Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

A Alma da Festa

Esse é a capa do meu último romance, “A Alma da Festa”. Lançamentos em setembro (Santos) e outubro (São Paulo). Lançamento também em Curitiba, mas não tenho a data.

aalmadafesta, capa

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Ok

* Na noite de 6 de Julho de 2013, quando todos estavam vendo a derrota de Anderson Silva no MMA, eu estava vendo Behind the Candelabra.

* Musicais se tornaram o meu gênero favorito de filmes quando eu tinha 16 anos, e Gigi o meu filme favorito (continua sendo).

* Baixei recentemente três entregas do prêmio Tony (2010, 2012 e 2013).

* Às vezes, dirigindo de madrugada, canto “My Man” (na versão de Barbra Streisand, caso você esteja pensando que exista uma versão mais macha dessa música).

* Já passei algumas horas em bibliotecas tentando saber as diferenças entre um Balenciaga e um Givenchy (falhei, porém tentei.)

* Meus blogs favoritos em certa época eram de decoração, como o An Aesthete’s Lament.

* Na próxima vida quero ser antiquário (talvez, é cedo pra decidir).

* Para o meu próprio espanto, uma vez, vendo Jonathan Rhys Meyers numa cena de Match Point, as palavras “Caramba! Eis um sujeito bonito!” saíram espontaneamente da minha boca.

* Não é que eu seja fã de Lady Gaga nem nada, mas acho “Bad Romance” uma música legalzinha.

A Regra dos Dois Degraus

Há a Regra do Um Degrau. Que é esta: uma classe social odeia sempre a classe que está um degrau abaixo dela.

Mas essa não é propriamente minha. Já vi comentada, sem esse nome, em livros sobre classes sociais que leio de vez em quando para poder desprezar todas com mais propriedade. E acho que o senso comum confirma, também.

O motivo dela aliás é óbvio: odiamos a classe abaixo da nossa porque é com ela que corremos o risco de sermos confundidos. Além disso é chato ser seguido assim tão de perto. A classe abaixo da nossa nos pisa nos calcanhares, ofega nas nossas nucas, apalpa nossos seios por detrás enquanto nos encoxa na pia. Em alguns momentos terríveis, olhamos para ela e ela toda nos parece uma caricatura repulsiva de nós mesmos, dos nossos primos e dos nossos tios, dos nossos Natais, das nossas festas de casamento, das nossas viagens.

Seremos assim? Não, não somos assim. Essa classe abaixo da nossa é que é assim. Querem nos imitar, mas, que burros!, não sabem propriamente como. Grudados nos seus sapatos, arrastam o papel higiênico da sua classe social pelos salões da nossa. Sem perceber! Che ridiculo!, como diria Julianne Moore no melhor filme que já houve.

Agora vou explicar a Regra dos Dois Degraus, que é minha com os carimbos da minha pata: uma classe social se identifica sempre com a classe que está dois degraus abaixo dela. (Pigarreio. Tomo um gole d’água.)

Proponho a existência destas classes sociais: realeza, classe alta, classe média, classe baixa.

A realeza, que é a classe que está mais para cima, se identifica com a classe média. E é amada de volta pela classe média exatamente por isso.

Inclusive tem o mesmo mau gosto da classe média. Não digo que a classe média seja a única com mau gosto – há um mau gosto característico de cada classe. O que digo é que a realeza e a classe média têm exatamente o mesmo mau gosto. Que é diferente do mau gosto da aristocracia – e é um tanto mais acentuado, methinks.

Isso foi notado por cada visitante do Castelo de Windsor, e veja também meu querido mameluco o gosto que os Romanovs tinham por ovos Fabergé. Romanovs de ambos os três sexos esfregavam os ovos Fabergé nas suas caras bigodudas de tanto amor que sentiam pelos ovos mais rococós. Aristocratas como a família de Nabokov os desprezavam por isso. Algumas casas dinásticas são um pouco menos vulgares, mas olha que todas elas são desprezadas pela aristocracia à sua volta. E sim, eu sei, aristocratas também têm mau gosto, estão longe de ser decoradores de interior; e o que é mais, se orgulham do seu mau-gosto; mas, de novo, é um mau gosto específico lá deles.

Esse amor da realeza pela classe média é fortalecido cada vez que ela percebe o quanto a classe que ela mais odeia, a classe alta (formada pela aristocracia ou pelo equivalente moderno da aristocracia) por sua vez odeia a classe média. O inimigo do nosso inimigo, etc.

