Meu Primeiro Emprego

Fico contente de ter sido convidado por um jornal tão importante quanto A Pompa de Guarulhos para contar no seu suplemento para adolescentes Buço & Tetinhas como foi a experiência do meu primeiro emprego.

Eu tinha dezessete anos e estava em Florença fazendo um curso técnico de design industrial. Estava lá fazia o quê, um mês, quando resolvi que ia procurar um emprego pra completar a mesada que o meu pai mandava do Brasil.

Isso foi dez anos atrás, quando a Galeria Uffizi resolveu que ia virar pizzaria. Daí me indicaram e fui trabalhar de entregador de pizza do museu (quem me indicou foi um garoto brasileiro que já tinha trabalhado como entregador de pizza no Tate Modern).

Era assim: eu entrava às oito da noite e ficava esperando com seis outros motoboys numa salinha ao lado da Sala Flamenga. Vinha o pedido: “Me vê aí uma meia Paolo Uccelo, meia Giotto aos quatro queijos”, digamos.

Um especialista em arte chamado Domenico, usando luvas de cirurgião, era o único que podia tirar o quadro da parede. Não me pergunte por qual motivo tinha que ser um especialista em arte, porque ele só tirava o quadro da parede, dava uns vinte passos e passava o quadro pro cozinheiro (devia ser coisa de sindicato).

O cozinheiro botava o quadro no forno, assava bem, tirava do forno, jogava pepperoni, punha orégano nas asinhas esturricadas dos anjinhos, umas cebolas nos olhos de um Doge, o que fosse. Fazia a pizza, uma mulher lá, a saudosa Dona Angenita, botava a pizza numa caixa de papelão, tirava a coca da geladeira, e lá ia eu na minha motinha.

Não reclamo, era gostoso atravessar Florença toda de moto. Até hoje o cheiro de mussarela, gorgonzola e Ghirlandaio quentinho me lembra da minha juventude.

Só tive um problema, que foi com aquele pessoal ativista lá que estava protestando contra o que eles consideravam um atentado à arte. Lembram que no início tinha uns protestos? Eles ficavam cercando o Uffizi o dia inteiro, tacavam ovo na gente quando a gente saía de moto. Como se a gente tivesse culpa…

Uma noite eu passei o cerco, estava já perto do Palazzo Pitti quando uma van me fechou o caminho. Eram dois ativistas e me mandaram dar a pizza pra eles.

-Não está certo – disse um deles, um cabeludo, – fazer pizza com o patrimônio da humanidade!

-E se for calzone? – eu perguntei, porque a que eu estava segurando era um calzone.

Ele ficou espantado com a pergunta e ficou pensando.

-Ah, se for calzone…

Mas o que estava do lado dele ficou bravo e mandou entregar a pizza, que eles iam levar a pizza pra um restaurador que ia raspar todo o queijo e tentar restaurar o que desse. Eu passei o Giorgione pelando pra eles. Quando eles estavam entrando na van eu falei:

-Vocês podem falar o que quiserem, mas é porque não provaram. Falar sem experimentar é coisa de ignorante.

Eles ficaram intrigados, daí abriram a caixa lá mesmo no banco da frente da van e experimentaram. Vou falar pra vocês, eles até arregalaram os olhos quando sentiram o gosto. E me deram pra experimentar também.

Lembro que era “A Prova de Moisés”, de 1505, com shitake. Por baixo do shitake ainda dava pra ver algumas árvores, e o Moisés bebezinho nos braços de um sujeito. Nunca gostei muito de Giorgione mas, rapaz, estava delicioso. As perninhas do Moisés estavam crocantes e com gostinho de alho e o penacho de uma figura que estava no fundo tinha gosto de zucchini.

Comemos tudo, não sobraram nem as molduras. Daí eles fizeram cara de culpados e foram embora sem dizer um noli me tangere.

Pessoal se espanta, né, não gosta da idéia. Mas daí você bota um Rembrandt na boca e vê que é bom. Rembrandt parece bacon, mas é melhor. Não sei explicar.

Trabalhei dez meses de entregador na Itália. Foi uma experiência bacana. Voltei pro Brasil no ano seguinte e comecei a trabalhar em outra área (computadores). Constituí família, estou feliz.

Agora parece que o Masp virou pizzaria também, e já estão todos dizendo que a pizza brasileira é melhor que a italiana. Mas não sei, comi um Portinari com anchova outro dia e não era a mesma coisa.

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