A História Secreta do Futebol no Brasil



A HISTÓRIA SECRETA DO FUTEBOL NO BRASIL,

ou

FUTEBOL PARA CAVALHEIROS



(uma história do Vovô Aguiar)
(Aguiar Paranhos de Mourão Filho)
(não o outro Vovô Aguiar,
que é um FINNOCHIO)




Vocês ouviram muitas vezes, meus netos com suas carinhas cobertas de leite e paçoca, que o futebol foi trazido ao Brasil por Charles Miller em 1894. Charles Miller, diz a história, era um rapaz brasileiro magrelo e sonhoso que frequentou uma escola inglesa chamada Banister Court. Lá o valoroso “sportsman” aprendeu futebol, rugby e críquete. Quando voltou, trouxe duas bolas de futebol na sua mala, tão pouco gloriosas que nem mereceram um nome, coitadas, entrando tão anônimas quanto as outras duas que o menino trazia aconchegadas nas ceroulas; e mesmo assim o futebol logo se espalhou pelo país e virou a nova paixão nacional, superando até o herpes genital e a Doença de Chagas.

Isso é o que vocês ouviram. Porém, que sabe a história? Que sabe a história, Marcos, Túlio, Elisa e minha neta menos preferida? Chutemos o livro de história para a vala aberta. Chutemos especificamente este livro aqui, “História do Futebol no Brasil”, de Moacyr Prunella, figura odiosa e enganada da vida. Chute este livro, Marcos, com toda a força de quem cansou de ser enganado! Porque vocês foram enganados, meus pequenos, pela tevê e pelos jornais, e por várias gerações de educadores mendazes e esquerdolecas. Agora, depois dum pinguinho desta cachaça com mel, contarei a redolente verdade.

Em Banister Court o senhorito Charles Miller jogava por um time chamado St Mary YMA, hoje conhecido como Southampton F.C. Jogava nem bem nem mal. Friso ainda, não jogava mal; a julgar pelas fotos era cantinflas de tudo, mas não jogava mal; ou talvez os outros é que jogassem tão mal quanto ele – não sei -; o fato é que não se destacava de um jeito ou de outro. Isso tudo é sabido e está no livro aí que você chutou pra debaixo da estante, Marcos. Agora o que o livro não diz – mas que pipoque a verdade toda, que de uma vez só a verdade pipoque e popupe, tenho a permissão dos meus camaradas d’armas para contar tudo – o que o livro não diz é que dois anos antes de Miller um outro paulista estudou em Banister Court, e também jogou pelo St Mary YMA. O nome desse paulista era Jaquinzinho “Dôndi” Albuquerque de Flecha Cabral, o verdadeiro fundador do futebol brasileiro.

Agora reparem nisto, que à diferença de Miller, que era um bom rapaz do Brás, nem cavalheiro nem descavalheiro, Jaquinzinho era sim um bruta cavalheiro. Ao nascer, no lugar de ser envolvido em toalhas como qualquer bebê normal, havia sido envolvido em cavalheirice pura. Já em casa só conseguia mamar no peito da babá mineira e aureoluda depois de tirar seu chapeuzinho, o que era lindo de ver, e como agradecimento sempre deixava à mulher uma moedinha feita do seu próprio mecônio.

Só sei que ao chegar em Banister Court viu-se logo que o rapazinho da Aclimação era mais milorde que um milorde. Naquele ano quem estava lá, e o viu, ficou abestalhado. Só não foi uma humilhação completa para os outros porque Jaquinzinho era cavalheiro demais para humilhar uma joaninha que fosse, e tratou logo de baixar a intensidade da sua gentlemanliness para não ofuscar a dos outros. Vocês entendem? Percebem a exensão disso? Era tão cavalheiro que cometeu rudezas para não humilhar ninguém! Bem que tentava ser vulgar. Numa bookstall na estação de Southampton chegou a ser visto comprando um livro de anedotas de sogras. Em vão! A verdade é que perto dele os earls e os vinscounts todos pareciam presidiários brasileiros queimando colchões e traficando drogas nos respectivos ânuses. E eles mesmos percebiam isso. Eis a força do nosso Jaquinzinho Dôndi!