Além disso a classe média, vista lá de longe pela realeza através dos seus binóculos de ópera, é para ela todo o povo, excetuada é claro a parte mais imundinha do povo. Quando a realeza diz que ama o povo, e acredito que ama mesmo (é o que estou dizendo desde o início, caramba), é da classe média que ela está falando, porque abaixo da classe média eles não enxergam muito bem e, se enxergassem, talvez não vissem diferença.

Agora a classe alta. Ela é formada hoje pelo equivalente moderno e degradado da aristocracia: a parte não novo-rica dos ricos, i.e. “dinheiro velho”, mais as camadas intelectuais ou que se julgam intelectuais da própria classe média, como jornalistas, diretores de cinema, uma menina que leu três livros, etc. Esses últimos entram na classe alta por rejeição espiritual à classe a que originariamente pertencem: como um nadador se apoia com os pés na parede da piscina para pegar impulso, os intelectuais e quase-intelectuais apoiam os pés na cara dos seus pais de classe média e empurram firme e sem dó para se projetar planando até a classe alta. É verdade que raramente são aceitos pela classe alta, mas mentalmente é lá que estão, e é lá que os ponho.

Pois a classe alta também se identifica com a classe que está dois degraus abaixo dela: neste caso, o povo-povinho. A malta bacoca e leleira. Os famosos pobres! E cada vez que lêem na Veja ou acham que leram na Veja que a classe média despreza os pobres (ou temem, mas se temem têm razão), mais eles amam os pobres, em teoria e de longe pelo menos. Também por causa do princípio do o-inimigo-do-meu-inimigo-é-meu-bro.

O quê? Você acha que erro? Que a classe alta brasileira odeia os pobres? Mas por que você acredita num slogan desse tipo, certamente lido em seções de comentários? Você alguma vez já entrou na casa duma dessas senhoras de classe alta – mulher do dono dum banco ou filha sessentona do dono duma mineradora – uma dessas mulheres chamadas Patsy ou Vicky mais um sobrenome português – e já viu as coleções de BRASILIANA que elas têm? Acha que pode competir com elas, você cujas paredes estão enfeitadas de action figures? Pobre garoto de twitter! Já viu a coleção de fotos tiradas pelo filho delas, ele que visitou cada cidade pobrinha do Acre e de Tocantins? Suas fazendas se chamam Aymberé, com y, ou bons nomes lusobrasileiros tipo Água Fria. Essa gente fala sobre cachaça, rapadura, inhame. Mesmo em Paris! Mesmo em Paris essa gente fala de inhame. Essa gente ama o Brasil pobre com força caudalosa e abismal. Não entre jamais numa competição de amor ao Brasil pobre com um rico, você que nem sabe o que é urucum.

Note, meu caro chingling, que a Regra dos Dois Degraus envolve não só uma identificação com a classe que está dois degraus abaixo, mas também uma idealização. Todos nós já lemos esses romances brasileiros, ou vimos esses filmes brasileiros, em que pobres aparecem e ficam exercendo lá a função deles de serem dignos mesmo no sofrimento e no crime.

E todos esses príncipes do cinema e da canção, elegantes nos seus apartamentos em Paris, e nas fotos em que aparecem descalços e despojados nas suas casas de concreto e vidro! Chico! Vinícius! O Moreira Salles lá que faz filmes! Aristocratas de miçanga, todos eles. Já nem levo mais susto quando começam de repente a falar de Oxossi ou Ogum como se tivessem sido criados num terreiro. Como amam os pobres! Não, não estou nem sendo sarcástico, acho mesmo que amam os pobres. Só que se eu fosse pobre acharia esse amor repulsivo e condescendente, sei lá (porém já acho).

A Regra dos Dois Degraus termina na classe média. A classe média se identificaria muito com a classe que está dois degraus abaixo dela, se achasse que há uma. Mas não acha. Para ela há só pobres, logo um degrau abaixo. A classe média não distingue subclasses de pobre, só mencionam de vez em quando que um ou outro é mais esforçado, um ou outro mais desgraçado. Não culpo a classe média por isso, é difícil mesmo examinar a pobreza por tempo suficiente para fazer distinções.

Mas é verdade que até a Regra do Um Degrau pára na classe média. A classe média não odeia realmente os pobres, porque a classe média é a mais boazinha das classes. E por isso mesmo toma piparotes (quando não golpes de karatê) de todas as classes à sua volta. Não levaria golpes da realeza; não, senhor, seria amada pela realeza; seria, finalmente, amada por alguém.

