Sabedoria 2

por soaressilva

Por que você se conforma em ter tão pouca empatia com os pobres? Não percebe que seus privilégios não são méritos, mas sorte por ter nascido como parte de uma minoria favorecida?

Quem disse que tenho pouca empatia? O que há é que quando tenho um sentimento bonito, ou qualquer coisa que possa causar um óóóuunn da pessoa que me lê, escondo-o logo como se fosse uma catota. Toda a vida sempre tive a compulsão de parecer canalha. E acho uma compulsão santa. Não só a minha mão esquerda não sabe o que faz a minha mão direita, tal como recomendado em Mateus 6:3, como ela acha a direita uma canalha. E a direita acha que a esquerda tem muito pouca empatia com os pobres. Estranho quem não faz o mesmo. Agir de outro modo é querer dar uma surra de bunda com os próprios sentimentos bonitos na cara estupefata da humanidade.

Será que um dia você vai conseguir escrever uma cena tão boa quanto a morte da Baleia em “Vidas Secas”?

Sempre acho graça quando alguém se espanta de que Graciliano Ramos faça chorar com “a morte de uma simples cachorra”. Ora, o que há de mais fácil é fazer chorar com cena de morte de cachorro, eles estão lá para isso mesmo.

Cheguei até a cunhar a frase “as doomed as a dog in a thriller”. Noventa por cento dos cachorros de filme morrem, e cem por cento dos que aparecem em thrillers e filmes de horror. Truquinho emocional mequetrefe, mas eficiente. Da minha parte não consegui nem olhar para a tela durante a morte do cachorro em “I Am Legend”.

“Vidas Secas”, o “Marley e Eu” da caatinga.

Seu próximo livro tem que ser sobre perenialistas!

Ainda acho que faltam bons romances sobre a vida na internet, sobre fóruns, blogs e trolls. Bons, repito eu. Quando a internet surgiu, apareceram dezenas de romances idiotas sobre “chats” e “amor nos tempos de internet”; e logo todos os personagens da literatura brasileira urbana estavam entrando online, com o afã de personagens de romances dos anos 20 mandando telegramas e dançando charleston em elevadores de arranhacéus.

Mas um bom romance sobre essa gente, os perenialistas-de-orkut, os anti e pró olavo, os blogueiros bons e maus, os portais surgindo e desaparecendo, as caixas de comentário com 300 comentaristas, etc. Sinto falta porque minha vida tem estado em grande parte ocupada com essas coisas, mas ninguém escreve bem a respeito. A dificuldade primeira é escrever sobre isso sem parecer um “jornalista de tendências”. Seria preciso alguém que não se sentisse todo moderninho só por estar escrevendo sobre internet.

Já tocou algum instrumento? Qual gostaria de experimentar?

Tive umas semanas de aula de violão quando era adolescente, mas desisti porque a mulher era muito chata, só queria falar das desgraças da vida dela e me ensinar a tocar mpb, que eu detesto.

Mas cada vez que ouço um músico tocando flamenco no violão, sempre imagino que estou numa loja de instrumentos, que peguei um violão para experimentar e comecei a tocar casualmente. A música tocando no computador e eu imaginando que sou eu que estou tocando, voltado para um canto, com as pessoas na rua parando na porta da loja para ouvir a música, às vezes com lágrimas nos olhos. “Olha seu moço o senhor tem muito talento” diz uma senhora na minha fantasia, apertando emocionada a minha mão, “ai fez o meu dia viu”. E eu agradeço com humildade e boto o violão de volta no lugar – a menos que a música seguinte já tenha começado no itunes. Nesse caso volto a fantasiar tudo de novo.

Queria saber tocar flauta, violão e piano.

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