No rugby e no críquete, era um atleta elegante e formidável. Esguio e forte, corria pelo campo de rugby com a cabeça erguida, como uma gazela fugindo dos predadores nas savanas do Serengueti (porém uma gazela heterossexual). No críquete também não era nenhum dibbly-dobbly, e logo virou Capitão dos Onze.

Um dia foi convidado para jogar futebol pelo St Mary YMC. Leu as regras do esporte na noite da véspera da partida, traduzindo tudo mentalmente para o grego homérico – de tão milorde, não, perdão, bimilorde, trimilorde, polimilorde que era. De manhãzinha Jaquinzinho vestiu o uniforme do time e lá se foi ele para o campo, que na verdade era o campo de críquete adaptado às pressas com pedrinhas para marcar as balizas e os corners.

O sol nasceu.

Agora quero que visualizem Jaquinzinho na posição de centre forward esperando pelo apito do juiz. O primeiro brasileiro num campo de futebol! E era um príncipe e um superhomem! Os jogadores terminam de alongar as quarenta e quatro pernas e os quarenta e três braços (havia um aleijadim).

O juiz apita! Jaquinzinho corre sem pressa para o campo adversário, acompanhando a evolução do jogo. Que elegância, meu Deus! Juiz e adversário estão prontos a lhe dar a vitória só pela elegância com que Jaquinzinho corre.

De longe ainda, Jaquinzinho olha a bola de futebol com curiosidade, porque é a primeira vez que vê uma. Agora quero que visualizem a bola. Naquela época as bolas de futebol eram diferentes, muito mais bonitas e menos chegueis. Eram feitas de couro de crianças indianas (principalmente crianças brâmanes cujo couro era mais agradável ao toque que a das crianças intocáveis, como todos os pederastas ingleses bem sabiam).

Finalmente um midfielder passa a bola para Jaquinzinho. A bola vem rolando hinduista e linda para os pés do brasileiro, que mal tem que reduzir o passo da corrida para interceptá-la. E ela está ainda a dez metros do brasileiro quando de repente, que acontece? Que faz Jaquinzinho? Num espasmo grotesco, Jaquinzinho chuta o ar com o pé direito. Seu cabelo até estremece na cabeça com a força do movimento e logo uma ameba de brilhantina verde-transparente salta da sua cabeça e cambalhota liricamente no ar.

Que que foi isso? O choque e a incompreensão daqueles ingleses são tremendos. Jaquinzinho percebe o erro e tenta chutar de novo, mas a bola já está passando pelas suas costas, nem esbarra no seu calcanhar que retrocede para o novo chute. E a bola vai continuar o jogo nos pés de outros atletas.

-Por que você fez isso? – perguntou surpreso um dos companheiros de time.
-Me descoordinei, old boy – foi a resposta humilde.

O St Mary YMC acabou ganhando aquela partida contra a Milbrok School por quatro a um; porém sem participação alguma de Jaquinzinho. O qual nunca mais foi convidado a jogar pelo time.

Agora: pode-se dizer, como muitos dizem, que Jaquinzinho “Dôndi” Albuquerque de Flecha Cabral jamais tocou numa bola de futebol? Não, e por dois motivos. Primeiro, Jaquinzinho às vezes pegava a bola com as mãos quando ela rolava até os espectadores do lado de fora do campo. Então tem isso. Como nunca tocou numa bola? Tocou sim.

Segundo, mesmo com o pé Jaquinzinho há de ter esbarrado na bola alguma vez, porque seu “fag”, i.e. o escolar mais jovencito que lhe servia de criado, Jonathan Spencer-Spencer, punha às vezes a bola de futebol no joelho de Jaquinzinho, quando ele estava sentado num sofá lendo Catulo, e dizia com sua vozinha de sodomita e futuro político trabalhista: “Fica calmo, não mexe, vamos ver”. E soltava a bola. Se Jaquinzinho deixava a perna inerte, às vezes acontecia da bola correr pela sua canela e fazer um contato breve com o seu pé.

