Alexandre Soares Silva

Diário da Corte de Pisuerga, escrito no Mais Triste Exílio pelo Cavalheiro de Beri-Beri

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Meu Primeiro Emprego

Fico contente de ter sido convidado por um jornal tão importante quanto A Pompa de Guarulhos para contar no seu suplemento para adolescentes Buço & Tetinhas como foi a experiência do meu primeiro emprego.

Eu tinha dezessete anos e estava em Florença fazendo um curso técnico de design industrial. Estava lá fazia o quê, um mês, quando resolvi que ia procurar um emprego pra completar a mesada que o meu pai mandava do Brasil.

Isso foi dez anos atrás, quando a Galeria Uffizi resolveu que ia virar pizzaria. Daí me indicaram e fui trabalhar de entregador de pizza do museu (quem me indicou foi um garoto brasileiro que já tinha trabalhado como entregador de pizza no Tate Modern).

Era assim: eu entrava às oito da noite e ficava esperando com seis outros motoboys numa salinha ao lado da Sala Flamenga. Vinha o pedido: “Me vê aí uma meia Paolo Uccelo, meia Giotto aos quatro queijos”, digamos.

Um especialista em arte chamado Domenico, usando luvas de cirurgião, era o único que podia tirar o quadro da parede. Não me pergunte por qual motivo tinha que ser um especialista em arte, porque ele só tirava o quadro da parede, dava uns vinte passos e passava o quadro pro cozinheiro (devia ser coisa de sindicato).

O cozinheiro botava o quadro no forno, assava bem, tirava do forno, jogava pepperoni, punha orégano nas asinhas esturricadas dos anjinhos, umas cebolas nos olhos de um Doge, o que fosse. Fazia a pizza, uma mulher lá, a saudosa Dona Angenita, botava a pizza numa caixa de papelão, tirava a coca da geladeira, e lá ia eu na minha motinha.

Não reclamo, era gostoso atravessar Florença toda de moto. Até hoje o cheiro de mussarela, gorgonzola e Ghirlandaio quentinho me lembra da minha juventude.

Só tive um problema, que foi com aquele pessoal ativista lá que estava protestando contra o que eles consideravam um atentado à arte. Lembram que no início tinha uns protestos? Eles ficavam cercando o Uffizi o dia inteiro, tacavam ovo na gente quando a gente saía de moto. Como se a gente tivesse culpa…

Uma noite eu passei o cerco, estava já perto do Palazzo Pitti quando uma van me fechou o caminho. Eram dois ativistas e me mandaram dar a pizza pra eles.

-Não está certo – disse um deles, um cabeludo, – fazer pizza com o patrimônio da humanidade!

-E se for calzone? – eu perguntei, porque a que eu estava segurando era um calzone.

Ele ficou espantado com a pergunta e ficou pensando.

-Ah, se for calzone…

Mas o que estava do lado dele ficou bravo e mandou entregar a pizza, que eles iam levar a pizza pra um restaurador que ia raspar todo o queijo e tentar restaurar o que desse. Eu passei o Giorgione pelando pra eles. Quando eles estavam entrando na van eu falei:

-Vocês podem falar o que quiserem, mas é porque não provaram. Falar sem experimentar é coisa de ignorante.

Eles ficaram intrigados, daí abriram a caixa lá mesmo no banco da frente da van e experimentaram. Vou falar pra vocês, eles até arregalaram os olhos quando sentiram o gosto. E me deram pra experimentar também.

Lembro que era “A Prova de Moisés”, de 1505, com shitake. Por baixo do shitake ainda dava pra ver algumas árvores, e o Moisés bebezinho nos braços de um sujeito. Nunca gostei muito de Giorgione mas, rapaz, estava delicioso. As perninhas do Moisés estavam crocantes e com gostinho de alho e o penacho de uma figura que estava no fundo tinha gosto de zucchini.

Comemos tudo, não sobraram nem as molduras. Daí eles fizeram cara de culpados e foram embora sem dizer um noli me tangere.

Pessoal se espanta, né, não gosta da idéia. Mas daí você bota um Rembrandt na boca e vê que é bom. Rembrandt parece bacon, mas é melhor. Não sei explicar.

Trabalhei dez meses de entregador na Itália. Foi uma experiência bacana. Voltei pro Brasil no ano seguinte e comecei a trabalhar em outra área (computadores). Constituí família, estou feliz.

