Por que não a mamãe?

por soaressilva

Lá estava o Dr.Urbano no horário de almoço, andando pelo quarteirão do seu consultório em São Paulo, quando, tendo olhado a vitrina de uma livraria e seguido adiante distraído, de repente se perguntou se estava maluco ou havia mesmo, seria possível, visto uma foto da mãe dele na capa de um livro?

Não podia ser, podia? A Dona Martha? Também conhecida como a mamãe?

Mas voltou atrás e, ué, era sim. A mamãe! Na capa de um livro!

Na capa de vários livros, na verdade, ou de vários exemplares de um mesmo livro, que era a edição brasileira do bestseller filosófico daquele ano, “Vamos Matar a Dona Martha”, do Professor de Bioética de Oxford, o célebre e controverso Prof.Nicholas Killer-Couch.

O coração do Dr.Urbano ficou parado e encolhido durante dois segundos, como uma caloura na qual tivessem despejado um barril de gatorade durante um trote, e só aos poucos voltou a bater. Nunca tinha ouvido falar daquele livro. Leu e releu o título. Voltou a olhar a foto.

Era a mamãe! Sorrindo enrugadinha no seu vestido azul de maria-mijona, seus óculos de leitura pendurados por uma cordinha e descansando nos peitos monstruosos.

“Vamos Matar a Dona Martha”, mas por quê? Por que ela? Uma santa que só ficava em casa fazendo quitute? O Dr.Urbano entrou na loja e estudou o livro, que viu ter o subtítulo de “O Livro que Deu Origem à Campanha Para Matar a Dona Martha”. O texto da orelha, que não conseguiu ler direito de tão, qual a palavra? nervoso? pasmo? em choque?, dizia qualquer coisa sobre brilhante blablablá análise arguta da necessidade ética da descriminalização de procedimentos legais para pôr um termo à vida, não, entre aspas, “vida”, da Dona Martha; “o Professor Killer-Couch merece elogios”, estava assim, mais abaixo, num blurb, “por abordar com tanta sutileza um tema complexo, sem jamais ceder ao clima moral atual de certezas tanto à esquerda quanto à direita”.

Tremendo, o Dr.Urbano comprou o livro e foi ler no consultório. Descobriu que o título original era “Pray Let Us Kill Doña Martha”, uma brincadeira com os dois sentidos da palavra “pray”, “por favor” e “rezar” (Killer-Couch era ateu). O prefácio brasileiro, de um professor da Usp, avisava que o livro “tinha material de sobra para causar revolta nas mentes menos ousadas, diante da exposição fria e desapaixonada de uma vida inútil e dos muitos argumentos para terminá-la”. O prefácio da edição americana era assinado pelo “Diretor Internacional da Campanha para Matar a Dona Martha” (a CKDM). Mas era difícil pro Dr Urbano ler qualquer coisa, estando em pânico. Havia na orelha uma foto de Killer-Couch, bonitão para os padrões científicos, assim com uma espécie de beleza de astrônomo.

A caminho de casa o Dr.Urbano veio tentando ler o livro no carro, em cada sinal fechado – e sempre encontrava uma frase absurda, de implicações malévolas, justamente quando o farol abria. Antes de entrar em casa escondeu o livro na sua pasta.

Sua mãe estava na cozinha, descascando ervilha e vendo novela. Ela deu a bochecha pra beijar, disse “Ô filho, cê não morre tão cedo”, e começou a dizer que tinha falando dele com a tia Célia que estava com diabete. Mas, francamente, o Dr.Urbano parou de ouvir.

Ao vê-la curvada tetuda sobre as ervilhas, toda entretida com a saúde da tia Célia, seu cotovelo cascudo em cima do livro espírita que também sustentava um isqueiro azul de plástico, ao ver seus cabelos grisalhos de velhinha que nunca ouviu que os setenta são os novos cinquenta, ao ver debaixo da mesa suas pernas de maternal elefanta, seu chinelo estourado, e sobretudo ao ouvir sua voz rouca de velhinha fumante, sua voz de mamãe, Urbano decidiu que nunca a deixaria saber que lá fora, no vasto mundo filosófico, sutil, ético, palestrante, milhares de pessoas com diplomas queriam matá-la.

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-Não, não! Eles não querem matar ela – disse o Inácio, seu melhor amigo, quando Urbano telefonou pra ele trancado no escritório – Eles querem ter o direito legal de matar ela. É diferente.

-Ah, você sabia? Por que não disse nada?

-Eu pensei que você sabia. Tá a semana toda passando isso na televisão.

Não, aparentemente, nos intervalos da novela – ou a mãe saberia. Ou ela sabia? Seria possível? Urbano desceu, e quando viu que estava passando o jornal, disse às pressas qualquer coisa sobre querer ver o jogo e mudou de canal, sob os protestos estridentes da Dona Martha Gontijo de Almeida.

A conversa com Inácio o havia deixado tão indignado quanto antes, mas ao mesmo tempo com a sensação de que estava sendo injusto por ficar indignado – que havia uma razoabilidade nos argumentos do Professor Killer-Couch, e que ele, Urbano, não havia entendido nada, julgando “com o coração e não com a cabeça”.

Essa foi exatamente a sensação que teve quando finalmente conheceu o Professor Killer-Couch, quatro meses depois, nos bastidores do estúdio paulistano em que os dois gravariam um debate. Inicialmente o Professor queria debater diretamente com “Doña Martha” – como ele disse, no telefone, para a própria, antes que Urbano arrancasse o aparelho das mãos maternais pintalgadas. Urbano havia se recusado, insistindo que a mãe não devia saber de nada, e se ofereceu para ir no lugar.