Mas que seja. Era natural que esse sportsman mimado de aplausos passasse alguns dias acabrunhado com o seu primeiro falhanço atlético. Durante semanas Jaquinzinho rondou o campo de futebol como um triste fantasma perna-de-pau. Que grande mistério que um homem tão fino pudesse ser tão grosso! Às vezes, no café da manhã, ganhava coragem e tentava fazer uma embaixadinha com um muffin, mas tudo que conseguia era chutar cruelmente o scott-terrier de Spencer-Spencer, ou a garganta de alguma visita que calhava de estar ali.

Um dia andava Jaquinzinho pelo quadrângulo da escola pensando na sua desgraça futebolística quando um grupo de jovens marqueses e um ou dois duques fez silêncio à sua aproximação. Um deles, o delicado punheteiro Christopher Nevill, sexto marquês de Abergavenny, limpou a garganta e disse:

-Eu digo! Jaquinzinho (pronunciavam Jackeem-zeem), estávamos nos perguntando se você não gostaria de passar nos aposentos de Beaufort para chá com torradas. Três da tarde.
-Com prazer, velho camarada.

Cerca de vinte pessoas riam e comiam scones na salinha de Beaufort (que mais tarde seria o primeiro alpinista a subir o Aconcágua recitando Juvenal). Fizeram um silêncio respeitoso quando o brasileiro entrou. Eram todos aristocratas, e ainda mais que aristocratas eram todos gentlemen-scholars. Jaquinzinho notou que nenhum deles jogava futebol no St Mary YMC, nem em nenhum dos outros times locais, embora alguns (como o próprio Beaufort) fossem excelentes atletas em outros esportes.

Fizeram o brasileiro ficar à vontade, deram-lhe chá e polvilhos, mas era claro que se impacientavam para dizer alguma coisa. Jaquinzinho esperou calmamente, mastigando polvilhos com todo o brio de um verdadeiro paulista. Por fim o Visconde de Beaufort disse:

-Velho feijão, queremos convidá-lo para fazer parte da nossa liga secreta de futebol.
-Falta apenas um homem para que completemos dois times – disse o Marquês de Trebuchon, que apesar de ser francês também era um cavalheiro.

Jaquinzinho ficou surpreso.

-Seria uma honra – disse – Mas, amigos… vocês me viram jogar futebol?

Os meninos se entreolharam.

-É justamente porque o vimos que decidimos convidá-lo, Jackeem-zeem.
-Espetacular descoordenação das pernas! – disse Lucien Farquhart, que aos quinze anos já era um espião internacional, e estava tão à frente do seu tempo que vendia segredos para a União Soviética numa época em que a União Soviética ainda nem existia.
-Temo não estar entendendo…

O Visconde de Beaufort riu e disse:

-É claro. Perdão. Permita que eu explique. – Ele fez uma pausa enquanto passava manteiga num scone. – Nenhum cavalheiro tem coordenação alguma abaixo da cintura, Jackeemzeem. Nossos pais têm tão pouco ritmo abaixo da cintura que frequentemente quebram a pélvis de nossas mães durante o ato da procriação.

O pequeno Laird de Glainmora confessou baixinho:

-Elas acabam preferindo copular com jardineiros e tipos assim.
-Entendo – disse o nosso J. – Mas pra que jogar esse jogo se nós… se nós jogamos tão… – desculpem! – se nós jogamos tão mal?

Mais uma vez os entojados meninos se entreolharam.

-Nós não consideramos isso jogar mal – disse o Conde de Meraviglia com orgulho – Nós consideramos isso jogar bem.