Agora parece que o Masp virou pizzaria também, e já estão todos dizendo que a pizza brasileira é melhor que a italiana. Mas não sei, comi um Portinari com anchova outro dia e não era a mesma coisa.

Toda lit contemp aspira ao nível de espertinha

O destino quis colocar juntos no meu kindle dois livros muito díspares, as memórias de infância nos pampas de WH Hudson (1841-1922) e uma coleção de ensaios de Jonathan Lethem (1964-?). Li dez minutos de cada esta tarde e logo me precipitei a calcular, disso que li, a diferença não só entre essas duas almas mas entre as duas épocas. Foi um relâmpago meu de insight e brilhantismo que me deixou esturricado de sabedoria: senhores, posso dizer, agora, que compreendo esta época como ninguém.

Porque no meio das sentenças de Hudson – The pampas are, in most places, level as a billiard-table; just where we lived, however, the country happened to be undulating, and our house stood on the summit of one of the highest elevations (…) Whenever we went down to play on the banks, the fresh penetrating scent of the moist earth had a strangely exhilarating effect, making us wild with joy. (…) I have often observed that small children, when brought on to low, moist ground from a high level, give loose to a sudden spontaneous gladness, running, shouting, and rolling over the grass just like dogs, and I have no doubt that the fresh smell of the earth is the cause of their joyous excitement, e no meio das sentenças de Lethem -  Jack Nicholson dispatches Monster Brando and gets the girl (…) the real showdown between the two occurs in the middle of the film, when Brando, unarmed and undressed, wreathed in a bubble bath and facing the point of Nicholson’s gun, utterly dominates the younger actor simply by turning his appallingly fleshy back and rolling his eyes to the ceiling, daring Nicholson’s character to shoot him in the back (or perhaps to reproduce the notorious butter scene). Nicholson, understandably, quits the stage in disgust – cheguei a esta conclusão que vou dizer em seguida -  e antes de dizer que esta justaposição é arbitrária, meu pequeno mocorongo, leia quatro mil textos anteriores ao século vinte e depois quatro mil textos escritos depois do seu nascimento, e percebará por si próprio o que digo agora em palavras de ouro:

Que afinal é isto: que pouco antes do modernismo um autor, a maioria dos autores, todos os autores*, queriam soar como sábios, ao passo que hoje a compulsão é de parecerem espertos; que esta era antes a aspiração universal, a de ser um sábio barbudo, ao passo que agora é a de ser um espertinho barbudo; que antes na melhor das hipóteses às vezes os autores eram sábios mesmo, mas que agora na melhor das hipóteses os autores são espertinhos; que o estilo tendia à nobreza e à beleza, e a uma ironia gentil; que ninguém fazia muita questão de que a verdade que diziam em sentenças latinamente parrudas fosse surpreendente, e que na verdade considerariam esse aspecto surpreendente um sinal de que a afirmação não devia ser verdadeira; que estavam satisfeitos se a verdade que diziam soasse um pouco óbvia, desde que fosse verdadeira mesmo e, de bônus, nobre; ao passo que hoje todos querem ter a virtude de um raio X, mostrar o que ninguém vê, o que você certamente não viu pousado na sua própria camisa e que eles apontam com um sorriso, o que só eles vêem, o que suspeito que nem eles vêem, o que ninguém pode ver porque não está lá.

Se a atitude do autor pré-moderno era algo como “Me deixe contar alguma coisa da minha experiência, e talvez você reconheça algumas verdades que já havia depreendido por si mesmo”, a atitude do autor moderno é sempre um irritante “Enquanto você está indo, eu já estou voltando, winkwink nudgenudge oinkoink”. E eis toda a literatura contemporânea fazendo uma dança de vitória logo depois da, ou mesmo (obscenamente) durante a, sua longa frase espertinha.

*com exceção de um ocasional frívolo manganão como Jerome K Jerome, ou o autor de “Diary of a Nobody”, ou Lewis Carroll, ou Lear, que nunca quiseram parecer sábios ou nobres (mas também nunca quiseram parecer mais espertinhos que o leitor). Que Deus os tenha e guarde numa caixinha forrada de algodão, e os tire de vez em quando pra fora pra brincar.

Chego a Sentir Saudade dos Jegues

Vou dizer uma coisa que me irrita na literatura brasileira contemporânea. Não querem ser realistas, o que admito que não é por si um desejo mórbido depois de tantos jegues, de tantos matadores de aluguel, e de tantas Fátimas que queriam mostrar o pé na choperia lá por volta de dez anos atrás. Mas a maneira que encontram de evitar o realismo é a vaguidão.