De modo que os dois se encontraram, numa manhã de chuva, num prédio feio e moderno perto da Marginal.

O Professor era muito alto, seus cabelos brancos mais amarelos e ensebados do que parecia nas fotos, e sorria tão timidamente que o Dr.Urbano, que veio disposto a briga, não soube o que fazer. Isso ficou pior quando Killer-Couch disse em inglês, com grande simplicidade, e se curvando todo lá de cima até a altura do otorrino paulista:

-Agradeço a sua presença. Deve ser difícil para você.

E bastou isso para o Dr.Urbano desfranzir o rosto e dizer, com um leve ar de míope razoável, “Ah sim, bastante.”

Pouco antes do debate começar, os dois ainda em pé nos bastidores, Urbano pediu um copo d’água para a mulher lá do programa e Killer-Couch deu uma corridinha, voltando com um copo pra ele.

-Obrigado – Urbano resmungou.

-De nada.

Os dois subiram num palco e sentaram em cadeiras brancas de plástico. Na platéia pessoas sentavam até nos corredores, garotas bonitinhas segurando o livro do Professor Killer-Couch com a Dona Martha na capa.

Havia uma foto bem grande da mamãe na parede do fundo.

Um moderador invisível, uma voz de imparcialidade sinistra, pediu que Urbano explicasse o motivo de achar que a mãe não devia ser morta. Monotonamente, Urbano recitou o texto que havia preparado contando a história da mãe, o campeonato de natação, o casamento, a lua-de-mel em Poços de Caldas, os três filhos, a viuvez, a novela, o centro espírita, o medo de trovão, a gota, a paixão por côco. Disse que a vida dela não era inútil e que ela era muito amada por três filhos, uma irmã diabética e um weimaraner chamado Coxinha. O texto acabava muito de repente e Urbano teve a certeza de que não havia conseguido dar o tom emocional que queria.

Quando chegou a vez de Killer-Couch, o Professor sorriu, pôs a mão no joelho do Dr.Urbano e falou:

-Deixe começar dizendo que se é por falta das famosas tortas de limão da sua mãe que você não quer que ela seja morta, há em Londres uma famosa doceria (risos da platéia), e eu ficaria contente em mandar quantas tortas você quisesse para a sua casa se você simplesmente deixar (pausa, mais risos da platéia), deixar, enfim, que a Doña Martha nos abandone.

O Dr.Urbano não quis que pensassem que não tinha senso esportivo, e riu também.

Ficando mais sério, Killer-Couch explicou os argumentos apresentados no livro. Disse também que pessoalmente não achava que a vida de Dona Martha fosse inútil, mas que esse ponto era irrelevante para a sua argumentação. Parecia tão lógico, tão razoável, tão educado, que Urbano começou a se sentir como um estraga-prazeres por estar lá contrariando todo mundo. Tinha certeza que as pessoas na platéia olhavam para ele com raiva dos seus preconceitos ridículos, do seu apego sentimental à sua mãe gordinha, catarrenta e noveleira. E Killer-Couch falava tão bem! Todos os argumentos que Urbano mencionava, e que havia escrito na palma da mão, Killer-Couch anulava com uma facilidade humilhante.

A frase da noite foi:

-É arcaico que existam leis para que o Estado proteja a vida de uma senhora de braços flácidos no bairro da Chácara Flora.

Todos riram muito disso.

-Mas e o direito à vida? – Urbano perguntou a certa altura, sem convicção nenhuma e se sentindo absurdo, burro, clichezento.

-O direito à vida, meu caro Urbano, é um jogo de palavras que significa apenas a campanha, mais ou menos explícita, por parte do Estado moderno, para acabar com o direito de terminar a vida.

Não conseguiram nem aplaudir de tão admirados – e longe dali, na Chácara Flora, Dona Martha lavando a garagem sentiu um arrepio sem saber por quê.

-Peço que retroceda no tempo e imagine uma época que uns dirão sem lei, que uns dirão se tratar do reinado do mais forte, – Killer-Couch continuou, – mas que digo que antes de tudo foi uma época de grande liberdade. Refiro-me à época anterior à criação do Estado. Antes dos reis, antes dos patrões, antes mesmo dos sábios. Pois bem, nessa época, se eu quisesse matar a sua mãe, não haveria Estado para retirar essa decisão dos meus ombros. Repito o que já disse no meu livro, o Estado não tem o direito de retirar essa decisão dos meus ombros. Essa decisão é minha – metafisicamente minha, abismalmente minha.

-Por que sua? – Urbano perguntou.

-Ah sim! Fico feliz que pergunte. É, na verdade, de todos nós. Sim, inclusive sua, meu caro. É também pelo seu direito que eu luto.

Houve um longo silêncio, e Urbano, lembrando da mãe, quase vendo a mãe na frente, achou que tinha que dizer alguma coisa. O quê, precisamente, não sabia. Os holofotes queimavam a sua careca com uma intensidade assustadora, mas na sua frente Killer-Couch parecia imune ao calor. Só nesse ponto Urbano percebeu que Killer-Couch estava usando sandálias de couro e tinha as unhas do pé muito compridas – e por mais que se esforçasse para voltar a pensar na mãe, não conseguia pensar em mais nada, e só conseguia ficar olhando aquelas unhas.

-Mas, mas, mas – apelou o Dr.Urbano, finalmente sem argumentos – Por que a mamãe?

-Me deixe devolver a pergunta – Killer-Couch disse, juntando as pontas dos longos dedos pálidos e abrindo um sorriso na verdade muito simpático – Por que não a mamãe?