Mas nós aqui no Brasil somos tão desgracentos que nem Imperador temos. Já tivemos, dizem; mas trocamos por uma sequência melancólica de chupatintas.

Tipos Urbanos

Connaisseur de decadência: pessoa ansiosa para detectar, antes de todos os outros, os primeiros sinais de que algo já não é tão bom quanto era. Exulta ao sentir que o leite já está um pouquinho azedo. No segundo episódio da segunda temporada de uma série que atingirá o ápice na terceira e quarta, diz que ela “perdeu o caminho”. A ansiedade em ser a primeira pessoa a notar esse primeiro sinal de decadência pode levá-la a fazer o anúncio muito antes que ele tenha de fato ocorrido, numa ejaculação precoce do senso crítico. (Ver críticos de Woody Allen, “pare de fazer filmes, Woody Allen”, que diziam isso na época de Another Woman, quando ele ainda nem tinha feito Crimes and Misdemeanors.) Quando comecei a escrever, logo que publiquei meu primeiro texto apareceu alguém para dizer que eu estava me repetindo, e que eu era melhor antes. Intimamente, concordei.

Sabedoria 3

Qual é a sua opinião sobre suicídio?

Tenho um terror supersticioso de suicidas. Nem gosto de ler suicidas porque imagino que a cada parágrafo do livro minha mente está ficando mais parecida com a do suicida, cada vez menos capaz de sentir prazer na vida, e que de repente vou sair por aí rolando angustiado no tapete. Ter devoção a um autor é uma forma de canibalismo, de absorver alguma coisa dele, de ficar um pouco mais parecido com ele; e quem diabos quer ficar mentalmente parecido com Hemingway ou DFW?

A Direita política tem condições de crescer e se estabilizar no Brasil? Por quê?

Dois tipos de ser humano:

1) Os que adoram política;
2) Os que odeiam política.

Os primeiros costumam adorar política porque é um meio de se meter na vida dos outros, ganhar poder e dinheiro. Mentem para si mesmos dizendo que a motivação é outra. São na maioria de esquerda, porque é isso mesmo que é a esquerda.

Os segundos não querem se meter na vida de ninguém, nem que ninguém se meta na vida deles. São na maioria de direita, porque é isso mesmo que é a direita.

Portanto, não, a esquerda vai vencer sempre, porque é da natureza deles se organizarem para se meter na vida dos outros, e é da natureza da direita resmungar contra isso e depois tentar esquecer o assunto e voltar a viver a própria vida.

E o Stephen Colbert? Ele é engraçado!

Vilão de Batman.

Não lia “burraldino” há tempos, Lord. Tem mais palavras arcaicas na manga?

Abrindo aqui meu caderninho:

RONCOLHO (que só tem um testículo, mal-castrado)
ZANAGA (vesgo)
DURINDANA (uma espada qualquer; vem, claro, de Durandal, ou Durlindana, ou Durandarte, a espada de Rolando, como bem sabes, meu grande maroto)
DOIDARRAZ (bestalhão)
ASSUSTOSO (que dá medo)
BACOCO (ingênuo, pacóvio)
LELEIRA (fofoqueira)
COLOMINHAR (brincar)
MANINEL (homem afe, ou efe, minado)
MONDONGO (pessoa suja, desmazelada)
COLAREJA (feirante, mulher grosseira do povo)

Gosto de manter esse caderninho com palavras antigas, neologismos (popupa para o ato de algo aparecer em pop up; vi no twitter). Tenho usado algumas aqui e ali quando me soube bem. E aproveito para dar também duas palavras da língua inglesa, não, três:

AQUABIB (bebedor de água, que só bebe água)
LUNTING (andar fumando cachimbo)
CURGLAFF (o choque de mergulhar na água gelada)

Para que lado você beija?

Sempre para oeste de manhã e leste de tarde, porque o sol batendo nos olhos da sua adversária lhe dá uma vantagem significativa.

Pra ti onde termina a boa educação e o refinamento e começa a frescura arrogante e elitista?

É a mesma coisa, vista pelo lado de quem está dentro e pelo lado de quem está fora.

Sabedoria 2

Por que você se conforma em ter tão pouca empatia com os pobres? Não percebe que seus privilégios não são méritos, mas sorte por ter nascido como parte de uma minoria favorecida?