A cidade não é nomeada, é uma cidade que se pretende mítica com avenidas sem nome, praças sem nome, um rio sem nome. É como uma dessas abstrações de cidade que aparecem em algumas HQs, adaptações ruins de Kafka por exemplo: prédios uniformes, uma vaga idéia de asfalto e pombos.

Nenhuma noção de bairro, de bairros diferentes com personalidades diferentes; da atmosfera peculiar a uma rua com nome e história, em uma manhã específica; enfim, daquilo que aquele magnífico salta-pocinhas chamava de “a alma encantadora das ruas”. Não, é como uma direção de peça: LOCAL: UMA GRANDE CIDADE BRASILEIRA, e basta.

Os personagens são Ele e Ela; às vezes o Avô, a Criança ou o Contador, em frases como “o Contador acorda, e pela janela vê que a Criança ainda não saiu de junto ao poste do outro lado da Avenida”. Se têm nome, não têm sobrenome. Sim, se têm nome, há de ser alguma coisa genérica simbolizando todos os homens e todas as mulheres de uma geração, tipo Edu ou Márcia.

Esses Edus evidentemente têm rostos, mas você que os imagine. Você que imagine tudo, os rostos e as casas, as viagens de ônibus intermunicipal, o jeito do Contador andar; mas por favor não imagine com muito detalhismo, não dê uma assimetria aos olhos do Edu que o torne vívido demais ou ele vai ficar menos simbólico de todos os jovens anedônicos na Cidade Moderna.

(entra o coro com orguinho

~JOVENS ANEDÔNICOS ~

~JOVENS ANEDÔNICOS ~

~NESTA CIDADE IMUNDA~, etc)

O tempo é vago, em que época se passa?, ora se passa sempre num Agora. O que queria, o trimestre? E narramos no tempo presente – ele não acordou, ele acorda – às vezes com Itálicos de Angústia, para marcarmos a diferença entre o presente vago e o passado vago. Porque no passado houve um evento traumático na vida do Contador, que demoramos para perceber exatamente o que foi, mas lá pelo fim imagino que percebemos com clareza (imagino porque não chego ao fim). O livro inteiro pulamos do presente ao passado, sempre através não dos olhos, que ele não os têm, mas da mente do Contador, de Edu, de Ele. De fato, ele tem uma mente e, senhores, se preparem porque ela vai REMOER (a literatura contemporânea não vê, não ouve, ela remói).

Essa mente sem olhos se debate na Cidade Moderna, como numa gigantesca noite de insônia; ela soltou o lençol com as suas pernas inquietas e está molhada de suor na noite da sua insônia muito artística. Sofre no presente e sofre no passado (o tom característico da literatura contemporânea é uma angustiazinha de merda). Essa mente narradora pensa que não sofre, porque o personagem se crê um pouco morto por dentro e sem emoções, mas porém falando sempre das suas emoções; uma espécie de estóico choramingas. E tudo é emoção, nada é concreto e visível: não há esquinas que se vejam bem, nem pátios nem vitrais, só declarações diretas de ressentimentos, raivas, ternuras.

Olha, isto é nem só o mal da literatura brasileira contemporânea, se é um mal, mas advogo que seja; advogo que seja, porque quero ver coisas como o minúsculo e trêmulo poodle com “glistening eyes like sad black olives” em “Ada”. Me deixe ver alguma coisa, sim, no meio desta neblina? Chego a sentir saudades dos jegues da literatura brasileira – pelo menos jegues eram uma coisa que você via nitidamente. Mas como dizia, não só da literatura brasileira: leia qualquer coisa de Lobo Antunes, como fala dos seus sentimentos este homem, quase como uma divorciada tomando uísque.

Disse faz pouco que a literatura contemporânea não vê, não ouve, ela remói? Pois sim, é uma ex-namorada reclamando noite adentro (não sem a sua dose de razão). É como imagino o Inferno: sentimentos remoídos, eternamente, nas trevas.

Ou, o romance contemporâneo como quebra-cabeças cujas peças são mágoas que você tem que colocar em ordem: este sentimento ferido vem aqui, pouco antes deste outro sentimento ferido.