Beaufort bateu com o cachimbo na mesa e completou:

-Jogamos apenas entre nós. Em segredo. E jogamos num sistema de “quem perde, ganha”.
-Vocês perdem de propósito?
-Isso é que não. Damos o máximo de nós mesmos. É um ponto de honra que temos de nos esforçar para ganhar – isto é, nos esforçamos honestamente para fazer um gol no adversário – o que equivale, nas nossas regras, a perder. Por dentro rezamos para errar o gol, entenda, ou pelo menos para que o “goalkeeper” cubra a baliza com competência miraculosa. Mas fazemos o possível para marcar o gol – o que felizmente nós, sendo cavallheiros, raramente conseguimos.
-A maior parte das partidas é decidida por gols contra – disse o Conde de Meraviglia – O que fazemos sem querer, porém com secreto êxtase. O gol contra tem, assim, a beleza de uma vitória acidental, o que em termos estéticos é algo que o futebol normal jamais vai conseguir superar. Ou sequer chegar perto.

Estavam emocionados só de falar no esporte que haviam criado e que praticavam em segredo. Um se levantou:

-Senhores! Um brinde à extraordinária beleza do futebol para cavelheiros!

Todos se levantaram, Jaquinzinho antes de todos, já emocionado diante da perspectiva de jogar o esporte da maneira que (percebia agora) ele devia ser jogado.

-Um brinde, por Júpiter! – bradou.

Acabou se juntando ao Lupercal Club, o time do Laird de Glainmora. E lá jogou com desjuntado garbo durante dois anos, nos quais fez oito gols contra e só um a favor, um chute fraquito fraquito de tudo meu Deus que Jaquinzinho deu só porque a honestidade o impelia, e que entrou na rede porque o beque, o Sexto Lorde de Carnaevon, tentou desviar a bola com um chute e só conseguiu arrancar uma formiguinha que vinha grudada nela.

De modo que foi uma grande campanha. Até hoje nos círculos do futebol inglês para cavalheiros (“True Football”, “Secret Football”, “Divine Footbal” etc) celebram Jaquinzinho Dôndi como uma lenda viva: um Beckenbauer da grossura, um Neeskens do chute pra fora, um Puskàs do passe falhado: nosso mais angélico Perna-de-Pau.




A ERA DE JAQUINZINHO DÔNDI (1892-1911)

Dôndi, não Miller, trouxe o futebol ao Brasil; e isso dois anos antes do outro; mas secretamente, só para cavalheiros. De modo que o Brasil mesmo nunca soube disso.

É verdade que foi quase impossível encontrar 22 cavalheiros por aqui. O próprio Dôndi relata isso nas suas memórias, “Lindo Dia para Uma Derrota, Companheiros!”, na pg.35. Vou ler pra vocês, Cecília traga meus óculos. Pois bem:

“Para saber se uma pessoa seria boa candidata a jogador do Futebol Secreto, costumava aplicar um teste: durante uma conversa casual com o fulano, mandava que um negrinho chamado Leôncio, ao longe, deixasse uma bola correr na direção dos pés da pessoa, como que por acidente. Se a pessoa entrasse em pânico e saísse correndo (a mais promissora das atitudes), ou tentasse devolver a bola com um chute mas errasse monstruosamente, ou ignorasse a bola e a deixasse bater nas canelas inermes sem pestanejar, ou ainda se apanhasse a bola com as mãos, recebia uma nota positiva no meu caderninho, e seria submetida depois a outros testes. Mas a verdade é que tôdo brasileiro que encontrava naquela época, por mais que fosse de rica ou rara família, caracterizava-se por uma asquerosa habilidade dos membros inferiores, e logo começava a fazer malabarismos de várias espécies, fazendo a bola saltitar nos pés mesmo sem jamais ter visto uma “football” antes. Nesse ponto eu tirava o chapéu e interrompia a entrevista cordialmente, abandonando o palco desse repugnante espetáculo.”