Quem disse que tenho pouca empatia? O que há é que quando tenho um sentimento bonito, ou qualquer coisa que possa causar um óóóuunn da pessoa que me lê, escondo-o logo como se fosse uma catota. Toda a vida sempre tive a compulsão de parecer canalha. E acho uma compulsão santa. Não só a minha mão esquerda não sabe o que faz a minha mão direita, tal como recomendado em Mateus 6:3, como ela acha a direita uma canalha. E a direita acha que a esquerda tem muito pouca empatia com os pobres. Estranho quem não faz o mesmo. Agir de outro modo é querer dar uma surra de bunda com os próprios sentimentos bonitos na cara estupefata da humanidade.

Será que um dia você vai conseguir escrever uma cena tão boa quanto a morte da Baleia em “Vidas Secas”?

Sempre acho graça quando alguém se espanta de que Graciliano Ramos faça chorar com “a morte de uma simples cachorra”. Ora, o que há de mais fácil é fazer chorar com cena de morte de cachorro, eles estão lá para isso mesmo.

Cheguei até a cunhar a frase “as doomed as a dog in a thriller”. Noventa por cento dos cachorros de filme morrem, e cem por cento dos que aparecem em thrillers e filmes de horror. Truquinho emocional mequetrefe, mas eficiente. Da minha parte não consegui nem olhar para a tela durante a morte do cachorro em “I Am Legend”.

“Vidas Secas”, o “Marley e Eu” da caatinga.

Seu próximo livro tem que ser sobre perenialistas!

Ainda acho que faltam bons romances sobre a vida na internet, sobre fóruns, blogs e trolls. Bons, repito eu. Quando a internet surgiu, apareceram dezenas de romances idiotas sobre “chats” e “amor nos tempos de internet”; e logo todos os personagens da literatura brasileira urbana estavam entrando online, com o afã de personagens de romances dos anos 20 mandando telegramas e dançando charleston em elevadores de arranhacéus.

Mas um bom romance sobre essa gente, os perenialistas-de-orkut, os anti e pró olavo, os blogueiros bons e maus, os portais surgindo e desaparecendo, as caixas de comentário com 300 comentaristas, etc. Sinto falta porque minha vida tem estado em grande parte ocupada com essas coisas, mas ninguém escreve bem a respeito. A dificuldade primeira é escrever sobre isso sem parecer um “jornalista de tendências”. Seria preciso alguém que não se sentisse todo moderninho só por estar escrevendo sobre internet.

Já tocou algum instrumento? Qual gostaria de experimentar?

Tive umas semanas de aula de violão quando era adolescente, mas desisti porque a mulher era muito chata, só queria falar das desgraças da vida dela e me ensinar a tocar mpb, que eu detesto.

Mas cada vez que ouço um músico tocando flamenco no violão, sempre imagino que estou numa loja de instrumentos, que peguei um violão para experimentar e comecei a tocar casualmente. A música tocando no computador e eu imaginando que sou eu que estou tocando, voltado para um canto, com as pessoas na rua parando na porta da loja para ouvir a música, às vezes com lágrimas nos olhos. “Olha seu moço o senhor tem muito talento” diz uma senhora na minha fantasia, apertando emocionada a minha mão, “ai fez o meu dia viu”. E eu agradeço com humildade e boto o violão de volta no lugar – a menos que a música seguinte já tenha começado no itunes. Nesse caso volto a fantasiar tudo de novo.

Queria saber tocar flauta, violão e piano.

Sabedoria

Você, como Pondé, também acha que o ser humano gosta de matar?

Mas deve ser gostoso mesmo. Às vezes acho que esses sujeitos que entram em faculdades e metralham todo mundo devem se sentir como alguém que ia comer só dois bis e acabou comendo a caixa inteira.

Não fala do Pondé, porque os textos dele me dão vontade de virar esquerdista.

Ele, o que é o caso também do Reinaldo Azevedo, escolheu ser a ala da direita que enfrenta diretamente a ala mais estúpida e numerosa da esquerda. Para fazer isso eles têm que combater obviedades com obviedades, coisas que são retardadamente falsas com coisas que são retardadamente verdadeiras. Alguém têm que fazer esse trabalho, e eu queria que o resto da direita parasse de sentir tanto nojo disso – porque se não fosse pela ala bronca, já teríamos sido enforcados nos chorões do Ibirapuera, nossos delicados pezinhos de direita-que-não-diz-obviedades balançando na água cheia de girinos.

Acha a tia Creuza do Adnet engraçada, Alexandre?