Ou lê aqui o início de “O Cemitério de Raparigas”, do MEC, de quem gosto muito na não-ficção, olhe como não se vê nada: “Por acaso a mulher que matou as minhas namoradas é casada comigo – senão eu não contava. Nada. Nem estava aqui. Não teria maneira de saber. Nenhuma. Como é que poderia contar fosse o que fosse? Livra! Haverá pensamento mais triste?”

E por aí vai, me parecem todos assim ultimamente. Mas que sei eu, nem leio tantos livros contemporâneos assim, imagino que há exceções. Ó homem das exceções, sei que há exceções. Sempre vem alguém me aborrecer com exceções.

Dr Palhinha de Taubaté, o Maior Detetive que o Mundo Já Conheceu

Honório Palha de Godoy, 68, o Dr Palhinha de Taubaté, é sem dúvida o maior detetive que o mundo já conheceu. Mas seus métodos são polêmicos e, dizem os detetives estrangeiros, “pré-científicos”; ao que o Dr Palhinha nada responde senão cuspir tabaco no chão da pracinha.

É um homem bronco, fortão, facilmente avermelhável, que passa o dia no banco da praça Calixto Bolinha com seus amigos taxistas e a tia do bócio, a arejar as unhas encravadas sob a sombra dum imenso jequitibá branco. Até aquele canto sombreado de praça vêm potentados do mundo inteiro procurar os conselhos do Dr Palhinha: o sr Jimmy Carter (recebido pela tia do bócio nos termos “ô seu Jimmy, senta aí”), o físico aquele da cadeira, todo torto coitado, tenistas russas, marajás com turbantes altíssimos que esbarram nos galhos das duas figueiras da praça, chefes de tribos do Pacífico, banqueiros suíços, guerrilheiros latinos, sheiks a brilhar de ouro.

Pela praça todos eles avançam um tanto hesitantes, porque sabem que o Dr Palhinha pode fazer um comentário sobre suas raças esquisitas. Mas sentam no banco ao lado do detetive e o Dr Palhinha os ouve até o fim, em meio ao silêncio respeitoso dos seus amigos taxistas. A história se desenrola com a ajuda de um intérprete; a tia do bócio batuca pensativamente no seu bócio; e o Dr Palhinha, nunca visto sem sandália por causa da condição lamentável das suas unhas, tira bicho-do-pé com um canivete. Quando a história termina, o Dr Palhinha guarda o canivete no bolso da camisa safari, olha para o paxá, ou astro de Hollywood ou o que o valha, e invariavelmente diz:

-O mister quer sorvete de milho? Óia que é dos bons viu. Agenor vai comprar um sorvete de milho pro moço.

Agenor o taxista vai. Às vezes é o filho dele que vai na sorveteria ali da frente. O paxá, czar das drogas ou dervixe – de conforme com quem seja – espera em silêncio porque sabe de ter sido informado que esse ritual tem que ser cumprido, ou o Dr Palhinha fecha a cara. Agenor volta com duas casquinhas. É muito lento o Agenor, demorou demais. Paxá e Dr Palhinha se esbaldam. O Dr Palhinha gosta especialmente de ver um tirano indonésio de óculos escuros, um tipo assim sinistro, lambuzar a barba toda de sorvete de milho. Fica paternal, oferece guardanapo.

-Viu, o caso aí que o senhor falou, vou ter que ir lá dar uma olhada – o Dr Palhinha acaba dizendo.

E lá vai o Dr Palhinha junto com o paxá gordote num jatinho para algum palácio oriental, o Dr Palhinha sempre nervoso porque vai perder a novela, tentando sintonizar a telinha do jatinho, batendo com a unha comprida e rachada na tela de plasma.

-Onde sintoniza esse troço?

-I don’t believe it’s possible to do it…

-Não consigo sintonizar esse troço.

Quanto ao famoso método dedutivo do Dr Palhinha, e sua sabedoria ancestral, pré-iluminista, mas estranhamente eficiente, basta que conte dois episódios curtos.

1 – O MASSACRE DE CONVINGTON

Na cidade de Convington, Maschassusets (letras trocadas para proteger a identidade do estado), uma jovem enxadrista russa a Srta Ludmila Pogonina foi encontrada morta no seu quarto durante a festa de Natal de 2006. Ela havia sido apunhalada no coração com um bispo branco de madeira, que estava sumido da caixa onde as peças eram guardadas.