Durante todo o ano de 1892 Dôndi viajou o país inteiro à cata de cavalheiros, os quais ia encontrando com muita dificuldade, aqui e ali, em cafés, paquetes, sanatórios, liceus, mosteiros e até mesmo nos famosos lupanares para gagos do Rio de Janeiro. Só em 1894 conseguiu formar dois times: o paulista “Prinsterer F.C.”, primeiro time brasileiro, e o carioca “Des Esseintes”. Em 1893 Dôndi foi eleito presidente da Federação Brasileira de Futebol Secreto. Em 1894 ele criou a Seleção Brasileira de Futebol Secreto, juntando os piorzinhos do Prinsterer e do Des Esseintes. Em 1895 a seleção jogou na primeira Copa do Mundo de Futebol para Cavalheiros, disputada secretamente num galpão em Londres, e felizmente a seleção se saiu pessimamente, saindo logo no primeiro turno e ganhando a copa.

Foi o início da carreira gloriosa dos brasileiros nas Copas Secretas: durante os vinte primeiros anos, a seleção brasileira conseguiu não marcar nenhum gol. É dessa época que data o apelido dado à nossa esquadra, O Gigante que Tropeça (mais tarde, Canarinho Bêbado).

Infelizmente os planos de Dôndi de formar mais que dois times nacionais nunca vingaram, porque nunca o Brasil teve mais que 22 cavalheiros; e em algumas épocas teve bem menos.



A ERA DE OLAVITO ROCHEFORT (1911-1945)

Olavito Rochefort foi o maior jogador de futebol para cavalheiros, do Brasil e do mundo. Ombros largos, bronzeado, Olavito era um playboy internacional com espasmos incontroláveis nas pernas causados por um problema neurológico de nascença. Chegou a perder gols quando a bola estava a dois centímetros da linha do gol, tendo honestamente tentado fazê-los, e nessa posição pelo menos uma vez quebrou a perna ao chutar o ar violentamente, como faria um senhor bastante fora de forma que decidisse, durante um churrasco em família, matar uma vespa com um chute. Olavito dominou o esporte sem jamais ter tocado na bola, e uma vez aposentado foi técnico da seleção nas Copas Secretas de 32, 36, 40 e 44 (o Brasil perdeu todas, levando as taças).

É da época de Olavito que a mais bela jogada do futebol secreto aconteceu, mas com outro jogador, o ponta esquerda Ferdinando “Tutty” Menino Galvão, quando Olavito e Tutty jogavam lado a lado pelo Prinsterer. Numa partida contra o Guermantes, um time francês de futebol secreto, Tutty foi cobrar uma falta alguns metros para dentro do campo adversário. Depois de correr vinte metros na direção da bola para ganhar força no chute, Tutty chutou a bola com toda força na direção do gol adversário; mas, não se sabe como, a bola ao sair do seu pé foi propulsionada violentamente para trás, não para a frente, entrando no gol do Prinsterer. Físicos e estudiosos do jogo tentaram reproduzir esse desastrado chute dezenas de vezes, mas ninguém consegue produzir um efeito sequer similar.



A ERA DE LEOPOLDINHO BRAGANÇA NUNES (1945-1988)

Até hoje o futebol secreto brasileiro é marcado por Leopoldinho “Dotty” Bragança, esse enorme, genial, péssimo jogador de Petrópolis. Começou como centroavante no Prinsterer e na seleção; errou os passes mais extraordinários (dizem que toda bola que chutava, mesmo sem força, ia acabar se chocando violentamente no pênis do jogador mais próximo) e nunca conseguiu cobrar um escanteio para dentro do campo. Uma vez aposentado, foi técnico da seleção, dirigente e presidente da Associação Mundial de Futebol Secreto, onde tem uma atuação polêmica por causa dos problemas de bem-versação dos fundos (todos os cartolas do futebol secreto são tão cavalheiros que roubam ao contrário, isto é, colocam às escondidas dinheiro deles mesmos nos cofres da Associação, o que às vezes causa problemas graves de controle de contabilidade.)