Não sei o que é isso. É tevê aberta? Não vou à tevê aberta desde 1991, tenho medo de ser assaltado. É como um imenso bairro industrial abandonado, cheio de Anas Marias Bragas fumando crack. Os pais do Batman foram mortos ao passear pela tevê aberta.

Você é mesmo kardecista?

Não. Estou com um pé na cara do cadáver de Kardec e o outro no primeiro degrau de uma igreja católica, segurando as calças para que não caiam, e exibindo uma constrangedora mas inegável ereção.

Súbita vontade de ler Coelho Neto

“O Senhor Coelho Neto como literato-político, fez forfait (…) As cogitações polítcas, religiosas, sociais, morais, do seu século, ficaram-lhe inteiramente estranhas. Em tais anos, cujo máximo problema mental, problema que interessava todas as inteligências de quaisquer naturezas que fossem, era uma reforma social e moral, o Senhor Neto não se deteve jamais em examinar esta trágica angústia do seu tempo (…) Em um século de crítica social (…) o Senhor Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico, um contemplativo (…) O deputado ficou sendo o romancista que só se preocupa com o estilo, com o vocabulário, com a paisagem, mas que não fez do seu instrumento artístico um veículo de difusão das grandes idéias do seu tempo.” (Lima Barreto)

Os Nixons do Mar

Musa, Alto Gênio, ajudem a cantar agora o que quer que seja de diferente desta gente zote e mondonga que vejo pela janela. Das criaturas fabulosas que ainda vivem no mar, permitam que desenhe um esboço dos lendários Nixons aquáticos, que empesteiam as águas do Golfo de Salerno no Mar Tirreno.

Chamam-se Nixons porque da cintura para cima quis Netuno que se parecessem com Richard Nixon no primeiro debate presidencial com John Kennedy em 1960: pois a camada externa da pele destes monstros parece um paletó cinza, os pelos do peito se assemelham a uma gravata vermelha, e no topo da cabeça levam o mesmo cabelo curtinho e as leves entradas do falecido presidente americano. O rosto é torpe e malbarbeado, o nariz curvo e pontudo. Da cintura para baixo têm o corpo de um peixe, delicioso aliás, iscas de nixons sendo um dos pratos mais conhecidos da cozinha salerninha (ref. a Salerno).

Em vários penedos do Golfo os Nixons passam os dias tomando sol, e de lá olham cheios de uma desconfiança estúpida para os marinheiros dos navios que passam. Tentam, coitados, os Nixons, cantar para atrair os marinheiros borda afora, para a morte no mar ou o estatelamento nas rochas, mas a sua aparência é tão pouco convidativa, ali deitados no musgo com visível dor nas costas, os ternos encharcados, a gravata malajambrada, que nenhum marinheiro jamais se sentiu minimamente tentado pelo canto dos Nixons, nem nenhum navio jamais se desviou um metro que fosse na direção de tanta falta de charme.

Ainda se cantassem bem; mas não, e entremeiam as suas canções pacóvias com frases embaraçadas como “Ah, uh, venha aqui, ah, uh, marinheiro”, ou ainda “Pode não parecer mas acredito que seria, ah, qual a palavra, vantajoso para você pular pra fora da, uh, amurada do navio neste momento”.

Dos Nixons do mar tudo que os marinheiros dizem de bom é que pelo menos não são comunistas, o que é verdade.

E agora aproximem-se que pretendo lhes contar de duas outras criaturas fabulosas, os gnomos racistas e os Milks, criaturas que não são do mar, mas respectivamente dos bosques e das cidades. E lhes contarei, de fato, se a Musa e a Tequila sustentarem a inspiração.

Os gnomos racistas são isto que o nome diz. São encontrados em grandes quantidades nos bosques de juníperos da Germânia. Vestem mantos e capuzinhos brancos com furinhos para os olhos e correm pelo chão da floresta a praguejar contra negros. Que negros isto, que negros aquilo. Chegam a ser um pouco chatos com o assunto. Quando indagados, se dizem não racistas mas racialistas, e explicam a diferença com enorme monotonia.

É triste dizer mas quando negros dormem nas florestas de juníperos da Germânia, muitas vezes acordam berrando de dor porque os gnomos racistas acenderam fósforos nas solas dos seus pés. Dão nós nos rabos das vacas pretas, e odeiam tudo que tem a cor negra, inclusive as próprias sobrancelhas, que raspam ou tingem de azul. Têm cerca de um pé de altura e são frequentemente vistos cavalgando gatos pela floresta ao som da Cavalgada das Valquírias, que eles mesmo cantam com suas vozes fininhas e empolgadas.