A porta estava trancada por dentro, mas a janela do quarto estava aberta e havia marcas de pés e de dedos em toda a beirada da janela. O assassino havia pulado no roseiral lá embaixo, deixando rastros que voltavam para a casa, o que indicava que o assassino era um dos muitos hóspedes. A polícia americana discutiu muito sobre o motivo do crime, porque entre os hóspedes estavam dois herdeiros da enxadrista riquíssima, uma enxadrista rival, e um cara que não gostava de xadrez (achava meio chato).

O caso se arrastou por uma semana. Nem a polícia americana chegava a uma conclusão, nem os hóspedes podiam ir embora da casa.

Nisso, chamaram o Dr Palhinha.

O Dr Palhinha nem quis ler o testamento complexo da enxadrista no avião. Só tirou um cochilo, ficou na dele.

O xerife Sam Triscoe escoltou o Dr Palhinha até o centro do quarto, onde um contorno de giz ainda marcava as curvas voluptuosas da enxadrista morta. O Dr Palhinha ficou de cócoras no chão examinando o carpete, enquanto Sam “Thunderbolt” Triscoe esperava em silêncio respeitoso.

O Dr Palhinha deu uma risadinha mas não disse nada. Daí o detetive foi para a janela, examinou a beirada, e riu de novo.

-Ó isso aqui – o Dr Palhinha disse, apontando para as marcas de pés e dedos na janela. E a seguir disse: – Isso aqui é serviço de preto.

Com alguma hesitação, o intérprete traduziu as palavras do Dr Palhinha. Em meio ao silêncio chocado dos suspeitos que aguardavam em volta, o xerife ia expressar a sua consternação com o racismo gratuito do investigador brasileiro quando um dos suspeitos, o sr. Thomas Sowell, um senhor negro muito respeitado que aliás é o maior economista vivo, ficou pálido e, com as ventas se alargando de pânico, deu um grito e se atirou pela janela, caindo no roseiral.

-Get him, boys! – gritou Sam Triscoe, dando início a uma perseguição que durou dois dias, até que Thomas Sowell, faminto e com as roupas todas rasgadas, fosse apanhado num pântano a seis quilômetros dali, e se verificasse que de fato estava com um bispo branco manchado de sangue no bolso.

Mas quem diz que os estrangeiros aceitam nossas técnicas tradicionais de investigação? Mal o xerife havia saído correndo em perseguição ao economista de 81 anos, a srta Lucille Boyard, que mais tarde viraria presidente do movimento FREE THOMAS SOWELL, disse o que todos estavam pensando:

-Mas isso não quer dizer nada… O senhor acertou por pura sorte.

Ao que o célebre taubateense, que não gosta de “dar trela pra mulher respondona”, só respondeu:

-Então tá bão.

2 – O CASO DO NARIZ DE S.PETERSBURGO

Diz o Dr Palhinha de Taubaté, sentado na praça Calixto Bolinha no intervalo do jogo no radinho de pilha:

-Meu método ah o meu método é o seguinte. Não tem segredo não. Cê vê o culpado de acordo com a raça do bicho. Cada raça mata de um jeito diferente. Francês pega na faca de um jeito assim meio de viado. Já viu facada de viado? Eles num perfura não, eles corta. Espanhol não, espanhol é furioso, a ferida vai fundo. Já italiano cê reconhece porque ele salpica o cadáver de lágrima.

Perde a humanidade ao abandonar essa sabedoria de todos os tempos.

Mas mais um caso. O célebre Caso do Nariz de S.Petersburgo.

Numa enorme escola de balé em S.Petersburgo, o velho coreógrafo St Didier foi encontrado morto, atravessado no peito pela baioneta usada para os ensaios do Quebra Nozes. A primeira coisa que o Dr Palhinha disse foi:

-Achei que ia ser coisa de viado, mas óia, foi fundo.

-O senhor acha então que o criminoso não é um homossexual? – perguntou um jornalista.

-Óia, se for é das brabas.

Depois de entrevistar as alunas da escola (“Mas dançam essas danadas, viu”), os professores e secretárias, o Dr Palhinha reuniu todos os suspeitos e a imprensa internacional no salão principal, e sentou no banquinho do piano para descansar os pés.

-Esse espelho todo nossa deve ter custado uma dinheirama – ele comentou. – Quanto custou?

-Uma bagatelle… – disse em francês pernóstico a Mme Provaskaya, a gordota mestra de balé e administradora da escola.

-Então, no início eu pensei aqui comigo, balé é coisa de viado. Mas daí eu vi que os dois homens que podiam ter matado o seu Didier não tem cara de viado. Nossa se o Andrey for viado então tá tudo perdido, olha a altura do ómi.

