Brasil

por soaressilva

A razão para os racionalistas é um instrumento para deixar de entender as coisas. Vão aplicando a razão a tudo e vão descompreendendo as coisas do mundo, uma de cada vez. “Não vejo sentido nisto, não vejo sentido naquilo. De um ponto de vista puramente racional, isto não faz sentido.” De razão em razão vão ficando de quatro a babar no capim. Porém, deixe dizer:

O argumento velho de que não faz sentido sentir orgulho do país em que se nasceu, porque não temos mérito disso. Ó meu senhor, tenha paciência. Em todo fórum, caixa de comentário, formspring um antipatriota está digitando isso mesmo, contente com o seu insight lá dele que é dele. Autores importantes fazem isso também, em entrevistas para a promoção de livros.

Em primeiro lugar, só o orgulho daquilo de que não temos mérito é bonito de ter. Ter orgulho daquilo de que temos mérito me parece um pouco satânico. Porque o primeiro orgulho é o orgulho dum presente que se recebeu, um caminhãozinho de plástico que lhe foi dado a troco de nada pelo Universo, e lá está você todo contente com ele. Pois que fique! Com estas mãos peludas, protejo de toda a rascorja vil o seu orgulho santo e bobo. Já o segundo orgulho é um orgulho malévolo porque todo justificado, todo mesquinhamente argumentado: vejam o que fiz. Não ganhei, fiz. Há um vídeo de eu fazendo. Deus nada tem a ver com isto, eu que fiz.

E em segundo, racionalistas, acompanhem: um patriota sente orgulho de ter nascido no Brasil não porque ache que concorreu com milhões de infelizes nepaleses e lascares pelo direito de nascer no Brasil e, acotovelando-os machamente, venceu, e como prêmio nasceu em Sorocaba: mas porque acha que depois de ter nascido no Brasil recebeu do ambiente à volta qualidades que acha supimpas, e que acha que os outros países e culturas não lhe dariam. E está certo nisso, completamente justificado, sim sim.

Países dão qualidades diferentes às pessoas. Não sei sambar porque sou brasileiro. Sendo brasileiro, de classe média, com menos de cinquenta anos, sambar me parece algo muito exótico, mas não tão exótico que me interesse. Se tivesse nascido alemão, capaz que sambasse todo vermelho no rosto, uma ou duas vezes por ano. Se fosse japonês, gostaria de gafieira, mas como sou brasileiro (sacudindo a camisa com garra) gosto de roquinho japonês. E por aí vai: quero aprender a dançar tango porque sou brasileiro. Porque sou brasileiro, quero aprender tap dancing.

Não sei, não sou a pessoa mais indicada a dizer, porque não sou patriota. Não sei bem quais qualidades o Brasil dá. No fundo só vejo uma certa bundamolice. Em aeroportos, se vejo alguém cuja cara parece indicar uma certa bundamolice, chuto que é brasileiro. Mas mesmo assim, outras qualidades o Brasil há de dar, e por Deus esses bunda-moles estão certos. Certos de ter orgulho de ter nascido em Blumenau, Olinda ou o que seja. São herdeiros de alguma coisa que eu não sei o que é, que infelizmente não tenho, ou tenho e não sei. E nenhum argumento racionalista abobalhado de zumbi lhes tirará das mãos a bandeira metafórica e gloriosa, que infelizmente é meio feia, é verdade.

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