Ainda é uma figura popular nas transmissões televisivas secretas de futebol para cavalheiros.



CRISE (1988-dias de hoje)

Sim, crianças, o futebol para cavalheiros existe até hoje. Eu mesmo joguei muito, joguei muitíssimo, até perto dos trinta anos, quando comecei a desenvolver alguma habilidade nas pernas e tive que me aposentar (um problema comum dos jogadores cavalheiros mais veteranos).

Talvez vocês tenham visto, em dias de jogo, uma figura tímida sair à janela de algum apartamento aqui na cidade? Aqui nesse prédio mesmo, três andares abaixo? Se viram, certamente não ouviram o que ele gritou, porque cavalheiros não gritam. Essa figura – um rapaz careca torcedor do Des Esseintes F.C. – para junto à janela, tosse seco para timidamente chamar a atenção do mundo, e diz qualquer coisa como “É uma honra jogar com vocês, Printerers, se me perdoam a franqueza!”, ou “Não deixemos que a paixão do jogo nos exalte demais, meus amigos! Cordialidade acima de tudo!”. É lindo ver vários torcedores dum time de futebol para cavalheiros – nunca tem mais de vinte ou trinta nas arquibancadas dada a escassez de mandarinice na alma do brasileiro – cantando “Áveis, áveis, áveis! Vocês são formidáveis!” para o time adversário. E é às vezes normal ver cenas de violência também: os chamados “auto-hooligans”, que batem em si mesmos se por acaso, depois de um exame demorado de consciência, acham que exageraram na veemência com que torceram para o próprio time. Batem-se em si mesmos com socos ingleses, gemendo baixinho para não incomodar ninguém. Às vezes é triste de ver!

Porém agora chegamos na fase realmente triste desta história. Se antes reclamávamos que só haviam uns trinta brasileiros que eram cavalheiros, formando no máximo dois times, lá nos anos oitenta é que a coisa começou a ficar preta: de repente não se encontravam nem vinte brasileiros que soubessem pegar nos talheres e que lavassem atrás da orelha. Em 88, com a aposentadoria de gigantes do futebol ruim como o sorocabano Julico Schönberg-Cotta Rattenau e o mineiro supertímido e batuta Conde Nataniel “Tito” de Solange e Albuquerque, pela primeira vez não conseguimos formar mais do que um único time!

Só sobrou o Prinsterer. Eles tinham que se dividir em dois times de cinco pra jogar. Mas não dá pra jogar futebol de cavalheiros com dois times de cinco. É sempre zero a zero, muito chato. Quanto mais jogador em campo, maior a chance da bola bater em alguém e ir parar no gol sem querer. Desde os anos 90 não se marca um gol sequer no futebol secreto brasileiro. Quer dizer, uma vez no estádio secreto de Higienópolis um gandula devolveu a bola e ninguém conseguiu interromper a lerda trajetória da bola até que ela entrou no gol. Tropeçavam, esbarravam uns nos outros, torciam os tornozelos. Mas esse gol não chegou a valer, claro.

Foi quando o Leopoldinho “Dotty” Bragança, na época comentarista secreto do futebol secreto – a narração vinha pelo rádio amador, em grego ático pra ninguém de fora entender nada – sugeriu, durante o intervalo de um jogo desenxabido do Prinsterer contra si mesmo, aquilo que poderia ser a salvação do Futebol para Cavalheiros no Brasil. Coisa de gênio. Que foi esta aqui. O Dotty propôs o seguinte:

-Sugiro que podíamos fazer uma coisa – ele disse lá em grego ático na mais linda inflexão dos paulistas secretos – que lhes parecerá drástica. Porém, ouçam-me, amigos. Poderíamos dissolver a liga de Futebol para Cavalheiros, já que sequer temos dois times. Mas calma, não seria o fim do esporte. Por quê? Porque, sem dizer nada ao mundo, o Prinsterer se registraria como time de futebol comum, e disputaria os campeonatos normais do futebol brasileiro. (pausa) Senhores, seria uma solução para todos: os times de futebol normal venceriam pelas regras deles, e ficariam contentes; o Prinsterer venceria secretamente, pelas regras nossas – e nós ficaríamos contentes.