Andrey era, de fato, muito alto para ser um homossexual.

O Dr Palhinha acenou para que uma criada se aproximasse. Ela deixou em cima do piano um pratinho coberto por um pano, e foi embora. O Dr Palhinha ignorou o prato e disse:

-Mas daí que eu vi, tem um dinheirama disgramado em jogo aqui. Essa escola tem mais espelho que quarto de jogador de futebol. A motivação do crime foi claramente dinheiro. E isso é coisa de judeu viu. – Lentamente o Dr Palhinha correu os olhos pelos presentes. – Porque judeu é assim ó.

Todos olharam para a sua mão fechada e cheia de manchas senis.

-Daí eu perguntei pro seu Dmitri da polícia quem que na escola que era judeu, e ele disse que não tinha judeu aqui. E eu pensei aqui com os meus botões, mas tá bom que não tem judeu. Só o nariz da Mme Provaskaya dá dois do meu.

Imediatamente Mme Provaskaya deu um grito e cobriu o nariz com as mãos (ou tentou cobrir, porque uma parte ficava sempre para fora).

-Absurdo! Não há uma gota de sangue judeu na minha família!

O Dr Palhinha palitou os dentes devagar, tirou o palito, sorriu sabido.

-Ah é então, então come isso aqui – e, tirando dramaticamente o pano de cima do prato pousado no piano, revelou aos olhos de todos um imenso e fumegante chouriço.

-O que é isso? – Mme Provaskaya perguntou, para ganhar tempo.

-Chouriço com jilozinho. Trouxe lá da Chácara do Visconde.

Ele levantou e ofereceu o petisco para a velha bailarina.

-Tá bão. Cê num quer, como eu.  – Ele comeu um pouco. – Nhami nhami chouricinho.

Nisso Dmitri Bolkonsky, chefe de polícia, não aguentou mais e interrompeu a cena atroz:

-Não posso permitir um ato de flagrante anti-semitismo…

Mas, infelizmente para todas as consciências esclarecidas, nesse mesmo momento Mme Provaskaya, se levantando e dando um guincho, explodiu numa nuvem de enxofre – e antes que a nuvem tomasse conta do salão e a assassina desaparecesse para sempre, todos viram que no lugar de pés a velha tinha cascos de cabra.

O Dr Palhinha se persignou algumas vezes, assustado. E depois, dando de ombros, terminou de comer o chouriço.

Parem de ser budistas

Não medito. Não só não medito, como imploro a você com histeria desmedida que não medite também. Pois, que é a meditação? Que é a meditação, mestre? Meditar é pegar uma pedra e atirá-la no macaquinho da sua mente, aquele descrito em todos os livros de introdução à meditação no estado de pular freneticamente de pensamento em pensamento. Você atira uma pedra no macaquinho da sua mente, ele cai aturdido no chão, respirando com dificuldade, sangue brotando do seu rostinho. Pode bem ser que a sua mente se acalme, neófito, que os galhos da sua mente deixem de ser sacudidos o tempo todo largando folhas parrudas no solo lamacento da sua psique. Pode bem ser que você fique em paz sem o macaco e tome iogurte como numa propaganda de iogurte, todo magro e freaking put-together. Mas quem escreve os seus livros? Quem escreveu todos os livros da civilização ocidental? Quem teve todas as idéias que a ciência e a técnica tiveram? Que mente em paz e parada é capaz de uma única associação de idéias? Pois o macaco da sua mente, o macaco mesmo é a civilização ocidental, com sua carinha triste e enrugadinha e seus gestos rapidinhos. Faça respiração boca-a-boca no macaquinho ferido da mente ocidental. A meditação são pedras que o oriente lança contra nós acá, contra nossas mentes que eles abominam. E nem estou exagerando, eles dizem com todas as letras que nos abominam e às nossas mentes. “No Ocidente eles pensam que… A mente ocidental é por demais…” E você acata? Que deu em você? Nos seus brios, nos famosos pelos das suas ventas? Seus antepassados olham para você do Valhala italiano ou português, e as barbas deles fremem de atarantamento ao vê-lo sentado no chão do banheiro em posição de lótus, como um pagão. Eu compreendo que às vezes você se sente agitado demais, mas nesse caso toma um suco de maracujá e respira fundo, uma vez, duas vezes no máximo, como um ocidental.