São no fundo excelentes pessoas (ou excelentes gnomos). Vá você pedir ajuda aos gnomos racistas, e eles lhe darão as botinhas dos pés e o último centavo dos seus bolsinhos sem pensar duas vezes (exceto claro se você for negro. Mas para quê ser negro?).

Por fim lhes falo (mas se são suscetíveis ao medo adiem a leitura para o dia, não agora às duas da manhã quando a geladeira lança sombras de pesadelo nas paredes do seu corredor à distância) do último monstro que a mitologia política americana lançou sobre o mundo: o Milk.

O Milk, assombração homossexual que aparece em banheiros, exigindo coisas e rodopiando com a mão coberta de esperma para respingar nas pessoas! Não só em banheiros: fazendo discursos progressistas sinistros em sótãos e vãos de escada, ou mesmo no quarto de crianças: quantas já não interromperam festas em que eu estava, saindo dos seus quartos escuros, de pijama, chorando a dizer que tinham visto “o Milk”? “Eu vi o Milk”, “O Milk tá no banheiro”, etc – e os pais iam confirmar e lá estava de fato o Milk no box do banheiro, em pé, furioso e bigodudo.

É um fantasma politizado, e como todos os fantasmas politizados do mundo, não há ninguém que ele odeie tanto quanto os apolíticos, sejam eles crianças, fetos, filatelistas limítrofes, ou mesmo ursos polares. É sobretudo para todos esses que o Milk aparece.

Segundo o folclorista Sir Edwin Câmara Cascudo, em várias regiões de Minas há uma cantiga tradicional para afastar o Milk, que diz assim:

Milk, Milk, vai embora,

Cê tá aqui faz mais de hora,

Sobe as calça e vai embora,

Milk, Milk, sem demora!

A isto se diz que o Milk fica vexado e se vai, atravessando a parede, mas muitas vezes voltando para mostrar o dedo do meio e depois sumir de novo na grande noite alarve, na grande noite mundiça e sodomita.

Nixons marinhos, gnomos racistas, o Milk: de tais criaturas fabulosas é formado o mundo sublunar em que vivemos. De modo que não entendo que se cante sobre gente mais pífia, como amanuenses ou baianas adúlteras ou macabéias ranhetudas ou um senhor que anda dando uma jingadinha. Afirmo que todo canto devia ser sobre monstros, nem que seja monstros da virtude; e com esta confissão final de incompreensão estética, seguida dum rapapé,

(rapapé)

eis que por ora me despeço, afirmando-me seu criado e humilde minhoto brasileiro,

Alexandre Soares Silva.

Trote

Quando criança tínhamos uma empregada que me instruía a passar trote perguntando se a pessoa não queria lamber o pirulito do Kojak. Eu não entendia o duplo sentido mas passava o trote mesmo assim, e a empregada ficava rindo na cozinha.

Eu ria também, porque achava engraçada a idéia das pessoas lamberem o pirulito babado do Kojak. As pessoas deviam ouvir a pergunta junto com a minha risada e me achar uma criança  imunda, um retrato destes tempos desgraçados. Diziam uns palavrões e batiam o telefone. Um ou outro dizia que ia chamar a polícia. Mas um dia uma mulher quis me doutrinar.

-Que coisa feia, uma criança tão bonita dizendo uma coisa tão horrorosa.

-Como é que você sabe que eu sou bonito, você nunca me viu – eu disse, mas ela me ignorou.

-Menino, você por acaso sabe do que você está falando?

-Sei.

-Do que é então?

Fiquei tão perplexo que demorei um tempo pra dizer:

-Do pirulito do Kojak, ué.

-Mas o que é o pirulito do Kojak?

Outra pausa perplexa:

-Hein?

-É o pingulim do homem.

Respirei como um retardado no telefone, tentando entender o rumo que o trote tinha tomado.

-Tem mulher que coloca o pintinho do homem dentro da boca – a mulher disse. – E é disso que você está falando.

-Não, pô.

Foi a vez da mulher suspirar.

-Tá bom, vai, fio. Vai lá brincar e não manda mais ninguém lamber o pirulito de ninguém, tá bom?

Desliguei o telefone e fui brincar, espantado com a depravação daquela mulher. Chutava a bola com força contra a parede do quintal e de vez em quando exclamava “Putz! Que mulher maluca!”.

Foi a primeira, mas obviamente não a última mulher maluca com quem falei na vida.