Pois a idéia pegou. O Prinsterer se registrou como time oficial agora no início do ano passado. Não causou alarde porque todo mundo achou, corretamente, que era só um timinho ruim. Bom, pelas regras do futebol normal era mesmo! E assim sem moral nenhuma o Prinsterer estreiou no Campeonato Brasileiro no final do ano passado.

E, senhores – quer dizer, meus netos – o inaudito inesperado aconteceu. Como contar isso? O Prinsterer começou a ganhar!

Talvez porque fosse uma das piores escalações do Prinsterer de todos os tempos – gente com uma triste habilidade com a bola. E isso ao mesmo tempo coincidindo com a decadência do futebol normal brasileiro. Pois, meus netos senhores, o Prinsterer foi subindo catastroficamente de divisão em divisão, como um homem tão desajeitado que tropeçasse escada acima até cair alquebrantado na própria cama. Até que finalmente, no ano passado, o Prinsterer jogou a final do Campeonato Brasileiro contra o Corinthians.

Vocês viram o jogo. Talvez menos o Lúcio que é efeminado, mas os outros viram. Vocês sabem o que aconteceu. A expectativa. O nervosismo. Os gogós que tremulavam como dezenas de bandeiras ao vento. O espanto e a hilariedade dos jogadores do time alvinegro ao verem cavalheiros pela primeira vez.

Ninguém no grande Brasil exotérico sabia o que esperar dali. O Prinsterer tinha ganhado alguma notoriedade porque os seus jogadores se lamentavam quando marcavam um gol, e comemoravam quando levavam um. (Mas nem comemoravam muito, porque cavalheiros não comemoram muito coisa nenhuma. É sabida a história de quando o Jaquinzinho Dôndi, já velhinho, recebeu a notícia de que o seu câncer tinha entrado em remissão. Sua única mudança de expressão foi que uma das suas maçudas sobrancelhas saltou para cima cerca de um centímetro, num espasminho, e logo voltou ao lugar. E Dôndi, envergonhado, disse aos médicos: “Peço perdão pelo movimento frenético da minha sobrancelha, mas acredito que fiquei feliz.”)

De modo que ninguém sabia o que esperar, mas o bom senso dizia claramente quem ia ganhar a partida. Nas arquibancadas Corinthianos se congratulavam quais parolos, soltando canções de triunfo com os próprios gases intestinais; e os Prinsterers se congratulavam quase invisivelmente, sorrindo com os olhos. Ambos achavam que iam ganhar segundo as suas próprias regras; era como se, numa gigantesca cama de grama no final de um verão idílico, um sádico e um masoquista se encontrassem para algumas horas de amor.

E o juiz apitou, e a bola rolou.

Durante muito tempo, nada aconteceu. O Corinthians ficou com a posse da bola durante noventa minutos de jogo, sem fazer nada de decisivo.

Nisso senão quando.

Faltavam dois minutos pro fim da partida quando um Corinthiano foi passar a bola pra outro e errou. Chutou na direção do pé de Viana Simpson Marechal, o lateral esquerdo do Prinsterer.

Viana vinha correndo, pensando no Paraiso Perdido de Milton que ele vinha traduzindo por hobby, e diz ele que nunca chutou a bola de propósito, a perna só estava indo pra frente, coitada – estava cumprindo o papel lá dela de perna correndo. Mas o pé bateu na bola, que foi na direção do gol e, ó meus netos, entrou (o goleiro sendo um dos piores da história desse time inurbano e pelamingas).