Brasil

A razão para os racionalistas é um instrumento para deixar de entender as coisas. Vão aplicando a razão a tudo e vão descompreendendo as coisas do mundo, uma de cada vez. “Não vejo sentido nisto, não vejo sentido naquilo. De um ponto de vista puramente racional, isto não faz sentido.” De razão em razão vão ficando de quatro a babar no capim. Porém, deixe dizer:

O argumento velho de que não faz sentido sentir orgulho do país em que se nasceu, porque não temos mérito disso. Ó meu senhor, tenha paciência. Em todo fórum, caixa de comentário, formspring um antipatriota está digitando isso mesmo, contente com o seu insight lá dele que é dele. Autores importantes fazem isso também, em entrevistas para a promoção de livros.

Em primeiro lugar, só o orgulho daquilo de que não temos mérito é bonito de ter. Ter orgulho daquilo de que temos mérito me parece um pouco satânico. Porque o primeiro orgulho é o orgulho dum presente que se recebeu, um caminhãozinho de plástico que lhe foi dado a troco de nada pelo Universo, e lá está você todo contente com ele. Pois que fique! Com estas mãos peludas, protejo de toda a rascorja vil o seu orgulho santo e bobo. Já o segundo orgulho é um orgulho malévolo porque todo justificado, todo mesquinhamente argumentado: vejam o que fiz. Não ganhei, fiz. Há um vídeo de eu fazendo. Deus nada tem a ver com isto, eu que fiz.

E em segundo, racionalistas, acompanhem: um patriota sente orgulho de ter nascido no Brasil não porque ache que concorreu com milhões de infelizes nepaleses e lascares pelo direito de nascer no Brasil e, acotovelando-os machamente, venceu, e como prêmio nasceu em Sorocaba: mas porque acha que depois de ter nascido no Brasil recebeu do ambiente à volta qualidades que acha supimpas, e que acha que os outros países e culturas não lhe dariam. E está certo nisso, completamente justificado, sim sim.

Países dão qualidades diferentes às pessoas. Não sei sambar porque sou brasileiro. Sendo brasileiro, de classe média, com menos de cinquenta anos, sambar me parece algo muito exótico, mas não tão exótico que me interesse. Se tivesse nascido alemão, capaz que sambasse todo vermelho no rosto, uma ou duas vezes por ano. Se fosse japonês, gostaria de gafieira, mas como sou brasileiro (sacudindo a camisa com garra) gosto de roquinho japonês. E por aí vai: quero aprender a dançar tango porque sou brasileiro. Porque sou brasileiro, quero aprender tap dancing.

Não sei, não sou a pessoa mais indicada a dizer, porque não sou patriota. Não sei bem quais qualidades o Brasil dá. No fundo só vejo uma certa bundamolice. Em aeroportos, se vejo alguém cuja cara parece indicar uma certa bundamolice, chuto que é brasileiro. Mas mesmo assim, outras qualidades o Brasil há de dar, e por Deus esses bunda-moles estão certos. Certos de ter orgulho de ter nascido em Blumenau, Olinda ou o que seja. São herdeiros de alguma coisa que eu não sei o que é, que infelizmente não tenho, ou tenho e não sei. E nenhum argumento racionalista abobalhado de zumbi lhes tirará das mãos a bandeira metafórica e gloriosa, que infelizmente é meio feia, é verdade.

Folheto

Um novo conceito de fitness: cardiobullying. No cardiobullying um menino fracassado socialmente é trazido dopado num saco pela profa Gilza (terças e quintas) ou pelo prof Ademar (segundas e quartas). Em seguida há uma sessão bastante agitada de perseguição em volta da pista de cooper, terminando em dez minutos de cardioboxe com o menino servindo de saco de areia humano. “Sacos de areia humanos são mais valorizados pelos especialistas devido à sua imprevisibilidade”, diz a Profa Gilza Arruda, 33.

Mas atenção: se o aluno não for trazido dopado, mas apenas amarrado, desconfie da qualidade da academia. A profa Gilza explica que “quando o menino chega só amarrado ele já começa a aula exausto de ficar estrebuchando dentro do saco, e os tiros de sprint para alcançar o garoto acabam sendo um desapontamento. Aerobullying não é só cardioboxe, é corrida, alongamento e uma excelente forma de entrosamento social. Um treino para todo o sistema cardiovascular e para o complexo neuro-motor. Mas claro, quem não gosta de dar umas porradas?”

