Os Nixons do Mar

Musa, Alto Gênio, ajudem a cantar agora o que quer que seja de diferente desta gente zote e mondonga que vejo pela janela. Das criaturas fabulosas que ainda vivem no mar, permitam que desenhe um esboço dos lendários Nixons aquáticos, que empesteiam as águas do Golfo de Salerno no Mar Tirreno.

Chamam-se Nixons porque da cintura para cima quis Netuno que se parecessem com Richard Nixon no primeiro debate presidencial com John Kennedy em 1960: pois a camada externa da pele destes monstros parece um paletó cinza, os pelos do peito se assemelham a uma gravata vermelha, e no topo da cabeça levam o mesmo cabelo curtinho e as leves entradas do falecido presidente americano. O rosto é torpe e malbarbeado, o nariz curvo e pontudo. Da cintura para baixo têm o corpo de um peixe, delicioso aliás, iscas de nixons sendo um dos pratos mais conhecidos da cozinha salerninha (ref. a Salerno).

Em vários penedos do Golfo os Nixons passam os dias tomando sol, e de lá olham cheios de uma desconfiança estúpida para os marinheiros dos navios que passam. Tentam, coitados, os Nixons, cantar para atrair os marinheiros borda afora, para a morte no mar ou o estatelamento nas rochas, mas a sua aparência é tão pouco convidativa, ali deitados no musgo com visível dor nas costas, os ternos encharcados, a gravata malajambrada, que nenhum marinheiro jamais se sentiu minimamente tentado pelo canto dos Nixons, nem nenhum navio jamais se desviou um metro que fosse na direção de tanta falta de charme.

Ainda se cantassem bem; mas não, e entremeiam as suas canções pacóvias com frases embaraçadas como “Ah, uh, venha aqui, ah, uh, marinheiro”, ou ainda “Pode não parecer mas acredito que seria, ah, qual a palavra, vantajoso para você pular pra fora da, uh, amurada do navio neste momento”.

Dos Nixons do mar tudo que os marinheiros dizem de bom é que pelo menos não são comunistas, o que é verdade.

E agora aproximem-se que pretendo lhes contar de duas outras criaturas fabulosas, os gnomos racistas e os Milks, criaturas que não são do mar, mas respectivamente dos bosques e das cidades. E lhes contarei, de fato, se a Musa e a Tequila sustentarem a inspiração.

Os gnomos racistas são isto que o nome diz. São encontrados em grandes quantidades nos bosques de juníperos da Germânia. Vestem mantos e capuzinhos brancos com furinhos para os olhos e correm pelo chão da floresta a praguejar contra negros. Que negros isto, que negros aquilo. Chegam a ser um pouco chatos com o assunto. Quando indagados, se dizem não racistas mas racialistas, e explicam a diferença com enorme monotonia.

É triste dizer mas quando negros dormem nas florestas de juníperos da Germânia, muitas vezes acordam berrando de dor porque os gnomos racistas acenderam fósforos nas solas dos seus pés. Dão nós nos rabos das vacas pretas, e odeiam tudo que tem a cor negra, inclusive as próprias sobrancelhas, que raspam ou tingem de azul. Têm cerca de um pé de altura e são frequentemente vistos cavalgando gatos pela floresta ao som da Cavalgada das Valquírias, que eles mesmo cantam com suas vozes fininhas e empolgadas.

São no fundo excelentes pessoas (ou excelentes gnomos). Vá você pedir ajuda aos gnomos racistas, e eles lhe darão as botinhas dos pés e o último centavo dos seus bolsinhos sem pensar duas vezes (exceto claro se você for negro. Mas para quê ser negro?).

Por fim lhes falo (mas se são suscetíveis ao medo adiem a leitura para o dia, não agora às duas da manhã quando a geladeira lança sombras de pesadelo nas paredes do seu corredor à distância) do último monstro que a mitologia política americana lançou sobre o mundo: o Milk.

O Milk, assombração homossexual que aparece em banheiros, exigindo coisas e rodopiando com a mão coberta de esperma para respingar nas pessoas! Não só em banheiros: fazendo discursos progressistas sinistros em sótãos e vãos de escada, ou mesmo no quarto de crianças: quantas já não interromperam festas em que eu estava, saindo dos seus quartos escuros, de pijama, chorando a dizer que tinham visto “o Milk”? “Eu vi o Milk”, “O Milk tá no banheiro”, etc – e os pais iam confirmar e lá estava de fato o Milk no box do banheiro, em pé, furioso e bigodudo.

É um fantasma politizado, e como todos os fantasmas politizados do mundo, não há ninguém que ele odeie tanto quanto os apolíticos, sejam eles crianças, fetos, filatelistas limítrofes, ou mesmo ursos polares. É sobretudo para todos esses que o Milk aparece.

Segundo o folclorista Sir Edwin Câmara Cascudo, em várias regiões de Minas há uma cantiga tradicional para afastar o Milk, que diz assim:

Milk, Milk, vai embora,

Cê tá aqui faz mais de hora,

Sobe as calça e vai embora,

Milk, Milk, sem demora!

A isto se diz que o Milk fica vexado e se vai, atravessando a parede, mas muitas vezes voltando para mostrar o dedo do meio e depois sumir de novo na grande noite alarve, na grande noite mundiça e sodomita.

Nixons marinhos, gnomos racistas, o Milk: de tais criaturas fabulosas é formado o mundo sublunar em que vivemos. De modo que não entendo que se cante sobre gente mais pífia, como amanuenses ou baianas adúlteras ou macabéias ranhetudas ou um senhor que anda dando uma jingadinha. Afirmo que todo canto devia ser sobre monstros, nem que seja monstros da virtude; e com esta confissão final de incompreensão estética, seguida dum rapapé,

(rapapé)

eis que por ora me despeço, afirmando-me seu criado e humilde minhoto brasileiro,

Alexandre Soares Silva.

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