radicada no Rio.