A modalidade chegou ao Brasil nos anos noventa, segundo a profa Gilza, quando ainda era conhecida como aerospanking. “Tudo começou com uma dona de casa em Miami que estava batendo no bumbum do filho quando uma música techno começou a tocar no rádio, This is the Rhythm of the Night, e ela começou a sincronizar os tapas no filho com o ritmo da música. No início do milênio o cardiospanking virou moda nos Estados Unidos como uma maneira de ficar em forma em casa com pouco equipamento. Era só comprar um aparelho de som, uma luva especial para evitar que todo o sangue fique na palma da mão,  baixar a calça do filho ou da filha e perder muitas calorias se divertindo” diz Gilza. “Inclusive muitas crianças samoanas acabaram sendo adotadas para a prática do aerospanking, porque elas são muito macias,” explica Ademar, que junto com Gilza é a dono da academia no bairro do Butantã desde 2010.

O cardiobullying (também conhecido no Brasil como “aerobule”) foi desenvolvido a partir do aerospanking para ser feito em grandes academias, e logo virou coqueluche. “Não requer muito equipamento, só um menino tímido ou com problemas de dicção, ou até uma menina que não fala ou com sudorese, espaço para corrida e luvas de vale-tudo”, diz a prof Gilza, que em 2005 foi campeã nos EUA de MMA adulto contra criança e atualmente faz mestrado em Educação Física.

Para quem está interessado em perder peso de maneira divertida, a academia também oferece: aerotwitter, aerosoneca, cardiolanche vegetariano (mastigação de alface enquanto se dança zouk),  aerodogging, cardiocuckold, cardiopunheta, cardiovoltinha na praça, aerosorvete de milho, o you-thai (a prática de ver vídeos do youtube durante luta de muay thai) e finalmente, para os alunos católicos com pouco tempo de ir à missa, o cardiorosário. Mais informações com Elenita no horário comercial.

Moralismo é gostoso

Grande, já mostram pintos em comédias inócuas do tipo “Hangover 2″. Logo vai aparecer um pinto nos Muppets. O Animal vai bater o pinto ereto na bateria, com suas duas bolinhas de lã.

Ninguém fica chocado, porque eliminamos as avozinhas chocáveis, as que se benziam toda hora. As avós que vejo por aí falam às netas de técnicas para ejaculação feminina. Avós que falam em caralhos e cus. As avós e avôs tradicionais, que cobriam todo o espectro da inteligência, do bronco ao Nicolás Gómez Dávila, eram a reserva da decência no mundo. Eu ficava chocado quando via obscenidades em público porque pensava nesses avozinhos míticos passando na rua e vendo aquilo. Toda a civilização dependia do cuidado com esses velhinhos hipotéticos.

Agora que se foram, agora que morreu o último, se persignando todo chocado com a visão de um mamilo de Will Ferrell, falemos todos palavrões então, como uma menina a três semanas de optar por se tornar prostituta gritando aos guinchos com as amigas no ônibus. Penduremos logo as tetas para fora das blusas.

Menos, Alexandre! Estás a Luis Felipe Pondé o texto todo.

Mas sim, Pondé está hoje à coca na minha alma, tenham paciência. Ademais eu sei que estou exagerando, que ainda há avós pudicas, me deixem exagerar, larguem minha blusa. Essas avós morrem ao ritmo frenético de escoteiros perdidos na floresta.

O que me espanta é que ninguém perceba o quanto o moralismo é gostoso. Podemos todas as perversões, mas moralismo não, né? Ora, tenta fazer com o rosto uma expressão de censura moral. Enche o peito inclusive, fica ereto, faz cara de desgosto.

Gostoso, não? Um pouco sexy?

Sexo é mais sexy contra um pano de fundo de um moralismo disseminado e acachapante, de senhores caturros. Preservemos a decência, senhores, e em público voltemos a cobrir certos assuntos de silêncio – quanto mais não seja para continuar conseguindo ter ereções.

Phlap

Sound defines the game. The ball makes a schlooping hiss as it comes off hair-thin strings stretched to thirty pounds per ounce. Sneakers squeak on the floor like a disgruntled aviary. Players grunt and gasp and moan at errors. In between points they wipe their hands along the wall as if they are painting with sweat. Above all there is the distinctive phlap of rubber meeting wood. This is squash – the ball closing upon itself as it slams into the front wall, then opening again as it rebounds back. It is a stuttering, metronomic incantation, as intimate, steady and comforting as a heartbeat.

James Zug, “Squash, a History of the Game”

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