Vocês lembram né da foto que foi tirada no segundo imediato ao gol: não onze, mas vinte e dois jogadores em desespero. Vinte e dois jogadores levando as mãos simultaneamente à cabeça. Ninguém entendeu direito aquela foto. Vivem passando esse momento em câmera lenta na tevê. Acham que os Prinsterers lamentaram a vitória porque tinha aceitado suborno pra perder. Os Prinsterers! Homens que só aceitariam um suborno se ele fosse pago em moedas feitas de HONRA!

Não, eu estou aqui contando pra vocês o que aconteceu de verdade. Os jogadores do Corinthians lamentaram porque sabiam que a crise, não só do time, mas do futebol brasileiro como um todo era tanta, que aquele era o fim do esporte no país. E foi mesmo. Acabou o futebol. E os Prinsterers se lamentaram porque também sabiam que aquele era o fim do futebol de cavalheiros no Brasil. E foi mesmo…

Desde dezembro ninguém joga mais bola no país. Em lojas de esportes, em prateleiras de garagens, debaixo das camas de garotos, todas as bolas de futebol do país estão esquecidas, imóveis e murchas.

Mas não façam essas carinhas. Nossa, meninos, estou me sentindo mal até, contando a vocês sobre a existência do mais nobre esporte que já houve, só para terminar dizendo que ele acabou acabado e kaput! Talvez vocês preferissem nem ficar sabendo que ele já existiu. Que coisa gloriosa, que dança cósmica do destrambelhamento foi o futebol para cavalheiros no seu auge! Que semideuses andaram pela Terra, com suas musculosas pernas descoordenadas! Dôndi! Dotty! Carvalhal! Às vezes se descoordenavam andando, e tentavam dar dois passos seguidos com uma mesma perna antes de dar a vez à outra. Não se vê mais gente assim, meus netos. Acabou.

-Mas vô, disse Elisa, a neta com micose nos lábios, mas vô vem cá, vô diz uma coisa, vô tem uma coisa que eu não entendi. Se os jogadores brasileiros de futebol normal tão jogando mal, eles não podiam jogar nas copas do futebol pra cavalheiros lá fora, e sei lá, ganhar tudo?

Não, não, Elisa. Impossível. Embora eles de fato joguem muito mal agora, pior até que cavalheiros – e eu nem sei pra que servem as classes baixas se elas nem conseguem jogar futebol melhor que as classes altas. É verdade, se eles fossem inscritos nos campeonatos internacionais de futebol secreto, eles de tão ruins perderiam para os piores times europeus de futebol secreto e levariam sem dúvida a taça. Porém: não são cavalheiros! Sabendo que basta jogar pior que o adversário pra ganhar, eles jogariam mal de propósito, o que é inteiramente contrário ao espírito do jogo. Compreendem?

Os cavalheiros do Brasil poderiam, esses sim, jogar abertamente nas ligas de futebol normal, e aceitando intimamente as regras do futebol normal – já que sempre se esforçaram para jogar bem, só não conseguiam mesmo. Como agora estão em decadência, jogam bem, e talvez ganhassem de todo mundo. Mas pobres aristos, não suportariam o ambiente rústico do futebol normal. Desmontariam à primeira visão da torcida brasileira assoprando vuvuzelas e batucando nos próprios bócios.



O FUTURO QUE NOS AGUARDA, LENDO CORNEILLE

Não, foi o fim dos futebóis. Alguns dizem que pra sempre – mas eu faço parte dos otimistas, Elisa. Uma nova geração de pernas-de-pau há de surgir.

Numa manhã de neblina, montados em cavalos brancos como Dom Sebastião (talvez Dom Sebastião o próprio entre eles!), os jogadores cavalheirescos voltarão. Descerão das suas montarias, e sorrirão galantemente. E, num campo improvisado nas planícies da zona cafeeira, chutarão o ar, chutarão cupinzeiros, chutarão formigueiros; e quebrarão as próprias pernas em movimentos espasmódicos na brisa, enquanto a bola no centro do campo tira um cochilo sossegado e feliz.






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